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Cerco apertado aos decasséguis

O Globo, 15/02/10

Nova lei de imigração deve restringir a permanência de brasileiros no Japão

Cláudia Sarmento
Correspondente TÓQUIO

Os personagens mudam, mas o enredo das histórias de brasileiros que vivem no Japão, os decasséguis, se repete. São descendentes de japoneses que deixaram o Brasil para buscar um lugar ao sol na segunda maior economia do mundo, com a intenção de ficar apenas dois ou três anos, juntar dinheiro e voltar para casa. Mas o plano inicial sofreu ajustes radicais: os decasséguis foram ficando, a família foi crescendo e o dinheiro raramente era suficiente para garantir uma vida melhor em terras brasileiras. Depois de uma crise sem precedentes em 2009, o movimento migratório, que completa duas décadas este ano, enfrenta agora uma prova de fogo. O sonho de viver no Japão como operário bem remunerado acabou e possíveis mudanças na lei de imigração japonesa podem enterrar de vez as ilusões de quem ainda pensa em embarcar nessa aventura.

Desde outubro de 2008, quando começaram as demissões em massa no Japão, voltaram ao Brasil 50 mil decasséguis. Em 20 anos, foi o maior número de retornos, e a comunidade brasileira despencou de 317 mil em 2008 para 270 mil em 2009. As remessas de dinheiro de pessoas físicas do Japão para o Brasil sofreram uma queda de 40,7% em apenas um ano, caindo de US$717,2 milhões em 2008 para US$424,8 milhões no ano passado.

Poucos imigrantes (16.255) aceitaram a polêmica oferta financeira do governo japonês para que voltassem para casa: em troca de 300 mil ienes (cerca de US$3 mil) por trabalhador e 200 mil ienes por dependente (US$2 mil), os brasileiros perdem direito ao visto de entrada pelos próximos três anos. O chamado auxílio-retorno termina em março e, quem está decidido a ficar, terá que se adaptar a uma nova realidade. O desemprego é alto (5,1%), salários foram reduzidos e, enquanto a China espera crescer mais de 8% em 2010, o Japão deve registrar um crescimento de 1,7%, segundo o FMI.

— Temos que repensar nossa vida no Japão, que nunca foi um lugar fácil, mas agora está pior.

Fazemos o trabalho sujo, pesado e perigoso e, mesmo assim, os salários caíram. Quem quiser continuar aqui, precisa aprender a falar japonês para conseguir colocações melhores — afirma Francisco Freitas, secretário-geral da NNBJ, entidade que agrega várias associações de brasileiros no Japão.

Projeto condena falta de formação

A questão da língua é fundamental.

A maioria dos decasséguis não fala japonês e só desempenha trabalhos mecânicos. Apesar dos traços orientais, vivem isolados da sociedade e, como têm a ilusão de que estão de passagem, resistem em colocar os filhos nas escolas públicas japonesas. As crianças são matriculadas em colégios brasileiros, caros e, em geral, com baixa qualidade de ensino. Com a crise, vários decasséguis tiraram os filhos da escola e dezenas de estabelecimentos fecharam. O resultado se vê em lugares como a Paróquia São Francisco, em Hamamatsu, que atende 50 crianças brasileiras, dos 6 aos 16 anos. Elas não estudavam e mal tinham o que comer.

— Quando começamos a distribuir cestas básicas para os desempregados, há um ano, notamos que as crianças não iam à escola, passavam o dia em frente à TV — diz o padre japonês Angel Yamanouchi, diretor da paróquia, onde voluntários dão aulas de japonês, português e matemática para os menores, além de fornecer as refeições.

— Achei que fosse algo temporário, nunca imaginei que isso fosse durar tanto tempo — conta.

Para o padre, existe uma geração sem pátria, criada no Japão: seus pais falam de um Brasil que as crianças não conhecem e, ao mesmo tempo, vivem distantes da cultura japonesa.

— Elas nunca serão 100% brasileiras, nem 100% japonesas. Não têm sonhos ou ideais — diz o religioso, que recebe na paróquia crianças que cursavam o ensino fundamental, mas são semianalfabetas.

Um projeto de lei que deverá ir à votação em março prevê a revisão da lei de imigração japonesa. O governo quer limitar a entrada de mão-deobra não qualificada, o que afetaria diretamente os brasileiros. Em 1990, o Japão crescia em ritmo acelerado e faltavam profissionais, o que levou o país a liberar o visto de trabalho para os descendentes até a terceira geração (sanseis). Em 2005, o número de decasséguis atingiu o ápice: 330 mil. Agora, o Japão quer mais qualidade e menos quantidade, defendendo no projeto de lei a entrada de trabalhadores com boa formação acadêmica, como pesquisadores.

Os descendentes não seriam barrados, mas o projeto estabelece condições para que consigam visto: domínio da língua, autossuficiência (garantias de que podem pagar um seguro-saúde, por exemplo) e a comprovação da matrícula dos filhos em escolas. Não se sabe quais as chances de o projeto virar lei, mas os envolvidos na discussão admitem que seria uma mudança radical na política migratória.

De qualquer maneira, o cenário atual para os decasséguis já é árido.

Antes da crise, os operários brasileiros, contratados por intermediários — as hakens — recebiam até US$15 por hora. Hoje trabalham por US$9 a hora, salário insuficiente para bancar o alto custo de vida no Japão. E ainda há a concorrência dos imigrantes chineses, uma mãodeobra mais barata.

Brasileiros vivem com seguro-social

Em Hamamatsu, cidade que tem a maior concentração de decasséguis (15 mil), fica claro que os sonhos de fartura viraram apenas luta pela sobrevivência.

O lugar abriga fábricas como as da Yamaha, Honda e Suzuki — sacudidas pelo terremoto financeiro.

O governo não divulga o índice de desemprego por nacionalidade, mas esbarra-se com brasileiros sobrevivendo graças ao segurosocial em todos os cantos.

Thiago Kazuto tem 26 anos e chegou ao Japão com 14. Nunca terminou o 2ograu. Trabalhou como operário e agora vive do seguro-desemprego. Ele diz que vai voltar ao Brasil, mas não quer o auxílio- retorno.

— Não abro mão do meu visto e tenho meu orgulho — afirma.

Já o paulista José César Gomes deixou o orgulho de lado após cinco anos no país. Está de malas prontas para voltar ao Brasil, com a ajuda do governo. Não chegou a passar fome, mas cortou a escola dos filhos.

— Desembarquei aqui achando que bastava trabalhar duro, mas é mais complicado do que isso — diz.

As reclamações contra o governo japonês são comuns, mas o governo brasileiro tem elogiado as medidas tomadas para ajudar a comunidade. Desemprego e jovens sem estudo levam à criminalidade: os brasileiros lideram, por exemplo, as prisões por roubo de carro. Para tentar paralisar essa bomba-relógio, o governo dobrou o número de atendentes que falam português nas agências de emprego, liberou US$3,7 milhões para cursos de japonês e prolongou o seguro- desemprego. Os benefícios e a segurança das cidades japonesas pesam na balança a favor da permanência no Japão.

— Voltar para o quê? Para onde? Pouca gente consegue poupar. A maioria não tem condições de retornar — resume Freitas.

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