Cerco apertado aos decasséguis
‘Os brasileiros continuam com a eterna ilusão do retorno’
ANGELO ISHI
O sociólogo Angelo Ishi, professor da Universidade Musashi, é o mais antigo pesquisador do movimento decasségui. Apesar da crise, ele vê luz no fim do túnel para os imigrantes brasileiros, mas afirma que uma melhora só virá com uma readaptação.
O GLOBO: Vinte anos após a mudança da lei de imigração no Japão, como o senhor definiria o momento atual do movimento decasségui?
ANGELO ISHI: Costumo dizer que não é o paraíso, mas também não é o inferno. Os decasséguis precisam se readaptar à ideia de uma comunidade com dimensão de 200 a 250 mil pessoas. O número de brasileiros no Japão oscilou de 200 a 250 mil entre os anos de 1996 a 2000. Obviamente, não é possível uma comparação simples com as épocas passadas, já que naquele tempo a maioria dos adultos estava empregada, ao contrário da crise atual. Mas há luz no fim do túnel: nunca o governo brasileiro esteve tão empenhado em relação aos “brasileiros no mundo”; nem o governo japonês tão ciente dos problemas enfrentados pelos brasileiros no Japão; e a imprensa japonesa, do nosso lado.
Quais as principais características dos decasséguis?
ISHI: A grande característica é a ambivalência, pelo fato de que os brasileiros no Japão são, em sua maioria, nikkeis: estrangeiros, porém descendentes de japoneses. A ajuda de 300 mil ienes foi restrita aos nikkeis. Mas não encaro isso como favorecimento excessivo, pois o governo japonês está reparando o erro de ter facilitado a entrada dos nikkeis com a reforma da Lei de Imigração, em 1990.
Por que, depois de 20 anos, não houve uma integração?
ISHI: Porque os brasileiros continuam com o que chamo de “eterna ilusão do retorno”. A receita que sugiro é: decretem o “Dia do Fico”.
Isso implica em se esforçar para aprender a difícil língua japonesa.
Na conjuntura atual, ainda há espaço para os brasileiros?
ISHI: Sim, e ao mesmo tempo não.
Sim, porque o Japão vai continuar precisando de mão-de-obra estrangeira, e uma parcela dos nikkeis vai ter o seu espaço no mercado de trabalho. A resposta é “não” para os os que insistirem em manter o mesmo estilo de vida e a mentalidade de se relacionar apenas com conterrâneos.
No novo cenário, o brasileiro precisa procurar trabalho fora do setor manufatureiro. A era dos operários bem pagos acabou. (C.S.)





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