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China cada vez mais perto da AL

Javier Santiso, Valor Econômico, 26/07/10

Hoje qualquer alteração econômica na China tem impacto sísmico em todos os cantos do planeta imediatamente

Há uma década, qualquer evento econômico na longínqua China era irrelevante para a América Latina, uma região então voltada para a América do Norte e Europa. A década de 2000 trouxe mudanças fundamentais quanto a isso: qualquer alteração econômica na China agora tem impacto sísmico em todos os cantos do planeta. Dessa forma, a recente reavaliação do yuan virá acompanhada de valorização cambial, em particular, nos países com mais trocas comerciais com o gigante asiático. A China, acima de tudo, é hoje em dia peça central para explicar as dinâmicas econômicas latino-americanas.

Os vínculos comerciais entre ambos não deixam de crescer, impulsionados em parte pela forte demanda do país asiático por matérias-primas. As exportações peruanas para a China dobraram em apenas cinco anos, enquanto as brasileiras, chilenas, colombianas, equatorianas e venezuelanas triplicaram. Como consequência dessa ascensão, a China é atualmente o maior parceiro comercial do Brasil e Chile, à frente dos Estados Unidos. Em breve, o mesmo ocorrerá no Peru, país com o qual a China acaba de assinar acordo de livre comércio, em vigor desde 1º de março de 2000. O caso do Chile é emblemático: em 2009, as exportações à China (23,1% do total) superaram as vendas a toda a União Europeia (22,1%) e aos EUA (11,3%). Entre 2000 e 2007, logo antes da crise mundial, as exportações da região para a China cresceram 370%, em comparação ao aumento de 60% do total exportado. Em 2009, o comércio entre China e América Latina superou os US$150 bilhões. A China transformou-se em uma das principais locomotivas de crescimento da região. Parte da capacidade de resistência à crise em 2008 e 2009, assim como a velocidade de recuperação do crescimento em 2010, agora encontram explicação na (não tão) longínqua Ásia.

As exportações à China, embora representem 11,5% do total mundial (excluindo o México, onde 80% das exportações continuam vinculadas aos EUA), possuem um impacto indireto ainda maior. De maneira geral, as exportações latino-americanas continuam fortemente concentradas em matérias-primas (47,8% em 2009). A China possui, portanto, um impacto comercial direto importante, mas também um indireto, por meio dos preços das matérias-primas, principais fontes de exportação da região.

Para países como a Venezuela (cujas exportações de matérias-primas superam 99% do total) ou Equador (81% do total), assim como para o Peru (78%) e Chile (75%), a influência da demanda chinesa sobre esses mercados é crucial atualmente. Em 2009, 36% da demanda mundial por cobre, 35% por alumínio e 55% por minério de ferro tinham origem na China. Com os produtos agrícolas a situação se repete: até 49% da demanda mundial por carne suína provém do país asiático. A China, também sob esse ponto de vista, é uma das regiões do mundo com mais complementaridades comerciais com a América Latina (com exceção do México que concorre pesadamente, especialmente nos EUA, com os produtos industrializados chineses).

Em termos de investimentos diretos, a China ainda não é dominante na região. É de se prever, contudo, que a combinação da crise na Europa com a necessidade de aumentar a segurança do abastecimento energético e agrícola do país e o imperativo de diversificar sua posição como investidora (no fim de 2009, seus investimentos externos diretos somavam US$230 bilhões, enquanto as reservas internacionais estavam em US$2,5 trilhões) incentive investimentos chineses em outros mercados emergentes, América Latina incluída.

Dentro das operações mais recentes, destacam-se, por exemplo, os acordos com a brasileira Petrobras (US$10 bilhões), a empresa petrolífera argentina Bridas (US$3,1 bilhões, por participação de 50%), a compra do campo petrolífero brasileiro Peregrino (comprado da norueguesa Statoil por US$3 bilhões pela Sinochem) e a mina de cobre Toromocho (US$2,2 bilhões investidos pela Chinalco).

Os investimentos chineses no continente, no entanto, não se limitam a matérias-primas. No Peru, um consórcio chinês investe mais de US$2 bilhões para ampliar a capacidade do porto de Tacna e outros US$8 bilhões para conectá-lo por estradas e ferrovias com áreas de mineração na Bolívia. Também estamos presenciando um aumento no interesse de fundos soberanos da China. Por enquanto, (até o fim de 2009), as participações do CIC em ações na bolsa brasileira representavam apenas 4% do total do fundo chinês no exterior (o CIC, por exemplo, é um importante investidor na mineradora Vale), mas também neste ponto é possível esperar uma maior atuação.

Também presenciamos uma forte elevação nas linhas de crédito bilaterais da China para países da região, em particular, para a Argentina, Brasil, Venezuela e, em menor medida, Equador, somando mais de US$50 bilhões nos últimos três anos. Esses volumes comparam-se, por exemplo, com os US$11 bilhões que o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) libera a cada ano para o continente.

Venezuela e China possuem atualmente vínculos muito fortes, motivados por questões tanto econômicas como políticas. Os intercâmbios comerciais superaram os US$8 bilhões em 2009. Existem, no total, 313 acordos comerciais e mecanismos de investimento entre as duas economias. O mais importante é o Fundo Pesado Bilateral, de US$6 bilhões. Entre os projetos desenvolvidos em conjunto estão os vinculados ao petróleo. Também existem, entretanto, projetos em setores tecnológicos, como o de instalação de fábricas de telefones celulares na Venezuela.

Os chineses gastam mais de 2% de seu Produto Interno Bruto (PIB) em pesquisa e desenvolvimento, patenteando mais de 100 mil licenças por ano (75% das quais são chinesas e as outras, de multinacionais instaladas no país). Na América Latina, por sua vez, os gastos em pesquisa e desenvolvimento chegam a apenas 0,6% do PIB, com o registro de 35 mil patentes em toda a região (quase 90% delas de multinacionais estrangeiras). A cooperação com a China também poderia abranger, portanto, laboratórios e pesquisa e desenvolvimento.

Javier Santiso é professor de Economia da ESADE Business School.

internacional · américa latina, china, comércio exterior
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