China cada vez mais perto da AL
Hoje qualquer alteração econômica na China tem impacto sísmico em todos os cantos do planeta imediatamente
Há uma década, qualquer evento econômico na longínqua China era irrelevante para a América Latina, uma região então voltada para a América do Norte e Europa. A década de 2000 trouxe mudanças fundamentais quanto a isso: qualquer alteração econômica na China agora tem impacto sísmico em todos os cantos do planeta. Dessa forma, a recente reavaliação do yuan virá acompanhada de valorização cambial, em particular, nos países com mais trocas comerciais com o gigante asiático. A China, acima de tudo, é hoje em dia peça central para explicar as dinâmicas econômicas latino-americanas.
Os vínculos comerciais entre ambos não deixam de crescer, impulsionados em parte pela forte demanda do país asiático por matérias-primas. As exportações peruanas para a China dobraram em apenas cinco anos, enquanto as brasileiras, chilenas, colombianas, equatorianas e venezuelanas triplicaram. Como consequência dessa ascensão, a China é atualmente o maior parceiro comercial do Brasil e Chile, à frente dos Estados Unidos. Em breve, o mesmo ocorrerá no Peru, país com o qual a China acaba de assinar acordo de livre comércio, em vigor desde 1º de março de 2000. O caso do Chile é emblemático: em 2009, as exportações à China (23,1% do total) superaram as vendas a toda a União Europeia (22,1%) e aos EUA (11,3%). Entre 2000 e 2007, logo antes da crise mundial, as exportações da região para a China cresceram 370%, em comparação ao aumento de 60% do total exportado. Em 2009, o comércio entre China e América Latina superou os US$150 bilhões. A China transformou-se em uma das principais locomotivas de crescimento da região. Parte da capacidade de resistência à crise em 2008 e 2009, assim como a velocidade de recuperação do crescimento em 2010, agora encontram explicação na (não tão) longínqua Ásia.
As exportações à China, embora representem 11,5% do total mundial (excluindo o México, onde 80% das exportações continuam vinculadas aos EUA), possuem um impacto indireto ainda maior. De maneira geral, as exportações latino-americanas continuam fortemente concentradas em matérias-primas (47,8% em 2009). A China possui, portanto, um impacto comercial direto importante, mas também um indireto, por meio dos preços das matérias-primas, principais fontes de exportação da região.
Para países como a Venezuela (cujas exportações de matérias-primas superam 99% do total) ou Equador (81% do total), assim como para o Peru (78%) e Chile (75%), a influência da demanda chinesa sobre esses mercados é crucial atualmente. Em 2009, 36% da demanda mundial por cobre, 35% por alumínio e 55% por minério de ferro tinham origem na China. Com os produtos agrícolas a situação se repete: até 49% da demanda mundial por carne suína provém do país asiático. A China, também sob esse ponto de vista, é uma das regiões do mundo com mais complementaridades comerciais com a América Latina (com exceção do México que concorre pesadamente, especialmente nos EUA, com os produtos industrializados chineses).
Em termos de investimentos diretos, a China ainda não é dominante na região. É de se prever, contudo, que a combinação da crise na Europa com a necessidade de aumentar a segurança do abastecimento energético e agrícola do país e o imperativo de diversificar sua posição como investidora (no fim de 2009, seus investimentos externos diretos somavam US$230 bilhões, enquanto as reservas internacionais estavam em US$2,5 trilhões) incentive investimentos chineses em outros mercados emergentes, América Latina incluída.
Dentro das operações mais recentes, destacam-se, por exemplo, os acordos com a brasileira Petrobras (US$10 bilhões), a empresa petrolífera argentina Bridas (US$3,1 bilhões, por participação de 50%), a compra do campo petrolífero brasileiro Peregrino (comprado da norueguesa Statoil por US$3 bilhões pela Sinochem) e a mina de cobre Toromocho (US$2,2 bilhões investidos pela Chinalco).
Os investimentos chineses no continente, no entanto, não se limitam a matérias-primas. No Peru, um consórcio chinês investe mais de US$2 bilhões para ampliar a capacidade do porto de Tacna e outros US$8 bilhões para conectá-lo por estradas e ferrovias com áreas de mineração na Bolívia. Também estamos presenciando um aumento no interesse de fundos soberanos da China. Por enquanto, (até o fim de 2009), as participações do CIC em ações na bolsa brasileira representavam apenas 4% do total do fundo chinês no exterior (o CIC, por exemplo, é um importante investidor na mineradora Vale), mas também neste ponto é possível esperar uma maior atuação.
Também presenciamos uma forte elevação nas linhas de crédito bilaterais da China para países da região, em particular, para a Argentina, Brasil, Venezuela e, em menor medida, Equador, somando mais de US$50 bilhões nos últimos três anos. Esses volumes comparam-se, por exemplo, com os US$11 bilhões que o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) libera a cada ano para o continente.
Venezuela e China possuem atualmente vínculos muito fortes, motivados por questões tanto econômicas como políticas. Os intercâmbios comerciais superaram os US$8 bilhões em 2009. Existem, no total, 313 acordos comerciais e mecanismos de investimento entre as duas economias. O mais importante é o Fundo Pesado Bilateral, de US$6 bilhões. Entre os projetos desenvolvidos em conjunto estão os vinculados ao petróleo. Também existem, entretanto, projetos em setores tecnológicos, como o de instalação de fábricas de telefones celulares na Venezuela.
Os chineses gastam mais de 2% de seu Produto Interno Bruto (PIB) em pesquisa e desenvolvimento, patenteando mais de 100 mil licenças por ano (75% das quais são chinesas e as outras, de multinacionais instaladas no país). Na América Latina, por sua vez, os gastos em pesquisa e desenvolvimento chegam a apenas 0,6% do PIB, com o registro de 35 mil patentes em toda a região (quase 90% delas de multinacionais estrangeiras). A cooperação com a China também poderia abranger, portanto, laboratórios e pesquisa e desenvolvimento.
Javier Santiso é professor de Economia da ESADE Business School.





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