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Com ‘capitalismo socialista’, vila chinesa fica rica

O Estado de S. Paulo, 05/06/11

Cláudia Trevisan

Considerada pelo governo um exemplo a ser seguido no país, a mais rica vila rural da China é um misto de socialismo, capitalismo globalizado e coronelismo hereditário, no qual uma única família comanda a política e os negócios.

Os 2 mil moradores originais de Huaxi (província de Jiangsu, a cerca de 150 km de Xangai) são donos milionários de um conglomerado de 70 empresas, que tem ações na Bolsa de Shenzhen desde 1999, fabrica de aço a produtos químicos e faturou US$ 8 bilhões em 2010.

No ano passado, a vila exportou US$ 228 milhões, valor semelhante ao vendido a outros países no mesmo período pela fabricante de ônibus Marcopolo, a 130.ª colocada entre os principais exportadores do Brasil.

Os camponeses de Huaxi não pegam na enxada e moram em sobrados de 600 metros quadrados, com garagem para dois carros e jardins impecáveis, em uma paisagem semelhante ao próspero subúrbio onde vivem os personagens da série de TV norte-americana Desperate Housewives.

Os huaxineses também se beneficiam de um Estado de bem-estar social que garante benefícios inexistentes para a maioria dos chineses, como assistência médica gratuita, aposentadoria e viagem anual ao exterior.

As empresas que geram a prosperidade local não são estatais nem privadas, e se enquadram na categoria de “propriedade coletiva”, parte da “economia socialista”, de acordo com definição do governo chinês.

Mas os socialistas mais ricos da China continuam a praticar a mais valia e empregam em seus negócios 22 mil pessoas, que recebem salários e vivem em apartamentos bem mais modestos que as casas dos habitantes originais da vila.

A utopia huaxiana foi construída sob o comando de Wu Renbao, 83, que durante quase 50 anos ocupou o posto de secretário-geral do Partido Comunista na vila, até se aposentar em 2003, quando foi sucedido por um de seus filhos, Wu Xieen.

Quando Deng Xiaoping iniciou o processo de reforma e abertura da China, no fim dos anos 70, os camponeses de Huaxi perceberam que ganhariam mais se investissem em indústrias do que se continuassem a depender da terra.

Com o excedente de capital que acumularam no início da reforma, eles começaram a criar pequenas linhas de produção, que cresceram e se multiplicaram, até se transformarem no conglomerado atual. A propriedade dos empreendimentos é coletiva e os 2 mil camponeses que viviam em Huaxi no início do processo são os acionistas principais das companhias.

Em uma licença capitalista, os descendentes podem herdar a fatia de seus pais no capital das empresas. Mas nenhum dos donos do empreendimento coletivo pode vender sua fatia, o que significa que não podem deixar Huaxi - a menos que estejam dispostos a abrir mão de seu patrimônio.

A restrição está longe de ser um problema, já que não há notícia de alguém que queira sair, enquanto existe uma fila de pessoas que desejam entrar. Apesar de ser chamado de vila, o lugar é uma pequena cidade, com uma população de 35 mil habitantes, fruto da fusão com outras 20 áreas rurais nos últimos anos.

Além dos 35 mil moradores, há uma infinidade de migrantes de outras regiões com esperanças de serem aceitos como residentes de Huaxi. Funcionário do grupo, o guia que acompanhou a reportagem do Estado é da província de Anhui, uma das mais pobres da China, e vive na vila desde 2003. Na rua, foi abordado por um dos moradores, que o cumprimentou por sua recente aceitação como membro do Partido Comunista, condição essencial para o futuro de sua carreira.

“Muita gente quer viver aqui, mas nós temos critérios e aceitamos pessoas que deem contribuição para a vila, como alto nível acadêmico ou habilidades práticas”, disse Wu Xieen, o atual cacique, em entrevista ao Estado.

O grupo Huaxi não tem sócios estrangeiros e sempre financiou sua expansão com capital próprio. A cada ano, os acionistas são obrigados a reinvestir 80% de seus rendimentos. Ainda assim, recebem por ano cerca de US$ 12 mil, três vezes mais que a renda per capita média da China.

Ideal de felicidade. O ideal de felicidade de Huaxi é divulgado em canções transmitidas por caixas de som na praça central, que exaltam principalmente bens materiais - casa, carro e dinheiro no banco. Mas o hino oficial, composto por Wu Renbao, se rende à doutrina tradicional: “O céu de Huaxi é o céu do Partido Comunista; a terra de Huaxi é a terra do socialismo”.

Apesar de Huaxi ser o exemplo mais bem-sucedido, o modelo de propriedade coletiva de indústrias não é exclusividade local e é encontrado em boa parte da zona rural. Ainda que a produção das empresas não tenha relação com a atividade agrícola, seus donos continuam a ser considerados camponeses pelo sistema de registro que separa moradores do campo e da cidade.

internacional · capitalismo, china, socialismo
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