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Com crise, China rouba mais espaço dos produtos nacionais

O Estado de S. Paulo, 29/06/09

Situação é mais grave na Argentina, mas indústria brasileira perde espaço também nos EUA e no México

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Raquel Landim e Cleide Silva

O Brasil está perdendo espaço para a China em mercados importantes para seus produtos manufaturados, como Estados Unidos, Argentina e México, aponta estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI). O problema é estrutural, mas a crise agravou o cenário, porque retraiu o comércio mundial e acirrou a concorrência.

A situação é mais grave na Argentina, onde o Brasil ainda é o principal fornecedor de produtos industriais, mas a distância para a China diminui velozmente. Em 2003, o Brasil vendia 8,6 vezes mais produtos para a Argentina que a China. Nos 12 meses até março de 2009, a diferença foi de 2,5 vezes.

Nos EUA e no México, as empresas brasileiras incrementaram sua pequena participação recentemente, mas não atingiram sequer 2% das importações totais. Os chineses venderam 11,9 vezes mais que o Brasil no mercado americano e 6,8 vezes mais no mexicano nos 12 meses fechados em março.

“A China aproveita o momento de fragilidade dos mercados mundiais para baixar preço e ocupar espaço em países antes abastecidos pelo Brasil”, diz José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). Ele calcula que o câmbio e a recente redução de impostos de exportação na China representa vantagem de 25% sobre os preços brasileiros.

Segundo Sandra Ríos, consultora da CNI, a tendência de queda da participação brasileira na Argentina é clara no curto prazo, depois que a crise desacelerou a economia e o governo local introduziu barreiras contra importações. Os brasileiros perdem mercado para os chineses no sócio do Mercosul, apesar de não pagarem tarifa de importação e do frete mais barato.

A fatia do Brasil nas compras da Argentina recuou de 32,3% em março de 2008 para 30,1% no fim do ano, e 29,8% em março de 2009, sempre no acumulado em 12 meses. Em contrapartida, a participação da China subiu de 11,4% em março de 2008 para 12,4% em dezembro e 12,6% em março de 2009.

Na tecelagem Cedro, as exportações representam hoje apenas 5% do faturamento, ante 12% em 2008. Para Aguinaldo Diniz Filho, presidente da empresa, a queda foi provocada pelo desaquecimento do mercado externo, pela concorrência com a China e pelas barreiras do governo argentino. “Neste ano não mandamos nada, pois a Argentina não está liberando licença de importação, embora o produto chinês esteja entrando fortemente”. Ele afirma que o denim (tecido utilizado para fabricação de jeans) vindo da China chega na Argentina por US$1,50, abaixo dos US$2,60 cobrados pela tecelagem brasileira.

Os setores têxtil e calçadista foram os mais prejudicados e assistiram suas fatias nas compras da Argentina caírem, respectivamente, de 83% e 79% em 2003 para 53% e 54% em março. No mesmo período, a participação da China nas importações argentinas de sapatos subiu de 13% para 32%. Em têxteis, a alta foi de 2,6% para 23%.

Nos EUA, o Brasil recuperou um pouco de participação no fim de 2008, por conta da desvalorização cambial provocada pela crise na época. A parcela brasileira nas compras americanas saiu de 1,32% em março de 2008 para 1,45% em dezembro e ficou estável em março de 2009. A China chegou a perder espaço nos EUA no auge da crise, mas já se recuperou e respondeu por quase 17% das compras do país em março.

De acordo com Marcio Muller, gerente de exportação da Cerâmica Eliane, “a China se especializou em determinados tipos de produtos e hoje tem escala e custo de produção imbatíveis”. Ele diz que um produto chinês chega no mercado dos EUA até 30% mais barato que o seu. Para não perder contratos, a empresa qualificou fornecedores na China e também atende os clientes americanos via produção no país asiático, mas a maior parte dos produtos que exporta é feito no Brasil.

A German, fabricante de móveis elaborados, instalada em Brasília (DF), perdeu clientes nos Emirados Árabes e nos Estados Unidos. “Já exportamos muito para lá no passado, mas agora não conseguimos mais entrar nesses mercados diante da concorrência predatória dos chineses”, diz José Luiz Dias Fernandez, dono da empresa.

No mercado mexicano, Brasil e China tinham participações muito parecidas em 2001 e ambos os países forneciam pouco mais de 1% das importações totais. Em 2003, a China já respondia por 3,8% das compras do México. Em março de 2009, a participação chinesa nesse mercado atingiu 11,4%.

O Brasil chegou a atender 2,3% da demanda do México por importados em 2006, após um acordo que zerou as tarifas de importação de automóveis entre os dois países. Depois que a economia mexicana foi afetada pela crise, a participação do País retrocedeu para os atuais 1,7%. A China, ao contrário, segue ganhando espaço por causa da alta competitividade.

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