Com declínio dos EUA, oito países em perigo
Com o declínio da preeminência global dos EUA, países mais fracos ficarão mais suscetíveis à influência assertiva de grandes potências regionais. Índia e China estão em ascensão, a Rússia está cada vez mais com ares imperialistas. Há potencial para conflitos regionais. Prepare-se para uma realidade global caracterizada pela sobrevivência do mais forte.
1. GEÓRGIA:
O declínio americano deixaria este pequeno país caucasiano vulnerável à intimidação política e à agressão militar da Rússia. Os EUA forneceram à Geórgia US$3 bilhões em ajuda desde 1991 — US$1 bilhão desde a guerra de 2008 com a Rússia. O declínio imporia novas limitações à capacidade dos EUA e poderia estimular a Rússia a reclamar sua antiga esfera de influência. O líder russo Vladimir Putin odeia o presidente georgiano Mikheil Saakashvili.
EM JOGO: o domínio russo do corredor sul para levar energia à Europa; mais pressão sobre a Europa para acomodar a agenda política russa; efeito dominó no Azerbaijão.
2. TAIWAN:
Desde 1972, os EUA aceitaram a fórmula “uma China”, desde que o status quo não fosse alterado pela força. Pequim se reserva o direito de usar a força, o que permite a Washington justificar a venda de armas a Taiwan. Nos últimos anos, Taiwan e China melhoraram suas relações. O declínio americano aumentaria a vulnerabilidade de Taiwan a pressões chinesas e apressaria o cronograma de reunificação, em termos desfavoráveis a Taiwan.
EM JOGO: risco de uma séria colisão com a China.
3. COREIA DO SUL:
Os EUA são os fiadores da segurança do país desde que foi atacada pela Coreia do Norte em 1950, com o conluio da URSS e da China. A notável decolagem econômica de Seul e seu sistema político democrático atestam o sucesso do engajamento americano. Ao longo dos anos, contudo, a Coreia do Norte tem feito provocações, desde assassinatos de membros do ministério ao afundamento de um navio de guerra em 2010. O declínio americano poria Seul diante de escolhas dolorosas: aceitar o domínio da China e depender dela para brecar o Norte; ou buscar uma relação muito mais estreita, embora historicamente impopular, com o Japão a partir de valores democráticos comuns e temor de agressão de Pyongyang e de Pequim.
EM JOGO: segurança militar e econômica na Península Coreana; uma crise geral de confiança no Japão e na Coreia do Sul em relação aos compromissos assumidos pelos EUA.
4. BELARUS:
Vinte anos após a queda da URSS, a última ditadura da Europa continua política e economicamente dependente da Rússia. A ditadura de 17 anos do presidente Lukashenko tem impedido relações significativas com o Ocidente.
EM JOGO: a segurança dos países bálticos vizinhos.
5. UCRÂNIA:
O relacionamento de Kiev com Moscou tem sido tenso e com o Ocidente, pautado pela indecisão. Em 2005, 2007 e 2009, a Rússia ameaçou e chegou a interromper o fornecimento de óleo e gás natural à Ucrânia. Mais recentemente, o presidente Viktor Yanukovych foi pressionado a estender o aluguel da base naval ucraniana de Sevastopol, no Mar Negro, por mais 25 anos, em troca de preços especiais na venda de energia russa para o país. O Kremlin continua a pressionar a Ucrânia para se juntar a um “espaço econômico comum” com a Rússia, enquanto gradualmente vai retirando do vizinho o controle direto sobre suas maiores empresas industriais, via fusões e incorporações por firmas russas. Com o declínio americano, a Europa estaria menos disposta a incorporar a Ucrânia à comunidade ocidental.
EM JOGO: a renovação das ambições imperiais da Rússia.
6. AFEGANISTÃO:
Devastado por nove anos de uma guerra brutal desfechada pela União Soviética, ignorado pelo Ocidente durante uma década após a retirada soviética e sob o tacão medieval do Talibã, o Afeganistão está em ruínas. Com 40% de desemprego e em 215º no ranking da renda per capita, ele tem pouca produção além do comércio ilegal de narcóticos. Uma rápida retirada americana causada pelo declínio dos EUA resultaria em desintegração interna e em disputa entre os Estados vizinhos por influência sobre o país — com destaque para Índia, Paquistão e Irã. Na ausência de um governo efetivo e estável em Cabul, o Afeganistão seria dominado pelos senhores da guerra.
EM JOGO: a ressurgência do Talibã; uma guerra por procuração entre Índia e Paquistão; paraíso para o terrorismo internacional.
7. PAQUISTÃO:
Embora o país tenha armas nucleares do século XXI e seja mantido unido por um exército profissional do fim do século XX, a maior parte do Paquistão ainda é pré-moderna, rural e definida por identidades tribais e regionais. O conflito com a Índia define o senso de identidade nacional. A incapacidade política do país é sua grande vulnerabilidade, e o declínio do poder americano reduziria a capacidade de os EUA ajudarem a consolidação e o desenvolvimento do Paquistão. O país poderia então se transformar num Estado dominado pelos militares, num Estado islâmico radical, ou um Estado que combinasse o poder militar com o poder islâmico, ou ainda um Estado sem um governo centralizado.
EM JOGO: senhores da guerra com armas atômicas; um governo islâmico, antiocidental e com armas nucleares, como o Irã; instabilidade regional, com a violência potencialmente se expandindo para China, Índia e Rússia.
8. ISRAEL E ORIENTE MÉDIO:
O declínio americano poria em movimento placas tectônicas que minariam a estabilidade política de todo o Oriente Médio. Todos os países da região continuam vulneráveis a graus variados de pressões populistas internas, agitação social e fundamentalismo político. Se o declínio dos EUA ocorrer com o conflito israelense-palestino ainda sem solução, o fracasso na implementação de uma solução de dois estados inflamaria ainda mais a atmosfera política da região. A hostilidade a Israel se intensificaria. A busca de vantagens táticas poderia precipitar ações do Hamas ou do Hezbollah, com o risco de uma escalada sangrenta. Países fracos, como o Líbano e a Palestina, pagariam um alto preço em mortes de civis.
EM JOGO: confronto direto de Israel ou dos EUA com o Irã; maré de radicalismo e extremismo islâmico; crise energética mundial.
ZBIGNIEW BRZEZINSKY foi assessor de Segurança Nacional do presidente americano Jimmy Carter e escreveu este artigo para a revista “Foreign Policy”.





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