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Como será a indústria de música do futuro?

Ethevaldo Siqueira, O Estado de S. Paulo, 07/03/10

A venda de CDs e DVDs despenca em todo o mundo. O Blu-ray disc encontra muita dificuldade para decolar, por seus preços exorbitantes e sua ainda pequena diversidade de títulos. As seções de gravações de música clássica praticamente desapareceram nas lojas do Brasil e do mundo.

As causas desse declínio são, pelo menos, duas: digitalização e internet. Com elas, mudam radicalmente os paradigmas do mercado. Paradoxalmente, a mesma tecnologia que permitiu o maior salto de qualidade do som torna as gravações totalmente vulneráveis à pirataria e atingem em cheio os direitos de autor. Numa segunda etapa, é a internet que inviabiliza a indústria da música como a conhecemos.

Não há dúvida de que a tecnologia digital revolucionou a qualidade acústica da música gravada, hoje muito mais pura, sem chiados, sem distorções audíveis e com a melhor relação sinal-ruído, tanto nos CDs, nos DVDs e, mais recentemente, nos Blu-rays.

Tenho plena consciência de que, como ouvinte apaixonado de música erudita, sou quase um animal em extinção. Meus netos terão outros hábitos. Hoje, no silêncio da noite, sento-me na poltrona mais confortável de minha sala, seleciono um Blu-ray disc e passo a curtir, por exemplo, o concerto em homenagem a Pavarotti (The Tribute to Pavarotti), gravado em Petra, com a participação de tenores como Andrea Bocelli, José Carreras e Plácido Domingo, além de cantores populares, cantoras líricas e instrumentistas, acompanhados pela orquestra Philharmonia de Praga, sob a regência de Eugene Kohn. Eis aí um de meus prazeres.

INCONSCIÊNCIA

Diante das profundas inovações ocorridas, as gravadoras parecem nunca ter levado a sério o salto representado pela tecnologia digital. Míopes como tantas outras indústrias que se extinguiram, elas não perceberam os riscos do novo cenário. Não souberam atualizar seu modelo de negócio nem renovar seus conteúdos. Pelo contrário, mantiveram seus preços nos patamares mais elevados, sem perceber que, com a internet, qualquer pessoa poderia lançar na rede todos os tipos de conteúdos (música, vídeo, livro ou software), incentivando milhões de internautas espalhados pelo mundo, em especial, as novas gerações, a baixar todos os tipos de conteúdos sem pagar um centavo aos seus autores e distribuidores.

Daqui a dez anos, talvez não possa comprar discos como os meus melhores Blu-rays de hoje, pois eles serão pirateados e distribuídos nas redes de banda larga, “para democratizar o acesso à cultura”. E o pior: já existem no mundo organizações, sites e movimentos defensores da pirataria explícita.

Não se surpreendam se surgir amanhã no Brasil uma organização com a sigla MSC (o Movimento dos Sem Conteúdo), que defenderá o direito de invadir e saquear sites e bibliotecas virtuais para redistribuir suas obras gratuitamente pela web. Seus representantes se julgarão paladinos da “democratização dos bens culturais”. E não duvido que tudo isso seja apoiado e defendido por políticos populistas contrários a qualquer forma de “criminalização dos movimentos sociais”, por mais criminosos que sejam.

NOVO MODELO?

Enquanto não encontrar um modelo de negócio totalmente diferente para sobreviver, a indústria da música só tende a agravar sua crise. A rigor, já vivemos esse período de transição entre a velha indústria do audiovisual e a indústria do futuro. A Apple criou o iTunes, software e site que permitem a internautas comprar até uma única faixa dos melhores CDs por US$1. A Nokia desenvolveu o sistema Comes with Music, com celulares que dão direito a seus usuários de baixar, sem nenhum custo, literalmente milhões de músicas. Dezenas de sites comercializam música, com diferentes modelos de negócio.

Ao longo de mais de 20 anos, acumulei cerca de dois mil CDs de grandes intérpretes clássicos, em especial daqueles que tive o privilégio de ouvir em salas de concertos no Brasil e no mundo, como os pianistas Claudio Arrau, Rudolf Serkin, Sviatoslav Richter e o nosso divino Nelson Freire. Ou os violinistas Itzhak Perlman, Anne-Sophie Mutter, Midori, Sarah Chang, Salvatore Accardo ou Maxim Vengerov.

Outros, que nunca pude ouvir ao vivo, só os conheci graças aos LPs e CDs. Entre eles, Jascha Heifetz, Fritz Kreisler, Yehudi Menuhin, David Oistrach, Claudio Arrau, Vladimir Horowitz, Artur Rubinstein, Zino Francescatti, Arthur Grumiaux ou Mischa Elmann.

Não tenho dúvida de que no futuro a internet será a grande loja onde irei adquirir quase todo o conteúdo que me interessa: música, livros, vídeos de alta definição, programas, jogos. Imagino a preciosidade que será, então, daqui a 30 anos o conteúdo da coleção de DVDs da Filarmônica de Berlim, regida por Herbert von Karajan, interpretando as nove sinfonias de Beethoven.

Já estou planejando a instalação de um servidor para armazenar todos os meus CDs, DVDs e Blu-rays. Meu desafio agora será transferir todo esse conteúdo para um novo sistema de armazenamento. Mas terei de fazê-lo. E tudo será reclassificado, por autor e intérprete.

São os novos tempos.

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