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Confesso: fui informante da KGB

Blog do Noblat, 31/10/11

Espanta-me a notícia celebrada em blogs alinhados com o governo de que o jornalista William Waack, apresentador do Jornal da Globo, foi citado em documentos do Wikileaks como tendo sido informante da Casa Branca.

Está dito lá que ele conversou com um diplomata americano sobre as eleições presidenciais do ano passado e que fez uma reportagem considerada “favorável” às relações EUA-Brasil. Foi sobre um porta-aviões.

Conheço Waack há mais de 20 anos. Posso lhes assegurar: ele morreria de fome se precisasse sobreviver informando governos estrangeiros sobre o que se passa em governos do PT.

Waack é a pessoa menos indicada para exercer a tarefa pelo simples fato de que os governos do PT nunca quiseram nada com ele. Nem ele jamais quis nada com os governos do PT. Detestam-se mutuamente.

Em tais condições como ele poderia ter acesso a informações estratégicas capazes de satisfazer o apetite da Casa Branca e dos serviços secretos norte-americanos?

Caso Edgar Hoover, lendário diretor do FBI, ainda vivesse, até posso admitir que ensaiasse se aproximar de Waack, um homem bem apessoado… Não seria correspondido, creio.

Se Waack foi informante da Casa Branca, confesso que também fui - no caso, da temível KGB , o serviço secreto da ex-União Soviética.

Nos anos 80 quando chefiava a redação do Jornal do Brasil em Brasília, conheci um adido da embaixada da URSS. Todo adido era agente da KGB e eu não posso alegar que ignorasse isso.

Chegava ao fim o governo do último general-presidente da ditadura de 1964, João Batista de Oliveira Figueiredo. E a situação política era por demais confusa.

Gordo, simpático, dono de um bem cuidado bigode, o adido era um homem de seus 40 e poucos anos que não resistia a três doses de vodca. Punha-se logo a cantar canções russas e a chorar com saudades de casa.

A cada três ou quatro meses convidava-me para almoçar - na embaixada ou em algum restaurante. (A comida da embaixada era um horror.) E implorava para que lhe explicasse o que estava acontecendo.

Eu me divertia. E testava as mais doidas teorias. Se alguma delas dava certo, crescia a admiração do russo por mim.

Quem seria o candidato do governo à vaga de Figueiredo - um civil ou ainda um militar? O que faria a oposição se o candidato fosse um militar?

Eu respondia me valendo do que lia nos jornais, do que me contavam políticos do governo e da oposição e do que inventava. De resto, jornalista é o único profissional autorizado a dissertar sobre o que não entende.

Em troca, o russo sovina nunca me presenteou sequer com uma garrafa de vodca ou com uma lata de caviar. Dividíamos a conta do almoço.

Uma vez, em 1985, depois de passar três meses de férias em Moscou, o russo me telefonou:

- Precisamos almoçar. É urgente!

Não usávamos códigos. A praga do grampo telefônico ainda não se espalhara.

Fantasiei que a KGB talvez quisesse me conhecer pessoalmente. Mas não.

Quando ele saíra de férias, José Sarney presidia o partido que apoiava a ditadura. Ao voltar, Sarney era candidato a vice na chapa da oposição. Como fora possível?

Ulysses Guimarães era o candidato da oposição a presidente quando ele voara para Moscou. Ao desembarcar de volta, o candidato era Tancredo Neves.

Figueiredo estava disposto a se manter alheio à escolha do seu substituto. Aquilo era simplesmente impensável três meses antes.

Foi um dos mais longos, complicados e improdutivos almoços que tivemos. Durou quase uma tarde inteira.

Por mais que se esforçasse, o russo não conseguia compreender o que eu lhe dizia.

- Sarney não ajudou a enterrar a emenda que restabeleceria a eleição direta para presidente? Como dois meses depois pode ter se aliado à oposição que defendia a eleição direta? Não entendo.

O russo foi embora de vez para Moscou antes de Tancredo Neves se eleger presidente, internar-se num hospital para ser operado às vésperas de tomar posse, ser operado sete vezes, morrer e ceder o lugar a Sarney.

Sorte dele - do russo.

Acho que escapou de ser demitido por não ter previsto o que o pai de santo de Sarney vira nos búzios com tanta antecedência.

(Vocês não acham que eu deveria ter comentado a tempo com o russo sobre pai de santo, búzios, despachos, essas coisas?)

Quanto a mim…

Acompanhado de colegas, e a convite de uma entidade empresarial do Rio de Janeiro, estive em Moscou a menos de dois anos da queda do regime comunista.

Conversei com jornalistas e funcionários do governo. Foi um encontro, digamos assim, de informantes amadores e não remunerados. Como minha sogra, Anita.

Aos 80 anos de idade, informante desde jovem do Mossad, o serviço secreto israelense, Anita ainda costuma visitar a embaixada de Israel, em Brasília, carregando pastas com recortes de jornais selecionados e anotados por ela.

Imagina que os recortes poderão ser úteis ao embaixador e seus auxiliares.

Um dia ainda contarei o papel que ela desempenhou no sequestro em maio de 1960 do carrasco nazista Adolf Eichmann, escondido na Argentina desde o fim da 2ª Guerra Mundial.

Foi uma das mais brilhantes operações da história do Mossad.

Força, Lula!

comunicação · liberdade de imprensa
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