Sobre                        Contato                        Arquivo

Corpo & alma

Roberto DaMatta, O Globo, 18/01/12

Ao tentar fazer minha memória falar, seguindo o exemplo de Vladimir Nabokov do “Speak, Memory” — uma das mais belas narrativas que li em minha vida, ouço o seguinte:

— Robertinho é canhoto!

Foi como canhoto que eu comecei a atuar no mundo. E o meu problema era saber a natureza daquele qualificativo. Logo descobri que ser canhoto era ser errado. Nada perturba tanto quanto ser diferente e, na maioria dos casos, ser diferente para menos. O ser diferente e o ser igual é o problema. Pois todos somos feitos de semelhanças e diferenças e sabemos que crescer é aprender esse complicado diálogo entre o que nos iguala e o que nos diferencia. Ficou uma lembrança: eu era tão radicalmente canhoto que podia escrever como o grande Leonardo Da Vinci: da direita para a esquerda. Quem me guiava no mundo, arrumando-o e construindo-o: o meu lado e a minha mão esquerda. Confirmei que ser canhoto era ser errado porque a professora me obrigava a escrever com a mão direita. Essa direita dos politicamente corretos e “bem resolvidos” que foi a minha primeira inimiga neste mundo.

Foi essa polaridade entre as mãos, cujo intenso simbolismo estudei aos depois num texto clássico de Robert Hertz, quem primeiro sinalizou como o corpo falava mais alto do que alma e com ela lutava.

As oposições são simplificadoras. Não resolvem, mas — como dizia Lévi-Strauss — são saborosas para pensar. Sem elas, não há orientação, conforme descobri ainda menino quando ia pegar alguma coisa e um olho interno me via e dizia que eu estava usando a mão torta. A mão do coração, e não a da cabeça.

Faz, pois, parte do meu aprendizado que o corpo e a alma batalham. Muitos amigos não viveram tal luta. Os que eu mais invejava eram os que aparentemente só tinham alma e — é claro — escreviam com a mão direita.

Homem feito, aprendi que o corpo era mais confiável do que a alma. Tal como a minha mão esquerda é, até hoje, muito mais garantida do que todo o meu lado direito. Como esses nossos políticos especializados em enchentes, sou muito mais confiável pelo lado esquerdo ou errado do que pelo meu lado direito e correto.

A prática esportiva e uma tentativa de construir uma estante, bem como umas tantas outras coisas, me mostraram como o corpo não permite o abuso ou o erro. Que falem os meus eventuais excessos com o mero e mortal álcool; que o digam os meus planos de estudar a noite toda; que testemunhem os meus pigarros carregados de nicotina quando eu abusava do fumo. E que confirmem tudo isso as vezes em que, durante um exercício físico, minha alma coloca diante do meu corpo algum objetivo mais ambicioso. A alma cobiça, mas o corpo não acompanha. Não porque não queira, mas porque não pode. Afinal o corpo parece fácil: ele tem um assento físico, concreto, visível e verdadeiro; ao passo que a alma é abstrata, intangível, fugaz e ganha concretude mais quando recusa ou ilude do que quando acompanha o corpo.

Era um corpo velho e sua alma tinha sido dilacerada por mil e uma memórias e experiências — por muitos sofrimentos advindos da inveja, da generosidade, da compaixão, do ressentimento, do esforço e da comiseração. Mas — Deus do céu! — era um corpo impávido na sua beleza e no seu orgulho de estar vivo. Um corpo que nos abria para o amor e nos tornava orgulhosos de pertencer àquela casa. Havia uma alma habitando aquele corpo, sem dúvida. Seu fulgor iluminava-o, dando-lhe um equilíbrio conquistado. Ali não havia ódio nem ressentimento. Corpo e alma estavam em paz, mas — eis a surpresa — estavam vivos.

Eu sentei ao lado dela que havia se transformado numa figura de campo de concentração e extermínio, tal a sua fragilidade física e mental. Mas o rosto… Ah! O rosto, embora pálido, guardava a face da mulher amada. Da jovem cujo sorriso abriu o caminho para a felicidade neste mundo. E, quem sabe, no outro, conforme logo descobrimos com os nossos experimentos corporais. Porque é o corpo que permite a peregrinação da alma. A alma é difícil de encontrar. Quantas pessoas sem alma você já encontrou na sua vida? O Diabo (aquele Canhoto) leva as almas. Antigamente ele as comprava caro, com moedas de ouro; hoje elas estão se oferecendo num vasto mercado e valem menos do que um político blindado.

Deus, por outro lado, quer o corpo que, conforme diz a nossa esperança, voltará a viver para sempre no dia da ressurreição. Eis uma imagem amada por um menino canhoto. No dia em que os mortos acordarem do seu longo sono haverá a reconciliação de todos os dualismos. A vida vai englobar a morte. Neste dia glorioso todos vamos nos ver de novo e nos abraçar enternecidos. Seremos então jovens, fortes, bonitos, puros, alegres. e sem conflitos debaixo daquela luz gloriosa que virá de um céu que não conhecemos. Esse é o dia do encontro com todos os nossos mortos queridos. A experiência do corpo e com o corpo nos leva para essa imagem mágica e redentora de todas as nossas dúvidas e sofrimento. Amém.

ROBERTO DaMATTA é antropólogo.

ideias · amor, identidade
Enviar   Imprimir   Fonte

Corrupção de Sarney a Lula

image O ebook Corrupção de Sarney a Lula pode ser baixado gratuitamente em três formatos: PDF (para imprimir), EPUB (para iPad) e MOBI (para Kindle). Uma versão em inglês (capa acima) está a venda na Amazon.com.

Posts recentes


Olho no México

O Brasil não precisa deixar a captura do estado ir tão longe. O caso Cachoeira poderia ser o sinal de alarme para um pacto contra a corrupção política e o crime organizado.

Deixem o governador falar

O PSDB precisa resolver: ou defende claramente o governador Marconi Perillo, ou admite claramente que não tem condições de defende-lo.

Bem na foto

Não tem como negar: a atual presidente e os ex, todos eles, estão bem na foto da instalação da Comissão da Verdade.

Problemas na “Lei Dieckmann”

Os deputados não devem, na pressa, perder a oportunidade de ouvir mais quem entende do assunto e corrigir as falhas do projeto.

FHC e Jefferson

Sobre a concessão do Prêmio Kluge a FHC: "Não só é a primeira pessoa com uma carreira política pessoal relevante a ganhar este prêmio, como é também um representante acabado do que chamamos cientista social. Se quiser fazer uma comparação americana, ele é como Jefferson".

Salvo pelo BNDES

Opinão d'O Globo: "É necessário averiguar os vestígios de interferência política na compra da Delta pelo JBS".

Não dá para não ler

As suspeitas sobre os dois governadores são parecidas: ligações impróprias com Carlos Cachoeira. O tratamento editorial da Folha varia. Um governador, de Goiás, é "tucano". O outro, petista, é "do DF".

Para não dizer que eu não falei da Globo

A Virada Cultural paulistana foi um desastre e o Viradão Carioca um sucesso, segundo O Globo. Não sei se vou para o Rio na próxima virada ou assino outro jornal.

Quem merece essa jurisprudência?

Como a nota não cita fonte, nunca se sabe... Espero que não seja verdadeira. Se o PSDB se deixar enquadrar desse jeito, já era.

Mais inteligentes, menos violentos

Posso acreditar que a razão venha nos salvar das formas endêmicas de violência. Se não é verdade, é bem sacado. Os homicídios estão mesmo em queda em São Paulo e até no Rio de Janeiro. Podem muito bem continuar a diminuir no planeta.

Mais herança maldita

Governadores e prefeitos fariam melhor de não esperar sentados pela próxima onda de greves dos funcionários em geral e ameaças de motim da polícia.

Brecha na proibição do aborto

Para quem acredita em alma, o feto que não tem cérebro deve ser protegido mesmo assim porque tem alma.

A língua do PT

"Hegemonia", na língua do PT, é isso: a pretensão de reescrever numa penada o dicionário e a história do Brasil.

Até 2020

Tomando nota: três tendências ou fatos que devem ter forte impacto sobre o equilíbrio do mundo até 2020.
Mais posts