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‘Crise econômica virou crise política’

Nicolas Veron, entrevista a O Estado de S. Paulo, 03/11/11

Para especialista, porém, as duas têm uma origem comum: a defasagem das instituições da União Europeia

ANDREI NETTO , ENVIADO ESPECIAL / CANNES - O Estado de S.Paulo

A crise econômica transformou-se em uma crise política na Europa com a decisão do premiê da Grécia, George Papandreou, de convocar um referendo sobre o plano de socorro aprovado pelos líderes do bloco há uma semana. Mas ambas as crises têm uma origem comum: a defasagem das instituições da União Europeia.

A avaliação é do economista Nicolas Veron, membro do Instituto Brugel, um think tank com sede em Bruxelas que, desde a crise de 2008, tem se transformado em uma referência no pensamento econômico na Europa. Em entrevista exclusiva ao Estado ontem, Veron diz compreender a decisão de Papandreou de consultar a opinião pública grega, mas vê um custo: mais instabilidade nas semanas que virão, com risco do que chama de “novos incidentes econômicos” na União Europeia. A seguir, a síntese da entrevista.

Essa crise tinha raízes econômicas, mas se mostra cada vez mais um grande problema político na União Europeia?

Sem dúvida. É uma crise econômica e política ao mesmo tempo. É cada vez mais política, embora a crise política não seja suficiente para esconder o fato de que há um modelo econômico europeu que não funcionou da maneira como deveria nos últimos 10 anos. Logo, eu diria que a dimensão dessa crise é dupla: política e econômica. Mas, nesse exato momento, há algo mais profundo que se revela: uma crise das instituições europeias, que mostram suas falhas no instante em que a necessidade de reformas se mostra mais urgente - e, por isso mesmo, mais dolorosa.

Mas essa crise institucional não pode ser resolvida em curto termo?

Não vejo como se possa resolver a crise institucional em curto termo, em especial frente a uma crise política e econômica que também é de curto termo. Aliás, não creio nem mesmo que estejamos em um ponto em que todos tenham a consciência de que as instituições da Europa não funcionam mais. Logo, não há como não acreditar que o quadro é de deterioração. Todos os países da zona do euro terão um preço a pagar por essas falhas.

Qual é esse preço?

É um preço econômico, mas também de coesão social, de administração política. O crescimento, ou a falta dele, é a consequência mais visível.

Papandreou decidiu convocar um referendo, surpreendendo os parceiros da União Europeia, em especial França e Alemanha. Qual a consequência disso?

Mesmo que haja muitos outros fatores envolvidos nessa opção, Papandreou decidiu que é necessário um mandato claro do povo grego ao governo, que vem tomando medidas muito duras. É importante que se diga que, visto de Atenas, era um anúncio menos surpreendente do que se imaginava em Paris ou Berlim. Papandreou faz um apelo à opinião pública, ao mesmo tempo em que realiza uma manobra tática no cenário interno da política grega - sobre a qual não posso entrar em detalhes porque não domino o tema. O fato concreto é que a convocação do referendo eleva a incerteza sobre o futuro da vida política grega nas próximas semanas. Mas não me parece que haja um contra-argumento possível ao fato de que um referendo já foi convocado. Nem Merkel, nem Sarkozy, nem Obama tem o direito ou a intenção de dizer o que Papandreou pode ou não fazer.

Essa decisão eleva o risco de contágio da crise, em especial da Itália?

O contágio já aconteceu em várias partes da Europa. Na Itália, o contágio data de julho, quando as taxas de juros passaram a subir com força. Mas se você me pergunta se podemos esperar um ou dois meses a mais até a realização do referendo, a resposta é sim, podemos esperar um ou dois meses a mais. E os mercados também podem esperar um ou dois meses a mais. O preço será um ambiente muito instável, muito volátil e muito imprevisível. A instabilidade e a falta de confiança sobre a comunidade política vai causar novos incidentes econômicos. Só não sabemos quais serão, porque o caráter dessa situação é imprevisível.

Até porque a opinião pública da Grécia parece dividida.

Não apenas na Grécia. Observe que na Itália a tensão social em relação à falta de crescimento e da austeridade é crescente. Na Espanha, Zapatero convocou eleições antecipadas. Na França, a possibilidade de perda da nota AAA das agências de rating é fonte de preocupação. Na Alemanha, o governo de coalizão de Angela Merkel demonstra divisões. Em todos esses países há instabilidades políticas.

O sr. acredita que um eventual “não” no referendo, que representaria a opção pelo calote, pode inspirar outros países em crise, como Portugal e Irlanda? As coisas não são tão mecânicas assim. Em Portugal e na Irlanda, tanto no corpo político quanto no social, há um grande suporte à ideia de que se deve reembolsar as dívidas. Não se pode dizer neste momento que haja uma vontade forte de adotar o calote como solução para a crise. Mas, como disse, a situação é muito volátil. Não podemos prever exatamente o que vai se passar dentro de seis meses. Talvez, até o referendo na Grécia se transforme em um elemento de estabilização da União Europeia como um todo.

O pânico nos mercados financeiros e no meio político na Europa se justifica?

O pânico pode ser justificável entre os investidores, já que pela lógica dos mercados o último a vender é o que mais perde. Em muitos aspectos esse comportamento torna o investidor o elemento de contágio da crise. Mas o pânico não é justificável no meio político. Só é compreensível por se tratar de uma situação muito difícil de se viver para os dirigentes da zona do euro. Afinal, eles não poderão escapar de decisões muito duras se quiserem manter o euro. Abrir mão de parte da soberania e repensar os modelos de crescimento são dois deles.

O sr. acredita que a crise na Grécia pode conduzir ao fim do euro?

É difícil dizer. O certo é que atravessamos uma sequência de eventos nova em termos econômicos na Europa. A história registra vários países que desapareceram. A zona do euro não é um país, é uma construção mais experimental, mais inovadora, mas também por isso mais frágil. Logo, não podemos afastar essa hipótese. Pessoalmente, eu acredito que a zona do euro sobreviverá, porque creio que haja um engajamento político muito forte para tanto. Mas isso vai exigir um grande esforço suplementar para realizar reformas e adotar decisões duras e necessárias.

A pauta do G-20, que seria marcada por questões como o aumento de capital do Fundo Monetário Internacional (FMI), foi eclipsada pela crise. Para que servirá a reunião de cúpula?

O G-20 será útil porque servirá para concentrar os espíritos em torno da Europa. Os problemas não foram resolvidos antes, como se imaginava. Nas últimas semanas, ficou claro que uma série de problemas existiam e vinham sendo negados, como a fragilidade do sistema financeiro, a falta de coordenação e de integração de políticas na zona do euro. O problema é global. E essa consciência faz com que as soluções possam ser buscadas no G-20. Não é uma cúpula por nada. Mas é verdade que será dominada por questões de curto termo, e não pelos temas de mais longo prazo que vinham sendo discutidos.

internacional · crise financeira, grécia, união européia
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