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Dirceu deixa a clandestinidade

Correio Braziliense, 19/02/10

ELEIÇÕES

Marcado pelo estigma do mensalão, ex-ministro de Lula segue influente na militância petista e busca um posto de destaque na campanha de Dilma

Tiago Pariz
Fotos: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
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Dirceu realizou mais de 70 viagens ano passado em articulações informais nos bastidores. Agora, quer atuar na linha de frente
Deputado cassado, mas influente entre os militantes do PT, o ex-ministro José Dirceu quer entrar de cabeça na campanha ao Palácio do Planalto da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Subir no palanque, pedir votos e estar na linha de frente: são esses os desejos do petista que rejeita o rótulo de político de bastidor. Só no ano passado, foram 70 viagens para ajudar nas negociações sobre alianças eleitorais — um trabalho que ele faz sem o aval do governo, garantem ministros do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Antecessor de Dilma Rousseff na Casa Civil, Dirceu é um dos políticos mais assediados no congresso do PT que oficializará a ministra como pré-candidata à Presidência. A todo momento é acionado para tirar fotos. Seguidas vezes é puxado pelo braço para conversas amenas e de pé de ouvido com militantes. Responde e atende a todos.

Nesse ambiente, Dirceu sente-se confortável. Esse corpo a corpo, tira de letra. O ex-ministro, no entanto, está ansioso para participar da campanha sem estresse e sem a sombra do escândalo do mensalão de 2005. Ao responder se as turbulências que o retiraram do governo e cassaram seu mandato de deputado federal podem ter efeito negativo e sugar votos da correligionária, respondeu: “Eu não tiro votos da Dilma. Fiquei clandestino por 10 anos, meu tempo de clandestino já acabou.”

Por isso, ao retomar um cargo na direção nacional do partido, Dirceu espera ter um posto na campanha. “Nunca parei depois que fui cassado. Vou ter uma função oficial na campanha, mas ainda não sei o que vou fazer”, afirmou. Quando se fala em função, assume-se que ele terá papel de negociador, costurador de acordos, mas ele mesmo minimiza o espectro que ajudou a construir. “Sou articulador, não homem de bastidor. Disputei cargos públicos, fui deputado estadual, federal, ministro. Sempre fui pessoa pública”, sustentou.

Sim, o ex-ministro teve cargos públicos, com predileção por negociações de bastidores, a tal articulação, no jargão que os políticos adoram. Nessas 70 viagens que ele contabiliza no ano passado aos estados problemáticos, entrou de cabeça nas conversas sobre a aliança eleitoral. Foi ao Pará, a Minas Gerais, ao Mato Grosso do Sul e causou controvérsia no Ceará. O deputado Ciro Gomes (PSB-CE) classificou a maneira de Dirceu agir de golpista. Por isso, o Palácio do Planalto tenta dissociar-se do negociador. Para minimizar a imagem, Dirceu sustenta que as negociações são comandadas pelo novo presidente do PT, o ex-senador José Eduardo Dutra. Mas não se furta a dar pitacos: no Rio de Janeiro, a ministra terá dois palanques, o do governador Sérgio Cabral (PMDB) e o do ex Anthony Garotinho (PR); e em Minas Gerais, a melhor saída para a desavença entre PT e PMDB é a candidatura do vice José Alencar (PRB). Tudo opinião dele, Dirceu, que não é homem de bastidor.

Procuração

O Planalto deu procuração a Dirceu uma vez, para ele atuar na crise do Senado que chacoalhou o presidente da Casa, José Sarney, e foi só. A ministra Dilma foi questionada duas vezes ontem se quer Dirceu na campanha. Primeiro, disse: “Ele é dirigente do partido e como tal será considerado”. Na segunda, foi mais enfática sobre a possibilidade de o ex-companheiro em armas ser incorporado: “Sem dúvida. Todos os dirigentes do PT, todos os militantes são bem-vindos, até porque deles eu dependo para me eleger”.

A pré-candidata petista refere-se ao respeito que Dirceu desfruta no partido. O ex-presidente da legenda deputado Ricardo Berzoini (SP) defendeu o companheiro como um político honesto, íntegro e inocente das acusações do mensalão. “Tenho certeza que o Dirceu é correto e inocente. Acredito que os estigmas podem ser trabalhados pela oposição, mas temos que enfrentar os estigmas. Sem enfrentá-los, não tem vitória”, disse.

Mercadante finca o pé

O senador Aloizio Mercadante (PT-SP) reafirmou ontem, durante o congresso do PT, que é candidato ao Senado e não deseja concorrer ao governo de São Paulo. O petista evitou afirmar se atenderia a um pedido de Lula para mudar de ideia. O senador listou como possíveis concorrentes ao governo a ex-prefeita Marta Suplicy; o prefeito de Osasco, Emídio de Souza; o ministro da Educação, Fernando Haddad; e o senador Eduardo Suplicy (PT-SP). Para ele, não é sempre que a tese do presidente Lula de repetir candidatos é bem-sucedida. “Tivemos êxito quando repetimos e quando apresentamos nomes novos”, afirmou Mercadante.

Aclamação da “mãe do PAC”

A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, será aclamada pré-candidata do PT ao Palácio do Planalto depois de um processo que começou a ser construído no início de 2008 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na época, Lula a apresentou como a “mãe do PAC”. Essa é uma das imagens que alguns petistas entendem que deve ser explorada na campanha para equilibrar possíveis desvantagens de uma política que será testada pela primeira vez pelas urnas na eleição de outubro.

Para a economista Maria da Conceição Tavares, Dilma não precisa suavizar sua imagem para se adequar ao carisma do presidente. “O fato de ela ser mulher ajuda pra burro. Porque mulher é identificada como mãe e mãe pode ser durona, não precisa ser afável”, disse a economista, conhecida por ser arisca e de gênio difícil.

O ex-ministro José Dirceu também argumenta que Dilma é uma candidata mais forte por ser mulher e ter uma história de militância na esquerda com combate ao regime militar (1964-1985). E diferencia a pré-candidata petista da senadora Marina Silva (PV), pré-candidata do PV, que militou 30 anos no Partido dos Trabalhadores. “A Marina tem toda condição de ser candidata à presidente. É mulher, é de esquerda. Mas para isso precisa de votos e de apoio do Lula”, ironizou.

Esquiva

Dilma esquivou-se de opinar o que precisa ser feito para ela melhorar como candidata. Sobre ser oficializada amanhã, disse que enquanto não sair da Casa Civil não mudará a agenda. “Até lá vou manter o mesmo tipo de atividade que mantenho, estou a um mês da desincompatibilização”, afirmou. A agenda do último mês foi, além de tocar o dia a dia da Casa Civil, inaugurar obras do PAC e participar do carnaval em Recife, Salvador e Rio de Janeiro. Para frente, está em estudo acompanhar o presidente na visita ao Haiti, na próxima semana. (TP)


“Todos os dirigentes do PT, todos os militantes são bem-vindos, até porque deles eu dependo para me eleger”
Dilma Rousseff, sobre a presença de Dirceu em sua campanha

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