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Durma-se com uma transparência dessas

Eduardo Graeff, 06/12/10

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Mais dois artigos interessantes sobre o Wikileaks. Dicas do Augusto de Franco:

¿Quién teme a Wikileaks?, de Manuel Castells.

Not such wicked leaks, de Humberto Eco.

A escalada da perseguição ao Wikileaks é a crônica de um acerto de contas anunciado, escreveu Castells há mais de um mês, antes do cablegate:

Tinha que acontecer. Faz tempo que os governos estavam preocupados com sua perda de controle da informação no mundo da Internet. A liberdade de imprensa já os incomodava. Mas haviam aprendido a conviver com os meios de comunicação tradicionais. Já o ciberespaço, povoado de fontes autônomas de informação, é uma ameaça decisiva a essa capacidade de silenciar na qual sempre se baseou a dominação. Se não sabemos o que acontece, ainda que desconfiemos, os governantes ficam de mãos livres para roubar e anistiar-se mutuamente como na França ou na Itália ou para massacrar milhares de civis e deixar a tortura correr solta como os Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão.

Umberto Eco, já depois do cablegate, ri dos segredos de polichinelo transmitidos pelas embaixadas para o Departamento de Estado americano.

A regra que diz que arquivos secretos devem contar somente notícias que já são de conhecimento público é essencial para a dinâmica dos serviços secretos, e não só neste século. Vá a uma livraria esotérica e você verá que cada livro nas prateleiras (…) é um requentado do que já estava escrito em outros livros. E não é só porque os autores ocultistas são avessos a fazer pesquisa original (…), mas porque os que são dados ao oculto só acreditam no que já sabem e no que confirma o que já ouviram. (…)

O mesmo vale para arquivos secretos. O informante é preguiçoso. E o chefe do serviço secreto também (…): só toma por verdade aquilo que reconhece. A dica ultra-secreta sobre Berlusconi que a embaixada dos Estados Unidos em Roma transmitiu para o Departamento de Estado é a mesma notícia que saíra na Newsweek na semana anterior.

Para se livrar dos vazamentos, sugere Eco, os governos e seus serviços de informação vão ter que abandonar o campo minado da Internet e voltar às mensagens gravadas na memória ou escondidas no salto do sapato do mensageiro, sem cópia, trancadas a chave numa gaveta.

Há uma certa simetria nisso: se os governos se dão ao direito de escanear nossas partes íntimas nos aeroportos, é justo que o Wikileaks nos deixe dar uma espiada nas bobagens deles de vez em quando.

Foto: Edinburg Festival Guide via Google Images.

comunicação · internet, segredo de estado, wikileaks
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