Sobre                        Contato                        Arquivo

EUA tentam cooptar tribos afegãs

O Estado de S. Paulo, 15/02/10

Estratégia é obter apoio de líderes locais na luta contra o Taleban

Ruhullah Khapalwak e David Rohde, The New York Times

Nas três últimas décadas, comunismo, guerra civil e fundamentalismo islâmico sitiaram as tribos do Afeganistão. De muitas maneiras, a estrutura tribal do Afeganistão é hoje comprovadamente a mais fraca da história do país. Mas líderes civis e militares americanos estão recorrendo a algumas dessas tribos como sua melhor esperança para obter sucesso contra o ressurgimento do Taleban após a fraca liderança do presidente Hamid Karzai.

Tribos existem há milênios na área hoje abarcada pelo Afeganistão. Elas surgiram ao longo dos séculos em várias partes do país, formando-se por extensas linhas de parentesco. Lideradas por conselhos de anciãos, as tribos deram a seus membros proteção, apoio financeiro, meios de resolver disputas e punição aos que cometeram crimes ou quebraram códigos de conduta tribais.

Para os pashtuns, o maior grupo étnico do Afeganistão e a principal fonte de apoio do Taleban, as tribos são particularmente importantes. Conseguir opor tribos pashtuns ao Taleban - ou talvez famílias ou subtribos - poderia assestar um duro golpe na insurgência e potencialmente criar um meio para estabilizar o dilacerado país.

Mas alguns afegãos advertem que o sistema tribal não é uma panaceia e temem que os Estados Unidos estejam adotando uma abordagem de solução rápida que não criará uma estabilidade duradoura. Eles veem as tribos como inerentemente anacrônicas, sexistas e corruptas - um sistema que solapa ainda mais a tarefa já extraordinariamente difícil de criar instituições nacionais multiétnicas com base no mérito. Eles advertem que o país seria atirado nas mãos de uma multidão de milícias tribais que o governo jamais conseguiria controlar.

PRIMEIRO PASSO

Na semana retrasada, a importância das tribos para a estratégia americana ficou clara quando líderes da tribo shinwari no leste do Afeganistão concordaram em trabalhar com o governo e proibir a cooperação com o Taleban. O pacto foi anunciado como um primeiro grande passo para o esforço americano de convencer as tribos.

Essa não foi a primeira vez que estrangeiros recorreram às tribos do Afeganistão em busca de aliados e substitutos. Os britânicos, que combateram a Rússia pelo controle da região no século 19, trouxeram com eles uma prática de arregimentar líderes locais. Depois que os britânicos partiram, reis afegãos em Cabul apoiaram-se na estrutura tribal para manter a estabilidade e a ordem em áreas remotas.

Mas aí veio o comunismo em meados dos anos 70, que via as tribos como obstáculos arcaicos ao progresso social e, mais importante, como uma ameaça potencial ao controle do poder por líderes partidários. Centenas de anciãos tribais foram tirados de suas casas e mortos numa série de repressões brutais.

Ao mesmo tempo, os EUA, apoiados pelos governos saudita e paquistanês, desencadearam seu próprio assalto a tribos no Afeganistão. O fundamentalismo wahabita apoiado pelos americanos criou centenas de milhares de jovens mujahedin (guerreiros sagrados) para atacar tropas soviéticas no Afeganistão.

Doutrinados religiosamente e forrados de dinheiro americano, esses jovens afegãos viam nos clérigos muçulmanos e os comandantes mujahedin - e não anciãos tribais - seus verdadeiros líderes.

Quando os soviéticos partiram - e por sua vez os americanos - os comandantes mujahedin começaram a enfrentar-se uns aos outros e o Taleban surgiu como uma força que, embora repressiva, ao menos garantia a lei e a ordem. O Taleban enfatizava que era o Islã o princípio organizador de sociedade e governo, não as tribos. Por todo o país, clérigos muçulmanos administravam ministérios públicos, províncias e cidades. Os líderes tribais foram novamente ignorados.

Desde que foi deposto, em 2001, o Taleban tomou impiedosamente como alvo os anciãos tribais que apoiam o governo Karzai, aparentemente por considerá-los seus maiores rivais políticos. Ao mesmo tempo, o governo fraco de Karzai tem se esforçado para proteger e fortalecer anciãos tribais, centenas dos quais foram assassinados ou mortos em atentados.

Um marco do acordo americano com a tribo shinwari é que US$1 milhão em ajuda ao desenvolvimento irá diretamente para anciãos shinwari e não passará pelo governo de Karzai, que os líderes tribais consideram corruptos e incompetentes.

internacional ·
Enviar   Imprimir   Fonte

Corrupção de Sarney a Lula

image O ebook Corrupção de Sarney a Lula pode ser baixado gratuitamente em três formatos: PDF (para imprimir), EPUB (para iPad) e MOBI (para Kindle). Uma versão em inglês (capa acima) está a venda na Amazon.com.

Posts recentes


Que onda!

Guilherme Fiúza viu na onda Luíza o fim da opinião pública tal como conhecemos. Pode ser. E daí?

Pesos e medidas

Nelson Breve, que hoje dirige a Empresa Brasileira de Comunicação, já foi mais exigente em matéria de critérios jornalísticos. Em 2006 ele se incomodava com a falta de checagem de informações.

Verniz fino

Em São Paulo, homenageada por Gilberto Kassab, Dilma Rousseff posou de boa moça. Horas depois, em Porto Alegre, deu declarações incompatíveis com a dignidade do seu cargo.

Flor do pântano

A participação secundária de Dilma num escândalo de corrupção no governo do Rio Grande do Sul mostra o mesmo padrão de conduta que ela segue hoje.

Louco amor

"Intelectual gosta, sim, de caipira. Intelectual não gosta é de ladrão!" O desabafo de FHC sobre Quércia, lembrado por Jorge Bastos Moreno, me fez pensar no amor dos intelectuais pelo operário Lula.

Rio alto astral

Os meios de comunicação do Rio, começando pela Globo, jogam para cima a cidade deles. Em São Paulo não há nada parecido. Por que será?

Dedões a mil

Parece que Ruy Castro nunca digitou nem prestou atenção um garoto digitando num celular. Achei um clip para ele ver.

Moscou dançou. Te cuida, Pequim

Jintao está certo sobre o perigo da cultura de massas ocidental, em todo caso. Vacilou, ele pode acabar na ala VIP da platéia de um concerto de rock na Praça da Paz Celestial, como seu colega Vladimir Putin no concerto de Paul MacCartney na Praça Vermelha.

A novela dos caças

Aldo Pereira sugere uma solução mista para a escolha do caça da Força Aérea Brasileira: uma esquadrilha sueca, outra americana. E para a França, nada? Pobre Sarkozy...

De onde vem o novo

Eric Hobsbawn explica por que a velha esquerda ficou de fora dos protestos que varreram o mundo em 2011. O novo motor das revoluções é a classe média, principalmente os jovens estudantes.

À nossa!

A indústria do vinho é uma das boas coisas da globalização. Mais e melhores vinhos, relativamente mais baratos, para nós, plebeus deste planeta.

Bolsa turismo

O real artificialmente valorizado é um verdadeiro programa de transferência de renda - do Brasil para Miami. The New York Times publica flagrantes dessa invasão.

Resposta aos difamadores

Verônica Serra divulgou a nota que transcrevo a seguir, a propósito do mais recente dossiê - este em forma de livro - fabricado contra o PSDB.

De olho na biruta

Beto Richa glosa o mantra do PSDB: "Esses anos todos: comunicação, comunicação é o nosso problema. E não conseguem achar o caminho." Por que será?
Mais posts