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Europa barra aumento do poder dos emergentes no FMI

Folha de S. Paulo, 07/10/09

Estratégia do Bric será manter o Fundo “a reboque” do G20 até ganhar mais voz

Apesar do apoio de EUA e Japão, emergentes não conseguem emplacar proposta de aumentar seu peso nas decisões do Fundo

FERNANDO CANZIAN
ENVIADO ESPECIAL A ISTAMBUL

Brasil e demais emergentes tiveram mais uma vez suas ambições de poder barradas pela resistência das maiores potências da Europa no encontro anual do FMI (Fundo Monetário Internacional) e do Bird (Banco Mundial), em Istambul, na Turquia.

Desta vez, mesmo o apoio direto de Estados Unidos e Japão para dar mais voz aos emergentes não foi suficiente para aprofundar mudanças.

Agora, embora o FMI fale em se “reinventar” e “voltar ao centro das decisões”, países como Brasil, China e Índia procurarão deixar o Fundo “a reboque” do G20 até conseguirem mais participação.

O G20, que reúne as maiores economias do mundo, foi quem, na prática, ditou a agenda do FMI nos últimos meses.

Brasil e os emergentes reunidos no Bric (Rússia, Índia e China são os demais) sofreram duas derrotas na reunião de Istambul, que termina hoje.

Não conseguiram levar adiante proposta de aumentar em cinco para sete pontos percentuais o peso dos emergentes nas decisões do FMI. E em três para seis pontos no Bird.

Isso faria com que ficasse equilibrado o peso dos países avançados e em desenvolvimento nos dois órgãos.

Enquanto emergentes, EUA e Japão falam em aumento de participação de “pelo menos” cinco pontos, os europeus se fixam em um “até” cinco pontos. O mesmo vale para o Bird.
O prazo para a revisão das cotas é janeiro de 2011, mas os emergentes não têm segurança se ele será cumprido.

A resistência é encabeçada por Alemanha, França e Reino Unido e apoiada por outros europeus. A razão: embora esses países tenham peso maior no FMI, o tamanho de suas economias vai ficando para trás.

Os PIBs (Produto Interno Bruto) de França, Reino Unido e Alemanha já são menores do que o da China. Mas os chineses têm um poder no Fundo bem menor do que cada um dos três. O PIB do Brasil é três vezes maior que o da Bélgica, mas o poder de influência é 37% menor do que o dos belgas.

O Bric também não conseguiu fazer vingar sua proposta de ter votos equivalentes a 16% (que lhe garantiria poder de veto) sobre como será usado um novo fundo do FMI que pode chegar a US$500 bilhões.

Do total desse fundo, Brasil, Rússia, Índia e China poderiam participar com US$80 bilhões (16%). Como não há consenso com os europeus a respeito do direito a veto, os quatro países não devem participar desse fundo.

De qualquer maneira, vão injetar o dinheiro no FMI, mas que só poderá ser usado de modo bem menos flexível.

Em discurso ontem, o diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, reconheceu o peso do G20 e afirmou que os países-membros do FMI devem “acelerar” as mudanças para tornar o Fundo mais “representativo”.

Do ponto de vista de países como China e Brasil, hoje protegidos por bilhões de dólares acumulados em reservas internacionais, interessa ampliar poder e caixa do Fundo apenas se eles obtiverem uma fatia maior nas decisões.

O Fundo lançou nesta reunião a ideia de se tornar uma espécie de banco central global, acumulando caixa suficiente para que se torne desnecessário aos países acumular tantas reservas. Nos últimos anos, as proteções individuais dos países saltaram de US$2 trilhões para US$8 trilhões.

A proposta dificilmente irá adiante sem a China, que é a recordista em reservas, com mais de US$2 trilhões.

Para os EUA, interessa atrair os asiáticos para a ideia do BC global, já que eles poderiam utilizar parte das reservas para consumir mais e rebalancear o crescimento mundial.

Até o colapso de 2008, o mundo crescia largamente dependente do consumo e endividamento norte-americanos. Isso não sustenta mais, daí a necessidade de migrar o principal motor global para asiáticos e demais emergentes.

Exortado pelos EUA, seu maior sócio, o FMI prometeu ontem perseguir esse objetivo, “supervisionar com mais rigor o quadro global” e “levar adiante a reforma na estrutura de representatividade” do Fundo.

Embora a economia global continue frágil, uma mudança mais profunda no FMI pode ficar mais distante à medida que a crise vai fica para trás.

internacional ·
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