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‘‘Ex-candidato do conflito’’ aprende a fisgar aliados e a fugir do isolamento

O Estado de S. Paulo, 11/04/10

Depois dos próprios erros de 2002 e do fiasco tucano de 2006, Serra firmou-se como nome natural e de consenso na aliança de oposição

Julia Duailibi e Christiane Samarco

O “candidato do conflito”, que conquistou o direito de disputar a Presidência e fazer a sua nona campanha eleitoral, ficou nas urnas de 2002. O José Serra de 2010 é outro: em vez de trabalhar no confronto para fazer maioria, e dar a largada em meio a um racha partidário, ele quebrou o isolamento político, aprendeu a fisgar aliados e firmou-se como candidato natural da oposição.

Da derrota de 2002 para cá, São Paulo foi para Serra - com as passagens pela prefeitura da cidade e o governo do Estado - o laboratório da articulação política. Ao juntar PSDB, DEM, PMDB, PTB e PPS, ele encontrou a fórmula para não permitir que outro tucano de Minas, com fama de “político agregador”, furasse a fila do PSDB e lhe tomasse a preferência na corrida presidencial.

O ex-governador Aécio Neves bem que tentou virar pré-candidato. Por um tempo, o mineiro se convenceu de que, independentemente da posição na fila, sua melhor hora era agora. Serra bateu o pé, exibiu resiliência e, escudado num cacife médio de 35% de intenções de voto, foi criando o consenso de que desta vez, mais do que em 2002, a hora é dele. Convenceu a ele mesmo de que há espaço para disputar votos porque “Dilma não é Lula” e “o eleitor olhará mais para o futuro do que para o passado.”

A esperança do tucanato de Minas era que voltasse à cena o “Serra brigão” de 2002, que se lançou rompido com concorrentes como o ex-ministro da Educação Paulo Renato e o hoje senador Tasso Jereissati (CE). O então PFL, sempre aliado da gestão de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), também se dividiu oito anos atrás e ficou entre Serra, Ciro e o próprio Lula.

As últimas esperanças nas hostes mineiras de Aécio passaram pela ideia de que Serra, diante da popularidade de Lula - mais de 80% de aprovação - e de um relacionamento sempre tenso com Geraldo Alckmin, poderia optar pela reeleição fácil ao governo do Estado. Ao montar a arquitetura da eleição para a prefeitura de São Paulo, em 2004, e, depois, na disputa ao governo do Estado, em 2006, Serra deu um cavalo de pau no jeito de se relacionar com os aliados.

Para deixar o governo do Estado sem sobressaltos, Serra escolheu a dedo o seu vice, Alberto Goldman, um político que lhe garante lealdade absoluta. Mais do que uma campanha tranquila, a chapa puro-sangue para governador foi uma das vitórias que reforçaram o primeiro lugar na fila dos candidatos do PSDB: Serra é o único governador de São Paulo eleito em primeiro turno na história política do Estado. Isso, depois de ter vencido o PT de Marta Suplicy na briga pela prefeitura da capital.

Dois anos mais tarde, o apoio ao projeto vitorioso de reeleição de seu vice na prefeitura paulistana acabou lhe valendo a consolidação da candidatura entre parceiros do DEM, do PTB e dissidentes do PMDB. Depois de engolir o vice imposto pelo DEM, ele assimilou o companheiro de chapa de um jeito que Gilberto Kassab se tornou um dos principais articuladores de sua marcha rumo ao Palácio do Planalto.

Feita a parceria com Kassab, veio o primeiro grande lance do “novo Serra”: ele levou o até então desafeto Geraldo Alckmin para seu campo. Sem espaço político depois da derrota para o DEM na prefeitura, Alckmin foi convidado por Serra para ser seu secretário de Desenvolvimento. Com a jogada, impediu que o ex-governador consumasse o flerte com Aécio Neves e migrasse para o projeto presidencial do concorrente.

O ato uniu a cozinha de Serra: o PSDB paulista fechou com ele, em peso, no projeto presidencial. Também tratou de se aproximar de Tasso Jereissati e trouxe Paulo Renato Souza para o governo paulista - o ex-ministro de Fernando Henrique Cardoso passou a dirigir a Secretaria de Educação paulista.

No governo do Estado, também fortaleceu o jogo com a rede de prefeitos, aumentando os convênios com os governos municipais. Pela atuação do outro grande aliado, o secretário-chefe da Casa Civil, Aloysio Nunes Ferreira, o Estado repassou verbas para prefeitos de partidos de oposição, o que lhe valeu a simpatia de boa parte da classe política. A missão dada a Aloysio teve outra serventia, a de mostrar que ele não é centralizador. Ao deixar o governo, duas semanas atrás, Serra fez questão de dizer que é “um monitor, mas não um centralizador”.

Palanques. Embora tenha deixado claro que o governo de São Paulo estava em primeiro lugar, exercendo o cargo até o último dia do prazo legal, Serra não descuidou de outras praças, Brasil afora, sempre mirando a campanha presidencial. Ao mesmo tempo em que se dizia dotado de “nervos de aço” para resistir à pressão dos aliados que queriam antecipar o lançamento da candidatura, ele passou a articular pessoalmente os palanques regionais.

Convocou líderes tucanos e de outros partidos para montar alianças estaduais e arrumar a casa. Evitou, assim, o fantasma de 2006, quando a campanha presidencial de Alckmin naufragou, em grande parte, pela ausência de palanques e com aliados se engalfinhando em disputas regionais. Foi Serra quem articulou, por exemplo, o apoio à candidatura de Paulo Souto (DEM) ao governo baiano.

Desde o ano passado, Serra também trabalhou para ampliar sua inserção em redutos tipicamente lulistas, especialmente no Nordeste, onde é conhecido pela boa gestão à frente do Ministério da Saúde. Além de uma série de viagens à região, Serra fez duas rodadas de entrevistas em rádios com alcance popular.

Popular. De olho no público de baixa renda, Serra também investiu na comunicação popular. Participou de todos os principais programas de auditório da TV brasileira, como os de Hebe Camargo, Luciana Gimenez, Ratinho e José Luiz Datena, para quem, surpreendentemente acabou anunciando a intenção de concorrer ao Planalto.

Durante seu governo, Serra foi pragmático na relação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, consequentemente, com Dilma Rousseff. Protegeu o Estado de suas pretensões eleitorais, ao mesmo tempo em que amarrou uma operação de venda do banco estadual ao Banco do Brasil, o que lhe valeu mais R$5 bilhões para investir pesado na infra estrutura. Outro exemplo de parceria bem-sucedida com o governo federal é o Rodoanel, em que a União entrou com um quarto dos R$6 bilhões investidos.

política · coligação, eleição, josé serra, sucessão presidencial
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