Extravio de confiança
A correspondência tratada como lixo pelos Correios é um bem depositado em confiança nas mãos de quem deveria dela cuidar
Os vídeos feitos em agências dos Correios sobre o trânsito da nossa correspondência documenta o surpreendente desleixo por aquilo que imaginávamos protegido e tratado de outro modo. Pacotes jogados daqui pra lá, sem cuidado, cartas pisadas, correspondência mutilada, conteúdos destruídos, envelopes remendados. A correspondência tratada como lixo, quando na verdade é um bem depositado em confiança nas mãos de quem deveria dela cuidar até que chegasse ao destino. Os objetos postais, sobretudo a carta, se situam num poderoso sistema simbólico que deles faz mais do que meros objetos. O mal-estar em face do que foi mostrado é boa indicação nesse sentido.
Quando colocamos uma carta no correio, nós a pomos aos cuidados da agência oficial de transporte e distribuição de correspondência. Queremos que ela chegue ao destino logo e íntegra. Pagamos por isso e pagamos caro. Se os Correios terceirizam seus serviços e os entregam a incompetentes e irresponsáveis, nem por isso se isentam de responsabilidade no compromisso que assumiram com os usuários. Usar os serviços dos Correios é para muitos brasileiros um ato inaugural da cidadania; para não poucos é o único. A verdade dos Correios, como a do dinheiro, está em nossa fé de que aquilo é verdadeiro e funciona. Quando postamos uma carta, de certo modo pomos nas mãos dos funcionários postais nossos valores sociais sobre o que é o relacionamento humano que por meio deles se concretiza. O serviço displicente e malfeito mutila relacionamentos humanos.
Uma pesquisa de opinião de 2007 dizia que os Correios estavam entre as três instituições de maior confiança dos brasileiros, precedida apenas pela família e seguida pelos bombeiros. Não é pouca coisa e tem sentido. Os Correios são a única agência estatal que atua mesmo nos lugares mais remotos do País. Muitas vezes é o único elo entre um pai e um filho.
Mesmo nestes tempos de relações virtuais através do telefone e da internet, a carta ainda é para muitos o meio pelo qual o ausente se faz presente. Em Central do Brasil, na pessoa de Dora, Walter Salles celebra a redatora de cartas de migrantes analfabetos para seus parentes de distantes cantos do País. Durante anos, nas obras do metrô de São Paulo, havia um sujeito que na Praça da Árvore fazia exatamente isso. Por trás do filme de Salles, o personagem invisível é o carteiro, funcionário sacerdotal desse sacramento que é a carta, meio de comunhão, de amizade, de parentesco, de solidariedade; a carta que é revista, tocada, beijada, guardada. A carta é, no mais das vezes, um objeto vivo. Por isso, os Correios têm sido tema e motivo de muita poesia. Não só no filme de Salles. Todos nós conhecemos a emoção de Mensagem, de Cícero Nunes e Aldo Cabral, na voz de Isaura Garcia, em gravação de 1946: “Tanta verdade tristonha, ou mentira risonha, uma carta nos traz”. Filatelistas colecionam com afeto o raro Olho de Boi, selo postal brasileiro de 1843, dos primeiros do mundo.
No Brasil, a celebração poética da carta e dos Correios é antiga. Na Pinacoteca do Estado, em São Paulo, pode ser vista a tela de Almeida Júnior Saudade, de 1899, retrato do que sente uma mulher da roça ao ler uma carta de alguém amado. Uma instituição que tem essa idade e desperta tão intensos sentimentos não tem o menor direito de ser irresponsável.
Desde a corrupção revelada na CPI dos Correios, de 2005, muitos se perguntam o que foi que o governo fez com uma das nossas mais respeitáveis instituições, uma das bases da unidade nacional, meio de relacionamentos e de identidade. É lícito supor que, nesse quadro, o que os vídeos mostram é apenas a ponta de uma decadência.
Os Correios brasileiros tinham uma marca de eficiência e integridade acima da de outros países. Nosso correio durante anos foi muito melhor do que o correio italiano. Mais de uma vez perdi correspondência que eu mesmo postara na mais importante agência postal de Roma, na Piazza San Silvestro, sempre livros. Um deles, o volumoso original de um livro do Padre Francesconi sobre a imigração italiana para o Brasil, escrito com base na preciosa documentação ainda inédita do arquivo da Congregação dos Padres Scalabrinianos. Por sorte há na Itália uma segunda cópia desse livro. Amigos italianos me aconselharam que passasse a usar o correio do Vaticano, que é operado pelo eficientíssimo correio suíço. Há uma agência ao lado da escadaria da Basílica de São Pedro.
O nosso correio estava se igualando à eficiência do correio inglês. Lá se pode acertar o relógio pela coleta da correspondência nos horários assinalados nas caixas vermelhas espalhadas por todo canto, algumas ainda do tempo da rainha Vitória. Hoje, aqui, nem o Sedex cumpre o que promete e cobra, embora seja um correio caro e paralelo ao serviço normal. Recentemente perdeu livro raro e antigo que comprei e paguei previamente. O livreiro teve que me devolver o dinheiro e os Correios até agora não explicaram o que aconteceu.
JOSÉ DE SOUZA MARTINS, SOCIÓLOGO E PROFESSOR EMÉRITO DA USP, É AUTOR DE A POLÍTICA DO BRASIL LÚMPEN E MÍSTICO (CONTEXTO 2011)





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