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Falta a mola propulsora

Raul Velloso, O Estado de S. Paulo, 14/09/09

Abro esta coluna mensal chamando a atenção para a derrocada dos investimentos e a consequente queda do crescimento econômico nos últimos 40 anos, que parecem ter caído no esquecimento. Enquanto a proximidade das eleições puxa o debate para a surrada discussão estatização versus privatização, a curta recuperação dos investimentos ocorrida em 2003-2008 já foi abortada pela crise. Dos anos 70 para 2003, deixamos de investir 26% do Produto Interno Bruto (PIB) para ficar apenas com metade disso. Por isso o crescimento do PIB caiu de 8% para 2,7% ao ano. Se a expansão de empregos é de fato prioritária, o País precisa voltar a investir muito mais.

A queda nos investimentos foi liderada pelas administrações públicas, e nestas, pela União. A razão investimento/PIB do Ministério que mais investe, o dos Transportes, representou em 2003 apenas um décimo do valor máximo observado nos anos 70. Não é por outro motivo que a situação da área chegou ao caos em que está. Segundo a pesquisa rodoviária anual da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), mais de 80% das rodovias sob gestão estatal são classificadas como “deficiente”, “ruim” e “péssimo”, desde 2003. Pesquisa rápida sugere excesso de inoperância na área federal de transportes, que acabou gerando excesso de interferência do Tribunal de Contas. Estranhamente, convivem no mesmo governo dois planos ligados à área: um plano de logística à antiga, de que só se tem notícia dentro dos órgãos técnicos; e o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que nem de longe lembra os planos de investimento do passado.

De grande destaque na fase pós real foi o virtual equacionamento de dois problemas que explicavam boa parte do drama econômico brasileiro nos últimos anos: inflação e insolvência pública. No tocante ao segundo, parecia que havíamos nadado para morrer na praia, na passagem de 2002 para 2003, pois, mesmo com saldos fiscais elevados, em boa medida pelo citado aperto nos investimentos, a dívida pública tendia a continuar crescendo mais que o PIB.

Aí entrou a curiosa sinergia sino-americana, em que os chineses poupam e investem muito e os americanos consomem o que podem e o que não podem e que levou o mundo a crescer a taxas bem mais elevadas a partir de 2002, puxando particularmente o Brasil.

O País se beneficiou fortemente da explosão dos preços médios de suas exportações e da abundante liquidez mundial que azeitava a engrenagem internacional. Graças a isso, as taxas de juros passaram a cair sistematicamente; o aumento, mesmo incipiente, da taxa de investimento provocou subida do crescimento potencial da economia de 2,7% para 4,5% ao ano; a arrecadação tributária explodiu, aumentando os saldos fiscais ainda mais; e a dívida pública caiu drasticamente em relação ao PIB. Parecia, assim, que voltáramos a ter algum modelo de crescimento econômico, ainda que atrelado à demanda externa.

Para certos segmentos, contudo, em conjunto com a reestatização da economia, o crescimento dos gastos públicos correntes deve prevalecer sobre tudo o mais. Basta crescer os gastos com Previdência, pessoal e assistência social, de preferência acima do PIB, que se cria demanda (como se criar demanda fosse o “x” da questão), e tudo o mais (investimento, poupança, etc.) acaba ocorrendo naturalmente. Não se percebe que essa visão implica gastos correntes públicos excessivos ou poupança pública escassa. Algo que, mesmo quando há condições para o investimento privado (aí incluído o de empresas estatais) crescer sem pressionar a inflação e o balanço de pagamentos, só é possível durante um tempo. Depois essas pressões aparecem e o Banco Central é forçado a subir a Selic, como vimos ocorrer entre 2007 e 2008, abortando o crescimento da demanda privada e não deixando o PIB crescer além de certo ponto (algo entre 4,5% e 5% ao ano).

Diante da crise do mercado imobiliário americano, o modelo de propulsão externa foi abalado e não se sabe direito o que irá substituí-lo nem quando. Em consequência, caiu fortemente a demanda por nossos produtos de exportação, fazendo a produção industrial brasileira desabar rapidamente. De lá para cá, em face das medidas de expansão monetária e fiscal que vêm sendo adotadas, a produção industrial vem se recuperando gradativamente. Mesmo que esses estímulos sejam suficientes para impulsionar a demanda agregada, em breve esbarraremos novamente nos limites ditados pelos excessivos gastos correntes públicos, agora mais turbinados do que antes. Analistas dos mercados financeiros já projetam, inclusive, a subida da Selic para meados do ano que vem.

Olhando para a frente, falta definir uma nova mola propulsora para o crescimento do País, que contemple, entre outros fatores relevantes, maiores investimento e poupança pública. Falta recuperar a burocracia governamental que já cuidou de investimento público bem melhor no passado, e fazer um plano de investimento público para valer (não o PAC), com ênfase especial em infraestrutura de transportes. Se não fizermos nada, a crise passa e a economia brasileira continua a crescer pouco.

Raul Velloso é consultor econômico

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