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Gasto com dívida no Brasil supera o dos EUA

Folha de S. Paulo, 28/12/11

Taxas de juros elevadas fazem consumidores brasileiros comprometer fatia maior do salário com financiamentos

Brasileiros gastam 22% da renda com dívidas, enquanto americanos comprometem 16% do orçamento doméstico

DE SÃO PAULO

Os consumidores brasileiros comprometem uma fatia maior de sua renda com dívidas do que os americanos.

Os brasileiros gastam hoje 22% do que ganham com o pagamento de empréstimos e outros tipos de financiamento, de acordo com o Banco Central. Os americanos comprometem cerca de 16% de sua renda com dívidas.

Nos Estados Unidos, o desemprego e a contração na oferta de crédito, efeitos da crise iniciada em 2008, fizeram o peso das dívidas no orçamento das famílias diminuir nos últimos anos.

No Brasil, ocorreu o oposto. O crescimento da economia aumentou a renda dos trabalhadores e a oferta de crédito, e os consumidores se endividaram mais.

O comprometimento de uma parcela crescente da renda com o pagamento de dívidas preocupa os economistas, porque pode provocar inadimplência e complicar os esforços do governo para estimular a economia.

As estatísticas mais recentes do Banco Central mostram que em setembro os gastos dos brasileiros com cheque especial, cartões de crédito e empréstimos atingiu o patamar mais elevado dos últimos sete anos.

“O governo terá dificuldades para incentivar o crédito como pretende, porque a renda das pessoas está mais comprometida”, diz o economista José Márcio Camargo, da Opus Investimentos.

Ele observa que a inadimplência dos consumidores aumentou nos últimos meses e pode continuar crescendo. “Não é uma crise de crédito, mas o comprometimento da renda aumentou muito nos últimos meses”, diz.

Para o economista-chefe da Acrefi (Associação das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento), Nicola Tingas, isso é resultado de excessos do passado.

“Alguns consumidores foram longe demais no crédito”, afirma o economista. “Isso é bom desde que haja perspectiva de crescimento de renda, mas a inflação tomou parte dos ganhos neste ano e agora a economia começa a desaquecer.”

O brasileiro se endividou nos últimos anos principalmente para consumir carros, eletrodomésticos e outros bens, pagando taxas de juros mais altas e tomando empréstimos de prazos relativamente curtos.

Os americanos, por sua vez, têm a maior parte das despesas com dívidas atreladas à casa própria, em financiamentos de longo prazo.

Segundo estudos da Febraban (Federação Brasileira dos Bancos), essa diferença explica o maior peso das dívidas no Brasil.

Segundo o economista Carlos Henrique de Almeida, da Serasa Experian, a oferta de crédito para consumo no Brasil já atingiu patamares internacionais, mas as taxas ainda são muito elevadas.

“Pagar um financiamento no Brasil exige mais sacrifício do que no resto do mundo”, afirma.

Em novembro, as taxas de juros cobradas dos consumidores estavam 14% mais elevadas do que há um ano, apesar da redução da taxa básica de juros pelo governo nos últimos meses. (MARIANA CARNEIRO)


SAIBA MAIS

Dívidas estão crescendo mais do que a renda

DE SÃO PAULO

Dois fatores explicam o aumento do peso das dívidas para os brasileiros. O primeiro, segundo o economista André Gamerman, da Opus Investimentos, é o crescimento menor da renda do que das dívidas. Neste ano, a dívida das famílias cresceu 17%. A renda, 6%. O economista Wermeson França, da LCA Consultores, observa que o crédito também ficou mais caro.

As medidas restritivas no crédito, adotadas no início do ano, e o aumento dos juros para conter a inflação elevaram as taxas cobradas dos consumidores.

As pessoas continuaram se endividando, mas com taxas mais altas e em dívidas mais curtas, o que resultou também na alta da inadimplência. O BC, entretanto, prevê recuo no endividamento nos próximos meses.

economia · consumo, crédito, renda
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