Gigantismo da favela dificulta trabalho de UPP
Comandante das unidades diz que polícia não pode estar em todos os lugares e pede a ajuda dos moradores
Carla Rocha
A Cidade de Deus tem pelo menos 40 mil moradores. Uma população maior do que a de um município como Arraial do Cabo, na Região dos Lagos. O gigantismo da favela, que começou a surgir na década de 60, com a construção de um conjunto habitacional, é um dos fatores que fazem da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do lugar um dos maiores desafios entre as seis instaladas no Rio. Na origem da resistência à unidade policial, está um tráfico enraizado há meio século e estabelecido sob fortes laços familiares.
— Aquilo é uma enormidade.
A polícia não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo — disse ontem o comandante das UPPs, coronel José Carvalho, reagindo a eventuais especulações sobre falhas no policiamento.
— Precisamos acabar com o pensamento tacanho de que a polícia é a solução de todos os problemas. É preciso levar cidadania e um pouco de conforto para os moradores.
Eles também têm que ajudar, denunciar quem ateou fogo ao ônibus.
A coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes, Silvia Ramos, disse que o ataque ao ônibus foi uma reação do tráfico à dura atuação das UPPs. Segundo ela, ao contrário do Grupamento de Policiamento em Áreas Especias (Gpae) — experiência anterior à das UPPs —, as unidades não fazem vista grossa a nenhum tipo de delito.
— É como se o tráfico dissesse: já abandonamos as armas, e a polícia não deixa nem a gente ter os nossos negócios. Os bandidos estão indignados porque, mesmo desarmados, não estão podendo vender drogas — analisa a pesquisadora. — Os PMs estão sendo implacáveis. E é essa atitude que dá tanta credibilidade a esses policiais das UPPs junto aos moradores.
Silvia acredita que a repressão contínua acabará enfraquecendo a estrutura do tráfico e reduzindo a resistência. De acordo com ela, um estudo do próprio Instituto de Segurança Pública (ISP) mostra o aumento da produção policial na Cidade de Deus e no Morro Dona Marta, em Botafogo, após a instalação das UPPs. A apreensão de drogas na Cidade de Deus, de 2008 para 2009, cresceu 550%; as prisões, 242%; e a detenção de crianças e adolescentes, 364%. No Dona Marta, a apreensão de drogas aumentou 100% e as prisões, 33%.
Para a antropóloga Alba Zaluar, estudiosa da Cidade de Deus, o ataque ao ônibus criou um profundo abismo entre a população local e o tráfico.
— Os moradores sempre tiveram uma relação ambivalente com o tráfico. Eles sofriam hostilidade por parte dos policiais, mas minhas pesquisas nunca mostraram claramente que apoiassem o tráfico. Na verdade, não gostavam da ação policial. Como esta atitude mudou, agora ficou clara a violência do tráfico contra eles.
Para Alba Zaluar, que estudou durante anos a comunidade, a atitude dos traficantes foi um erro gravíssimo: — Foi um gesto de desespero.
Ao incendiar um ônibus, eles estão se colocando contra os moradores. Isso vai criar um abismo difícil de transpor. Eles cometeram um erro gravíssimo, que vai repercutir não só na Cidade de Deus, mas também em outras comunidades.





O ebook Corrupção de Sarney a Lula pode ser baixado gratuitamente em três formatos: 