Sobre                        Contato                        Arquivo

Governo brasileiro comemora retorno do presidente ao poder

Folha de S. Paulo, 15/04/02

ELIANE CANTANHÊDE
DIRETORA DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O governo e a esquerda brasileira comemoraram a volta do presidente Hugo Chávez ao poder, 48 horas depois do golpe de sexta-feira na Venezuela, e enfatizaram o amadurecimento do processo democrático no continente latino-americano. Não se substituem mais presidentes fora da ordem constitucional.

Em telefonema para Chávez ontem à tarde, o presidente Fernando Henrique Cardoso lhe deu parabéns por sua volta à Presidência e manifestou apoio à ordem democrática. Fez, porém, uma advertência: a de que Chávez deve evitar uma “caça às bruxas” e liderar um processo de reconciliação nacional.

O temor é que Chávez, até por temperamento, não resista à tentação de uma revanche contra os autores do golpe, em especial contra setores empresariais e da mídia.

No início da noite de ontem, o Itamaraty divulgou nota oficial com o mesmo tom e o mesmo sentido da conversa de FHC com Chávez, dizendo que o governo brasileiro “tomou conhecimento com satisfação da retomada da ordem constitucional e do processo político democrático”.

O governo, diz ainda, “acolhe com agrado as declarações do presidente Hugo Chávez (...), particularmente seu convite ao diálogo e à reflexão, assim como seu apelo à calma e ao desarmamento de espíritos”.

Segundo a nota, a volta de Chávez a suas funções “marcou um acontecimento significativo para a reafirmação dos valores dos princípios democráticos para a América Latina”.

Tanto o governo quanto a esquerda brasileira elogiaram a ação dos organismos multilaterais no desfecho da crise venezuelana até agora. A nota, por exemplo, reitera o apoio ao papel que a OEA (Organização dos Estados Americanos) e o “Grupo do Rio” (que reúne os países latino-americanos) assumiram.

“Golpe é golpe”

O chanceler Celso Lafer disse à Folha ontem que o caráter não democrático da renúncia forçada de Chávez ficou evidente desde o início e o Brasil foi importante para alardear essa percepção no plano internacional.

“Não existe golpe bom ou golpe ruim. Golpe é golpe”, disse Lafer, respondendo indiretamente à posição dos EUA de tentar justificar a deposição de Chávez.

O chanceler lembrou que Fernando Collor caiu no Brasil, Fernando de La Rúa renunciou na Argentina e Alberto Fujimori fugiu no Peru, entre outros, sempre dentro de processos legais, institucionais. Não foi o caso da renúncia forçada de Chávez na Venezuela.

Conforme a Folha apurou, o Planalto e o Itamaraty analisaram que as manifestações da OEA, do “Grupo do Rio” e dos países da região não só foram decisivas para a volta de Chávez ao poder como registraram um fato praticamente inédito: os Estados Unidos ficaram praticamente falando sozinhos.

O Brasil condenou como “ruptura constitucional” a queda de Chávez e a ascensão de Carmona na sexta-feira sem qualquer respaldo na Constituição. Argentina, Peru e México foram até mais diretos: falaram explicitamente em “golpe”.

Enquanto isso, os EUA e a Colômbia tiveram posições distintas do conjunto e foram condenados por serem ambíguos e terem “aceitado rápido demais” um regime sem lastro constitucional. O Departamento de Estado norte-americano praticamente apoiou o golpe no primeiro minuto, culpando a “falta de democracia” do regime Chávez.

PT comemora

O presidente do PT, deputado José Dirceu (SP), disse que a volta de Chávez é uma derrota do neoliberalismo e contém uma lição histórica para a América Latina: “A direita não pode mais derrubar governos legítimos de esquerda e ficar por isso mesmo”.

Ele comparou a posição oficial brasileira com a norte-americana: “O Brasil foi claro desde o início, ao classificar o golpe de ruptura institucional. Já os EUA tentaram justificar, tiveram uma posição abaixo da crítica”.

O PT, porém, acha que a crise ainda não está debelada, porque o país está muito radicalizado e é necessária uma vigilância constante da comunidade internacional. O deputado Aloysio Mercadante (SP), da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, foi orientado a propor a ida de uma delegação parlamentar para acompanhar os desdobramentos.

internacional ·
Enviar   Imprimir   Fonte

Corrupção de Sarney a Lula

image O ebook Corrupção de Sarney a Lula pode ser baixado gratuitamente em três formatos: PDF (para imprimir), EPUB (para iPad) e MOBI (para Kindle). Uma versão em inglês (capa acima) está a venda na Amazon.com.

Posts recentes


Que onda!

Guilherme Fiúza viu na onda Luíza o fim da opinião pública tal como conhecemos. Pode ser. E daí?

Pesos e medidas

Nelson Breve, que hoje dirige a Empresa Brasileira de Comunicação, já foi mais exigente em matéria de critérios jornalísticos. Em 2006 ele se incomodava com a falta de checagem de informações.

Verniz fino

Em São Paulo, homenageada por Gilberto Kassab, Dilma Rousseff posou de boa moça. Horas depois, em Porto Alegre, deu declarações incompatíveis com a dignidade do seu cargo.

Flor do pântano

A participação secundária de Dilma num escândalo de corrupção no governo do Rio Grande do Sul mostra o mesmo padrão de conduta que ela segue hoje.

Louco amor

"Intelectual gosta, sim, de caipira. Intelectual não gosta é de ladrão!" O desabafo de FHC sobre Quércia, lembrado por Jorge Bastos Moreno, me fez pensar no amor dos intelectuais pelo operário Lula.

Rio alto astral

Os meios de comunicação do Rio, começando pela Globo, jogam para cima a cidade deles. Em São Paulo não há nada parecido. Por que será?

Dedões a mil

Parece que Ruy Castro nunca digitou nem prestou atenção um garoto digitando num celular. Achei um clip para ele ver.

Moscou dançou. Te cuida, Pequim

Jintao está certo sobre o perigo da cultura de massas ocidental, em todo caso. Vacilou, ele pode acabar na ala VIP da platéia de um concerto de rock na Praça da Paz Celestial, como seu colega Vladimir Putin no concerto de Paul MacCartney na Praça Vermelha.

A novela dos caças

Aldo Pereira sugere uma solução mista para a escolha do caça da Força Aérea Brasileira: uma esquadrilha sueca, outra americana. E para a França, nada? Pobre Sarkozy...

De onde vem o novo

Eric Hobsbawn explica por que a velha esquerda ficou de fora dos protestos que varreram o mundo em 2011. O novo motor das revoluções é a classe média, principalmente os jovens estudantes.

À nossa!

A indústria do vinho é uma das boas coisas da globalização. Mais e melhores vinhos, relativamente mais baratos, para nós, plebeus deste planeta.

Bolsa turismo

O real artificialmente valorizado é um verdadeiro programa de transferência de renda - do Brasil para Miami. The New York Times publica flagrantes dessa invasão.

Resposta aos difamadores

Verônica Serra divulgou a nota que transcrevo a seguir, a propósito do mais recente dossiê - este em forma de livro - fabricado contra o PSDB.

De olho na biruta

Beto Richa glosa o mantra do PSDB: "Esses anos todos: comunicação, comunicação é o nosso problema. E não conseguem achar o caminho." Por que será?
Mais posts