eagora.org.br


Rosas da neta da roseira de minha avó

José de Souza Martins, 26/07/08

image
pxl_transp.gif border=0
A porta da cozinha da casa de pau-a-pique, branquinha e de chão de terra batida, de meus avós maternos dava para a estreita passagem lateral de um terreiro que terminava numa cerca de varas. Da cerca para lá ficava a nascente de água fria, cristalina e doce de que se serviam. E a imensa plantação de 13 mil pés de uvas, de que viviam, em seus 80 e tantos anos de idade, muitos filhos e muito sofrimento ao longo da vida. A cerca era em si bonita, como toda cerca de varas, tão própria dos sítios caipiras ali do bairro do Arriá, encravado na serra entre Bragança Paulista e Socorro. Mas ficava mais bonita pelos pés de maravilhas amarelas e vermelhas que iam nascendo ao longo dela, semeadas por si mesmas. A beleza suprema, no entanto, era a das rosas claras de uma roseira rústica, que floria quase o ano todo. Tinham um perfume suave, mas insistente, que nem sempre se pode sentir nas rosas. Cheguei até a pensar que minha avó sofria menos quando, às cinco da manhã, se levantava e saía para o lado de trás da casa para rachar a lenha que seria usada no seu comprido fogão de taipa durante o dia. É que nas úmidas e frias manhãs da roça se podia sentir mais facilmente esse perfume, como se o dia e a movimentação de gente e de animais o espantasse de volta para o refúgio das pétalas delicadas.

Desde menino, acostumei-me a esse perfume de rosas que, junto, com o cheiro de terra do terreiro em dia de chuva e o cheiro de tabatinga das paredes de barro da casa, era o cheiro da casa de minha avó. O tempo me mostrou que a memória é também memória dos odores que ficaram em nossas narinas para sempre. Acho que minha mãe também sentiu a falta desse perfume, porque procurou e achou uma descendente daquela roseira. Muita gente do Arriá tirava dela mudas para plantar em seus terreiros e muitos dos mais de 140 afilhados de meus avós também colheram nela os galhos que levaram seu perfume para tantas casas em tantos lugares do que era então, para todos, o Pinhá, o atual município de Pinhalzinho. Senti um dia no quintal da casa de minha mãe, no subúrbio e longe da roça, aquele perfume conhecido e ancestral. Fui ver e lá estava uma filha da roseira de minha avó. Tenho sorte no plantio de roseiras, não perco uma, pois aprendi a fazê-lo com minha avó e minha mãe. Também eu colhi um galho e o plantei no quintal de minha casa: o neto de minha avó ainda sente, na neta de sua roseira, o mesmo perfume suave, carregado de histórias de três gerações. E no outro dia, meu neto, que é trineto dessa avó, no albor da vida, já sentia o odor dessas rosas. E ria.

Tudo parece indicar que se trata da bisneta de uma roseira que foi plantada um dia por uma velha escrava da região, uma espécie de madrinha de todos, conhecida por Nhá Florinda, que minha mãe conheceu quando ainda era menina. E a quem me levou, logo que nasci, para que me pegasse no colo e me conhecesse. Na beira do terreiro que foi da casa de Nhá Florinda, na Fazenda Velha, eu mesmo conheci imenso e florido cactus plantado por ela.

Mando-lhes rosas dessa roseira antiga, que desde os tempos de antigamente perfumava a vida de cativos e colonos de café, os humilhados e ofendidos, os que nasceram para os espinhos da terra e que dela tiraram também, por conta própria, as perfumadas flores da vida. Fecundas contradições da esperança.


http://www.eagora.org.br/arquivo/Rosas-da-neta-da-roseira-de-minha-av