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Sobre a possibilidade de uma “esquerda moderna”

Augusto de Franco, especial para e-Agora, 27/03/05

O leitor Felipe Varella postou um comentário à minha nota Lições de parasitologia. Tentei responder usando o mesmo mecanismo automático de publicação de comentários do site e-Agora. No entanto, como a questão colocada pelo leitor era complexa, não consegui resumir minha resposta e gastei mais linhas do que deveria. Resultado: o site não aceitou o comentário do comentário. Assim, reproduzo abaixo o comentário do leitor e, em seguida, a minha resposta.

Comentário de Felipe Varella

“Identifico nesta nota o corte conceitual que hoje divide, de um lado, a liberal-democracia (direita moderna?), e de outro, o populismo inconfessadamente autoritário (esquerda atrasada?). Aceitando-se que a “esquerda”, em tese, acredita e luta pela mudança social e pela justiça social (pelo menos mais do que a “direita”), será possível vislumbrarmos uma “esquerda moderna”? Ou talvez uma “direita humanista”? Ainda que sabendo que “direita” e “esquerda” nada mais são do que tipos conceituais, incontestável que eles exercem no seio da sociedade civil letrada uma força simbólica muito grande, por variadas e complexas razões”. (Enviado por Felipe Varella em 25/03/05 09:43).

Minha resposta

Prezado Felipe Varella,
também por variadas e complexas razões as noções de direita e esquerda, embora ainda sejam referências importantes para uma parte dos intelectuais e militantes políticos, não são mais categorias analíticas adequadas. Os fenômenos sociais que permitem o estabelecimento de um novo quadro referencial, mais sintonizado com a contemporaneidade, são, hoje, inescapavelmente, as grandes correntes da transição histórica em curso: a democratização, a globalização e a pós-modernização.

Não há mais como definir tal quadro a partir de movimentos nos modos de produção; por exemplo, diante do avanço ou da agonia do capitalismo ou, mesmo, diante da derrocada ou da falência do socialismo. Assim como também não se pode mais fazer isso a partir de uma matriz teórica ético-política abstrata, baseada em idéias-valores como liberdade e igualdade.

Se abrirmos mão de tais referências, perdem o sentido os conceitos de ‘esquerda’ e ‘direita’. Com efeito, ser de esquerda pressupunha uma opção ideológica que, em termos político-práticos, equivalia a estar do lado do socialismo contra o capitalismo, ou, em termos teórico-políticos, priorizar a igualdade em relação à liberdade. Ser de direita era o contrário (Bobbio, 1994).

É significativo que não se tenha ainda constituído plenamente, como categoria analítica operativa da política, algum critério baseado na adesão à democracia. A aplicação desse critério é mesmo difícil porquanto, nos dias de hoje, quase ninguém quer se declarar contra a democracia. Ele só pode ser aplicado a partir de uma avaliação das conseqüências objetivas das políticas inspiradas por uma determinada tendência, que revele se elas se colocam a favor do processo de democratização das relações sociais e políticas, ou seja, a favor da democratização da sociedade e da democratização da democracia ou se, pelo contrário, elas se colocam, mesmo sem que isso jamais seja declarado, contra tal processo (ou a favor da autocratização das relações sociais e da democracia).

Como o sentido da política (democrática) é a liberdade, freqüentemente a esquerda qualificou os que se definiam pela aposta na democratização da sociedade, como sendo liberais (no sentido político do termo, do liberalismo político) e, às vezes, de direita. O que, parece claro, só faz sentido negativamente, denunciando que a esquerda realmente existente nunca esteve completamente convertida à democracia.

No entanto, esse deveria ser o grande divisor de águas se considerarmos que a democratização é a corrente mais explicitamente política da transição histórica em curso. Diz-se, sem razão, que a globalização se expressa na dimensão econômica e que a pós-modernização se define no campo cultural. Mas tanto a globalização quanto a pós-modernização são fenômenos globais, que incidem em todas as dimensões e se manifestam em todos os campos da vida social. Portanto, elas também podem, em princípio, constituir quadros de referência para a análise das diversas variantes políticas existentes na atualidade.

Contudo, por ter efeitos mais sentidos sobre a vida social e, inclusive, por ter se mantido no centro do debate na última década, a escolha dessa referência deveria recair, preferencialmente, sobre a globalização. Tal já foi tentado, recentemente, por teóricos da London School of Economics; por exemplo, por David Held e Anthony Mcgrew (2002).

No entanto, isso não basta. Pois a análise das variantes políticas diante da globalização identifica correntes de pensamento e ação que nem sempre correspondem a projetos políticos com perfil ideológico definido e conhecido. Tendências captadas por esse tipo de análise nem sempre existem como projetos políticos constituídos e, por outro lado, posições políticas identificáveis compreendem variantes que se posicionam diferentemente diante do fenômeno da globalização. Por exemplo, podemos ter correntes social-democratas a favor e contra a globalização (como os ‘reformadores institucionais’ versus os ‘transformadores globais’, na classificação de Held-McGrew). Além disso, o fenômeno, mais visível, da globalização, é acompanhado por outro fenômeno, menos aparente, de localização (no sentido “forte” do conceito e da hipótese que o sustenta) e, assim, seria necessário – se quiséssemos obter uma classificação compreensiva das tendências existentes – analisar igualmente as variantes políticas diante da localização (Franco, 2003).

É possível, entretanto, estabelecer um outro referencial que, tomando a globalização-localização (ou, se preferirmos, a glocalização) como pano de fundo, avalie as tendências políticas existentes a partir do papel que conferem – considerado tal background – aos principais tipos de agenciamentos existentes na contemporaneidade: o Estado, o mercado e a sociedade civil.

Se adotarmos tal referencial veremos que a social-democracia, em quaisquer de suas variantes, é uma classe de tendências estadocêntricas. É por isso que se fala, com razão, de estatismo social-democrata (Offe, 1999) ou de estatal-democracia (Franco, 1995). Constituem igualmente variantes estadocêntricas ou formas de estatismo, tanto o socialismo da esquerda quanto a maior parte das alternativas de direita.

Ou seja, a direita, sob esse ponto de vista, não se contrapõe à esquerda. Esquerda e direita, porém, se contrapõem igualmente ao liberalismo de mercado ou neoliberalismo (às vezes também considerado de direita, talvez mais por tal razão, “topográfica”, do que por qualquer outra). A questão aqui é saber quem é a favor e quem é contra a suficiência do Estado ou a prevalência do protagonismo estatal e do monopólio estatal do público. Trata-se, então, de um estadocentrismo contra um mercadocentrismo.

Por outro lado, existem vertentes sóciocêntricas, quer dizer, centradas na sociedade civil ou na comunidade, que poderiam ser classificadas como opostas do ponto de vista da classificação baseada na contraposição esquerda x direita. Por exemplo, respectivamente, o comunitarianismo inovador (que também pode ser chamado de localismo cosmopolita ou de glocalismo) versus o comunitarianismo conservador, o primeiro a favor e o segundo contra a globalização.

Um mapeamento dos projetos políticos existentes na atualidade do ponto de vista do papel que conferem ao Estado, ao mercado e a sociedade civil diante do fenômeno complexo da globalização-localização, poderia revelar qual confluência de tendências levaria à constituição de uma alternativa baseada na radicalização da democracia.

Essa é a referência conceitual implícita na minha nota em questão e não a contraposição “liberal-democracia (direita moderna?)” versus “populismo inconfessadamente autoritário (esquerda atrasada?)”, como supôs o leitor.

Referências
Bobbio, Norberto (1994). “Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política”. São Paulo: Unesp, 1995.
Franco, Augusto (1995). “O fantasma do neoliberalismo” in “Esquerda 21”, n. 1. Brasília: 1995.
Franco, Augusto (2003). “A revolução do local: globalização, glocalização, localização”. Brasília – São Paulo: AED – Editora de Cultura, 2003.
Held, David & McGrew, Anthony (2002). “Globalization/Anti-Globalization”. Cambridge: Polity Press, 2002.
Offe, Claus (1999). “A atual transição da história e algumas opções básicas para as instituições da sociedade” in Bresser Pereira, L. C., Wilheim, J. e Sola, L. “Sociedade e Estado em Transformação”. Brasília: Enap, 1999.


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