Com crise, China rouba mais espaço dos produtos nacionais
Situação é mais grave na Argentina, mas indústria brasileira perde espaço também nos EUA e no México
O Brasil está perdendo espaço para a China em mercados importantes para seus produtos manufaturados, como Estados Unidos, Argentina e México, aponta estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI). O problema é estrutural, mas a crise agravou o cenário, porque retraiu o comércio mundial e acirrou a concorrência.
A situação é mais grave na Argentina, onde o Brasil ainda é o principal fornecedor de produtos industriais, mas a distância para a China diminui velozmente. Em 2003, o Brasil vendia 8,6 vezes mais produtos para a Argentina que a China. Nos 12 meses até março de 2009, a diferença foi de 2,5 vezes.
Nos EUA e no México, as empresas brasileiras incrementaram sua pequena participação recentemente, mas não atingiram sequer 2% das importações totais. Os chineses venderam 11,9 vezes mais que o Brasil no mercado americano e 6,8 vezes mais no mexicano nos 12 meses fechados em março.
“A China aproveita o momento de fragilidade dos mercados mundiais para baixar preço e ocupar espaço em países antes abastecidos pelo Brasil”, diz José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). Ele calcula que o câmbio e a recente redução de impostos de exportação na China representa vantagem de 25% sobre os preços brasileiros.
Segundo Sandra Ríos, consultora da CNI, a tendência de queda da participação brasileira na Argentina é clara no curto prazo, depois que a crise desacelerou a economia e o governo local introduziu barreiras contra importações. Os brasileiros perdem mercado para os chineses no sócio do Mercosul, apesar de não pagarem tarifa de importação e do frete mais barato.
A fatia do Brasil nas compras da Argentina recuou de 32,3% em março de 2008 para 30,1% no fim do ano, e 29,8% em março de 2009, sempre no acumulado em 12 meses. Em contrapartida, a participação da China subiu de 11,4% em março de 2008 para 12,4% em dezembro e 12,6% em março de 2009.
Na tecelagem Cedro, as exportações representam hoje apenas 5% do faturamento, ante 12% em 2008. Para Aguinaldo Diniz Filho, presidente da empresa, a queda foi provocada pelo desaquecimento do mercado externo, pela concorrência com a China e pelas barreiras do governo argentino. “Neste ano não mandamos nada, pois a Argentina não está liberando licença de importação, embora o produto chinês esteja entrando fortemente”. Ele afirma que o denim (tecido utilizado para fabricação de jeans) vindo da China chega na Argentina por US$ 1,50, abaixo dos US$ 2,60 cobrados pela tecelagem brasileira.
Os setores têxtil e calçadista foram os mais prejudicados e assistiram suas fatias nas compras da Argentina caírem, respectivamente, de 83% e 79% em 2003 para 53% e 54% em março. No mesmo período, a participação da China nas importações argentinas de sapatos subiu de 13% para 32%. Em têxteis, a alta foi de 2,6% para 23%.
Nos EUA, o Brasil recuperou um pouco de participação no fim de 2008, por conta da desvalorização cambial provocada pela crise na época. A parcela brasileira nas compras americanas saiu de 1,32% em março de 2008 para 1,45% em dezembro e ficou estável em março de 2009. A China chegou a perder espaço nos EUA no auge da crise, mas já se recuperou e respondeu por quase 17% das compras do país em março.
De acordo com Marcio Muller, gerente de exportação da Cerâmica Eliane, “a China se especializou em determinados tipos de produtos e hoje tem escala e custo de produção imbatíveis”. Ele diz que um produto chinês chega no mercado dos EUA até 30% mais barato que o seu. Para não perder contratos, a empresa qualificou fornecedores na China e também atende os clientes americanos via produção no país asiático, mas a maior parte dos produtos que exporta é feito no Brasil.
A German, fabricante de móveis elaborados, instalada em Brasília (DF), perdeu clientes nos Emirados Árabes e nos Estados Unidos. “Já exportamos muito para lá no passado, mas agora não conseguimos mais entrar nesses mercados diante da concorrência predatória dos chineses”, diz José Luiz Dias Fernandez, dono da empresa.
No mercado mexicano, Brasil e China tinham participações muito parecidas em 2001 e ambos os países forneciam pouco mais de 1% das importações totais. Em 2003, a China já respondia por 3,8% das compras do México. Em março de 2009, a participação chinesa nesse mercado atingiu 11,4%.
O Brasil chegou a atender 2,3% da demanda do México por importados em 2006, após um acordo que zerou as tarifas de importação de automóveis entre os dois países. Depois que a economia mexicana foi afetada pela crise, a participação do País retrocedeu para os atuais 1,7%. A China, ao contrário, segue ganhando espaço por causa da alta competitividade.
Brasil aumenta participação nas importações chinesas
Raquel Landim
Enquanto perde mercado para os chineses nos Estados Unidos, na Argentina e no México, o Brasil ganhou participação nas importações da própria China. A fatia do Brasil nas compras feitas pelo gigante asiático no exterior subiu de 0,7% em 2003 para 2,7% no acumulado de 12 meses até março deste ano.
“Ganhamos mercado na China, porque a recuperação das importações do país foi concentrada em commodities, que são vendidas pelo Brasil”, diz Sandra Ríos, consultora da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Em março, por exemplo, as importações chinesas totais caíram quase 25% em relação ao mesmo mês de 2008, enquanto as compras provenientes do Brasil cresceram 158%.
Entre 2001 e 2005, o Brasil dobrou sua participação nas compras chinesas, subindo de 0,7% para 1,5%. Esse porcentual ficou praticamente estável até 2008, quando ocorreu um salto. A fatia do Brasil nas compras da China saiu de 1,6% em 2007 para 2% em março de 2008, 2,6% em dezembro daquele ano e chegou a 2,7% em março de 2009.
Os três produtos mais relevantes nas exportações brasileiras para a China são minério de ferro, soja e petróleo. Levantamento da CNI aponta que o Brasil ganhou participação nas compras chinesas desses itens, com exceção do minério de ferro.
Em 2003, a China adquiria do Brasil 31% da soja que precisava. Esse porcentual subiu para 33,4% em 2008 e para 34,2% em março de 2009. O Brasil é o segundo maior fornecedor de soja para a China, atrás dos EUA.
Os chineses estão comprando mais soja brasileira neste início do ano, aproveitando a queda dos preços das commodities provocada pela crise. Além disso, os sojicultores brasileiros também ocuparam o espaço de seus colegas argentinos, que tiveram uma colheita decepcionante.
No minério de ferro, o volume vendido para a China também aumentou neste início de ano, mas o Brasil apenas recuperou a fatia que havia perdido em 2008. Em março, o País foi o segundo maior fornecedor de minério para os chineses, com 23,8% do total. O porcentual é inferior aos 27% de 2007, mas similar aos 24,6% de 2003.
O petróleo ganhou importância nas exportações brasileiras para a China este ano, mas o Brasil ainda é irrelevante como fornecedor da commodity para o gigante asiático. Em 2003, o Brasil respondia por apenas 0,1% das importações de petróleo da China. Em março de 2009, esse porcentual chegou a 1,8%.
Nos últimos cinco anos, os produtos em que o Brasil mais ganhou participação nas compras da China foram tabaco, granito e suco de laranja. O País é o principal fornecedor desses itens para a China, respondendo, respectivamente, por 59%, 61% e 83% das importações totais.
Máquina brasileira perde para chinesa
China ganha competitividade também na área tecnológica
Raquel Landim e Cleide Silva
A China deixou de ser uma dor de cabeça apenas para os fabricantes de sapatos, roupas ou móveis. O país asiático também está ganhando mercado do Brasil em produtos que utilizam mais tecnologia e contribuem mais para a balança comercial do país como máquinas, eletrônicos, autopeças ou aço, revela estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Os chineses fornecem hoje quase 18% das máquinas que a Argentina compra no exterior. Em 2003, ano em que decidiu participar ativamente do comércio internacional, a China respondia por 8% do total. Ao optar por máquinas chinesas mais baratas, as indústrias argentinas compraram menos do Brasil. A participação brasileira nas importações de máquinas do vizinho caiu de 24,4% em 2003 para os atuais 20,6%.
Em meados do ano passado, a Franho Máquinas e Equipamentos, que produz serras de grande porte para o corte de aço, desistiu de exportar para a Argentina. Luciano Maia Costa, gerente do departamento comercial da empresa, conta que as indústrias argentinas pararam de investir por causa da crise. A concorrência com a China também atrapalhou bastante, porque o país oferece aos argentinos máquinas 30% mais baratas que as brasileiras.
No primeiro quadrimestre, as exportações de máquinas do Brasil para a Argentina caíram 25,6%. “Eles abriram as portas para receber produtos da China em detrimento do produto brasileiro”, diz Nelson Deduque, diretor de mercado externo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq).
No setor eletrônico, estudo da consultoria Prospectiva aponta que o Brasil vem perdendo espaço em todos os países da América Latina. Em 2003, o País vendeu US$ 131 milhões em computadores para os 18 países da região. Quatro anos depois, o montante foi 8,5% maior, ou US$ 142,2 milhões. Já as vendas de computadores da China no continente cresceram mais de 600%, de US$ 258,8 milhões para US$ 1,98 bilhão.
A fabricante de componentes eletrônicos Kraus & Naimer chegou a exportar mais de 20% da sua produção. Hoje, apenas 4% do que produz na fábrica de Cotia, na Grande São Paulo, segue para o mercado externo. “Certamente perdemos mercado para os chineses”, diz Mario Sergio Amarante Filho, gerente de vendas e marketing.
Sandra Ríos, consultora da CNI, alerta para o avanço da China no mercado de aço dos Estados Unidos. Após investir pesadamente no setor, os chineses fornecem 8,4% do aço que os americanos compram, comparado com 10,4% do Brasil. Em 2003, as siderúrgicas brasileiras atendiam os mesmos 10% do mercado, mas as chinesas tinham apenas 2%.
A Embraer também registrou uma pequena queda de participação nas importações de aviões dos EUA de 10,8% em 2003 para 9,1%. Os chineses subiram de 0,4% para 0,9% no período. “É algo para prestar atenção, porque os chineses estão desenvolvendo tecnologia em uma área que a Embraer tem claro domínio”, diz Ríos.
Os Estados Unidos respondiam, em 2000, por 34% das exportações das autopeças brasileiras, participação que no ano passado caiu a 17,5%. Parte da perda é relacionada à queda das vendas de veículos naquele país, mas parte também é creditada a uma maior ocupação de componentes asiáticos, especialmente os chineses.
No México, um mercado importante para as montadoras brasileiras, a participação do País nas importações de automóveis e autopeças caiu de 8,7% em 2003 para 5,3% em março de 2009. A fatia da China subiu de 0,8% para 3%.
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