Um segredo de 15 anos

Às vésperas do Real, BC estocou 130 milhões de cédulas de R$ 100 temendo inflação
Gustavo Paul
BRASÍLIA
Lançado há 15 anos, em 1º de julho de 1994, o Plano Real entrou para a história como o mais bem sucedido plano brasileiro de estabilização econômica. Mas essa certeza foi sendo forjada apenas ao longo dos anos, no gerenciamento diário das medidas. Antes de ganhar as ruas, o Real era um celeiro de ideias e dúvidas.
Durante o período de preparação do plano, o Banco Central comandado por Pedro Malan, temia um fracasso total, com a inflação voltando, em pouco tempo, a disparar.
Para se precaver de um possível aumento da procura por papel-moeda, a direção do BC encomendou, discretamente, a impressão de 130 milhões de cédulas de 100 reais na véspera do lançamento da moeda no mercado, em 1º de julho de 1994.
Segundo revela, uma década e meia depois, o então presidente da Casa da Moeda, Tarcísio Jorge Caldas Pereira, ter cédulas em estoque para colocar na praça foi uma estratégia preventiva, que tinha como base o insucesso de seis planos anteriores: — Para o Banco Central, poderia faltar troco na economia, mas tinha de haver papel-moeda circulando.
Mas os preços não dispararam e por isso, até 2006, o Banco Central não encomendou novas cédulas de R$ 100.
Segundo João Sidney de Figueiredo Lima, atual chefe do Departamento do Meio Circulante do BC, o grande volume de cédulas produzidas, assinadas pelo então ministro da Fazenda, Fernando Henrique, foi suficiente para abastecer o mercado por anos: — As autoridades foram prudentes, pois não se sabia o que podia acontecer. E as cédulas duraram até 2007! Ficamos sem fazer cédulas de R$ 100 por 12 anos.
Mesmo sem ser o titular da Fazenda quando o Real foi lançado — ele passou o cargo a Rubens Ricupero em 30 de março — Fernando Henrique estampava sua assinatura nas notas pois os modelos foram aprovados pelo presidente Itamar Franco quando ele ainda comandava a equipe econômica.
A linha de produção da Casa da Moeda deixou prontas outras levas entre 100 mil e 200 mil notas de R$ 100. Ficaram armazenadas, sem assinaturas.
Por isso, diz Lima, ainda em 1994 foram impressas algumas milhares de notas com a assinatura de Ricupero, que ficou no cargo pouco mais de cinco meses.
Malan, ministro a partir de 1995, também assinou alguns milheiros.
O processo de confecção das cédulas começou muito antes do fechamento dos detalhes do plano. Logo no início de dezembro de 1993, quando a Fazenda anunciou ao país os detalhes do plano de estabilização — com a criação da Unidade Real de Valor (URV), que faria a transição entre o cruzeiro real e a nova moeda —, FH encomendou à Casa da Moeda estudos sobre novas moedas e cédulas. Segundo um assessor direto do ex-ministro, ele não chegou a apresentá- los a Itamar e demais membros da equipe, ainda inseguros quanto aos prazos de implantação da nova moeda.
Fernando Henrique queria ter tudo adiantado para pôr o real em circulação o quanto antes. Em janeiro, os esboços da nova família de moedas estavam prontos e foram aprovados. A produção começou em março. Durante os quatro meses seguintes, a equipe da Casa da Moeda trabalhou em dois turnos de 12 horas, para produzir as novas cédulas e moedas e ainda para abastecer o mercado com cruzeiros reais. Faltou até aço inoxidável para dar conta da produção.
— Em cinco meses produzimos o que normalmente faríamos em um ano.
Até funcionários já afastados foram chamados — conta Caldas Pereira.
Assustado com o primeiro prazo colocado pelo governo para o Real — 1º de maio — o BC decidiu reforçar a produção das notas de menor valor e abriu em março uma licitação internacional.
Segundo Lima, empresas de Alemanha, Inglaterra e França produziram 10% das cédulas que circularam no início do real. Até o fim de 1994, 260 milhões de notas de R$ 5, R$ 10 e R$ 50 vieram do exterior. Hoje, são exemplares de colecionador.
Equipe chegou a cogitar chamar real de coroa e URV teve oito opções de nomes
Fernando Henrique bateu o martelo e escolheu Unidade Real de Valor
Gustavo Paul

BRASÍLIA. Em 1993, durante os meses em que a nova moeda brasileira foi sendo desenhada, sua denominação foi um capítulo à parte. De acordo com um dos auxiliares mais próximos ao então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, cogitou-se inicialmente a adoção de nomes tradicionais de moedas, uma delas era coroa. Mas não houve polêmica diante da escolha de real. Era um derivado natural da moeda corrente, o cruzeiro real. Na verdade, a maior discussão foi em torno do que se chamou de “indexador contemporâneo”, que faria a transição do regime monetário anterior para o novo, a Unidade Real de Valor (URV).
Oito nomes foram propostos pela equipe de comunicação da Fazenda. Um memorando enviado no dia 30 de novembro de 1993 pela assessora de Comunicação da pasta, jornalista Ana Tavares, ao então secretárioexecutivo Clovis Carvalho, listava as opções. Fernando Henrique optou por URV. Ele argumentou que o termo trazia a palavra “unidade”, relacionada ao termo técnico “unidade de conta”, usado pelos técnicos e “real”, que faria uma ponte entre a velha e a nova moedas.
BC deu consultoria a UE, Turquia e, agora, Venezuela
Depois, de acordo com Clovis Carvalho, outra discussão procurou determinar qual seria o plural de real.
Os linguistas mais tradicionais defendiam que se adotasse o termo “réis”, mas este remetia a algo velho — a moeda brasileira do início do século. Dentro do governo, a defesa era por “reais”.
— Essa foi uma discussão entre gramáticos e linguistas, que ocorreu fora da equipe econômica — lembra Carvalho.
O trabalho de distribuição da nova moeda para todos os rincões do país foi um desafio. Em 15 dias, tiveram de mudar 3,4 bilhões de cédulas antigas por 1,5 bilhão de notas de real, além de distribuir três mil toneladas de moedas. De acordo com João Sidney de Figueiredo Lima, atual chefe do Departamento do Meio Circulante do Banco Central (BC), foi a maior troca de moedas já realizada até então, o que levou a instituição a se tornar referência internacional: — Depois então, o que levou a instituição a se tornar referência internacional: — Depois demos consultoria à União Europeia (quando o euro entrou em circulação), à Turquia e, recentemente, à Venezuela.
Entre abril e o fim de junho de 1994, o BC distribuiu notas e moedas de real em recipientes lacrados a 42 instituições financeiras em todo o país, e estas se tornaram fiéis depositárias da nova moeda. Apenas para colocar o real em circulação foram 106 viagens aéreas — os voos carregavam até quatro toneladas do novo dinheiro — e 37 terrestres. Até o fim do ano, chegaram a 445 viagens.
Os carros-fortes saíam do prédio do Meio Circulante do BC no Rio escoltados pelo Exército e nos fins de semana de junho, a Avenida Rio Branco chegou a ser vigiada por tanques. E a distribuição foi justamente isso: uma operação de guerra.
— Para evitar falsificações, a orientação era de que os bancos não abrissem as caixas até a véspera do início do plano. Mas o apoio popular ao plano tornou tudo mais fácil — conta Lima.
ONDE ESTÃO OS PAIS DO REAL
PEDRO MALAN – Presidente do Banco Central entre 1993 e 1994 (governo Itamar), o engenheiro e economista Pedro Sampaio Malan foi ministro da Fazenda durante os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, sendo assim o nome mais duradouro no cargo.
Após presidir o Conselho de Administração do Unibanco, continua ligado ao novo Itaú Unibanco.
EDMAR BACHA – O mineiro Bacha, 67 anos, integrou a equipe que elaborou o Plano Cruzado. Em 1993, voltou ao governo como assessor especial do Ministério da Fazenda.
Sua principal contribuição para o Plano Real foi nas questões relativas ao Orçamento. Hoje ele é consultor sênior do Itaú BBA e sóciofundador do Instituto de Estudos em Política Econômica da Casa das Garças, no Rio, um centro de pesquisas voltado para questões econômicas.
FERNANDO HENRIQUE CARDOSO E ITAMAR FRANCO – O sociólogo e então chanceler Fernando Henrique Cardoso foi o quarto titular do Ministério da Fazenda na gestão de Itamar Franco, que havia assumido a presidência no ano anterior (1992), após o impeachment de Fernando Collor. Depois do Planalto, Itamar foi eleito governador de Minas Gerais (1999-2003). Hoje, preside o conselho de administração do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais. Fernando Henrique, que ganhou duas eleições presidenciais com o sucesso do real, hoje preside o instituto que leva seu nome, além de integrar entidades internacionais.
PÉRSIO ARIDA – Com doutorado no Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, o paulista Arida presidiu o BNDES entre 1993 e 1994, de onde pilotou as privatizações do governo Itamar Franco, fundamentais para a estabilidade fiscal necessária ao Plano Real. Após deixar Brasília, passou pelo Opportunity e pelo Itaú. Atualmente em Londres, é sócio do banco de investimentos BTG, ao lado do ex-Pactual André Esteves.
GUSTAVO FRANCO – Ingressou no Ministério da Fazenda em 1993. Foi atuante nas orientações jurídicas para a MP que criou a URV.
Em 1997, assumiu a presidência do Banco Central e, em janeiro de 1999, deixou o posto por não concordar com a maxidesvalorização do real. Hoje, aos 53 anos, divide-se entre a sala de aula e a gestora de recursos Rio Bravo.
ANDRÉ LARA RESENDE – O carioca Lara Resende, 58 anos, tem dois planos econômicos no currículo. Com Pérsio Arida, elaborou um esboço para o Cruzado, conhecido como Plano Larida, que foi recuperado no Real. Nos anos 90, ocupava o cargo de negociador da dívida externa quando articulou os fundamentos do Plano Real. Abandonou o governo antes de o plano ser lançado. Depois, em 1998, foi presidente do BNDES. Hoje, está à frente da empresa de investimentos Lanx Capital.
A geração que desconhece o salto nos preços
Para adolescentes de 15 anos, período anterior ao real deve ter sido de muita confusão com a tal da ‘hiperinflação’
Anna Luiza Santiago e Bruno Rosa

Hiperinflação, escassez de produtos nos supermercados e troca constante de moeda são uma realidade distante do dia a dia dos jovens que, assim como o real, nasceram há 15 anos. As histórias conhecidas por esses adolescentes sobre a economia brasileira antes de 1994 são apenas as contadas pelos pais, avós e livros de História. Mas os debutantes são unânimes em afirmar que o “tal período” deve ter sido muito confuso. Se fosse hoje, ressaltam, as “pessoas seriam revoltadas”.
A primeira coisa que a estudante Cecília Veiga, de 15 anos, pensa é simples: — Devia ser muito confuso para os nossos pais — diz ela sobre a época em que a remarcação de preços diária atormentava os consumidores.
Maria Isabel Tancredo, da mesma idade, conclui: — A gente teria que comprar tudo imediatamente, não daria para esperar porque, na volta, estaria tudo mais caro.
As duas fazem parte do grupo de 15 alunos com 15 anos de idade que cursam o 1oano do Ensino Médio na Escola Parque, na Gávea, Zona Sul do Rio. Os estudantes receberam O GLOBO na última quinta-feira para falar sobre como é ter nascido num tempo em que o Brasil passou a conhecer a estabilidade, dando adeus à inflação galopante — que chegou a atingir 2.737% em 1990 — e à troca de moedas — desde os anos 80, foram cinco.
— A gente ouve falar que a inflação está subindo quando o ônibus aumenta — comenta o estudante João Lima.
Jovem coleciona cédulas de R$ 1 e paga mais de R$ 2
Assim como ele, os colegas sabem que a geração anterior era muito mais antenada nos problemas econômicos.
— A diferença da nossa geração para a deles é que agora ninguém sabe nada de inflação — analisa André Santos.
Porém, André sente saudade de algo que nasceu no mesmo ano: as notas de R$ 1.
Com medo de nunca mais ver as cédulas — o Banco Central parou de produzi-las em março de 2006 e, desde então, as substitui gradativamente pelas moedas —, o jovem resolveu adquirir de amigos as remanescentes para guardar de recordação. Ele paga ágio por cada uma delas: — Compro cada nota por mais de R$ 2. Hoje eu valorizo muito mais as notas de um real.
O consumo é um assunto que a turma sabe discutir muito bem: — Não consigo segurar o dinheiro da mesada. Se gosto, compro — diz Raquel Dimants.
Thor Gutierrez e Gabriela Silva, que passeavam pelo Norte Shopping, concordam em muitos aspectos com os jovens da Escola Parque. Para eles, se os preços subissem todos os dias, uma das soluções seria suspender parte do o consumo.
— Como poderia tomar um sorvete com um preço em um dia e repetir a dose no dia seguinte pagando mais caro? Eu desistiria — diz Gabriela.
Thor acredita que, “se essa hiperinflação existisse hoje”, o mundo seria de pessoas revoltadas.
Mas traça alternativas: — Se os preços aumentassem todo dia, eu iria trazer lanches de casa para meus passeios.
Com R$ 1 na mão e 15 anos depois, dez pãezinhos viraram apenas três
Inflação acumula alta de 244,86% no período de vigência da moeda
Passados 15 anos do lançamento do Plano Real, aquela nota ou moeda de R$ 1 que comprava um coco gelado em dia de praia ou dez pãezinhos para o lanche já não é suficiente.
Se em julho de 1994 o coco era vendido por esse preço, hoje é encontrado a R$ 3 nos quiosques da Barra da Tijuca.
Em uma ida à padaria, só é possível comprar três pãezinhos, a R$ 0,31 cada um, R$ 0,21 a mais do que há 15 anos.
O troco não dá nem para um chiclete.
Apesar das altas de preços, parte dos produtos que compõem a cesta básica acompanhou a inflação acumulada de 244,86% entre julho de 1994 e maio de 2009, segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do IBGE. Dos 13 itens básicos, de acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), nove custavam menos de R$ 1 há 15 anos. Desses, o pão francês, o óleo e o açúcar subiram menos que a inflação no período.
Notas de R$ 1, que pararam de ser produzidas, são raras O caso é o mesmo do frango e do iogurte, produtos considerados as vedetes do Plano Real. O quilo da ave tem alta acumulada de 240,42% no Rio.
Embora a variação esteja abaixo da inflação, o preço mais que triplicou: foi de R$ 1,19 para R$ 4,06.
O iogurte também superou a marca de R$ 1. Com esse valor, é possível comprar apenas uma unidade na embalagem de 180 gramas. Mas só se o produto estiver em promoção.
A dona de casa Maria Madalena Pinho, de 57 anos, reclama da alta nos preços: — O jeito é comprar menos.
Resolvi até cortar o iogurte por causa do preço. Aproveito quando está em promoção, a R$ 0,99 (a unidade).
Uma caixa de leite de um litro, que em 1994 custava R$ 0,54, hoje não vale menos de R$ 2,42. A passagem de ônibus no Rio sofreu o mesmo efeito: passou de R$ 0,35 para R$ 2,20.
Nas bancas de jornal, a revista em quadrinhos mais barata sai por R$ 2,90.
Se muita coisa já não custa R$ 1, pelo menos parte da salada está garantida por esse valor. Segundo levantamento da Prefeitura do Rio em feiras e supermercados na primeira quinzena de junho, é possível comprar um molho de agrião (R$ 0,79), alface (R$ 0,81), bertalha (R$ 0,80), chicória (R$ 0,81), couve comum (R$ 0,81) e espinafre (R$ 0,81).
Assim como ficou mais difícil comprar com R$ 1, o uso da cédula também é raro.
Em 2006, o Banco Central pôs fim à sua produção devido à baixa durabilidade, de apenas um ano. (Anna Luiza Santiago)
Frango e iogurte deram lugar a celular e laptop
Mudou padrão de consumo
Lucianne Carneiro
Com o fim da inflação e a estabilidade da moeda, o frango, o iogurte, o refrigerante, as viagens ao exterior e até a dentadura se popularizaram, puxados principalmente pelo consumo de massa.
O frango foi o primeiro ícone da estabilidade, ao custar R$ 1 o quilo. Quinze anos depois, o perfil do consumo mudou. A sofisticação começou com o celular, com a privatização das empresas de telefonia em 1998. Já são mais de 157 milhões de celulares no país, além da consolidação do mercado de televisores LCD, laptops e carros.
Para o professor de Marketing da ESPM-Rio Marcelo Boschi, o frango e o iogurte são “metáforas pobres” das mudanças de consumo no Brasil nesses 15 anos. Ele destaca que, ao lado da abertura comercial promovida no governo Collor, o Plano Real permitiu um forte crescimento da quantidade e da qualidade do consumo do brasileiro, com inclusão de classes mais pobres nesse mercado.
— A grande mudança nesses 15 anos é o consumo de massa. Hoje são 80 milhões de pobres com acesso a consumo — diz o professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP) Simão Davi Silber.
Ele destaca que o avanço no consumo nesse período é resultado não apenas da estabilidade da moeda, mas também de uma combinação do aumento da renda, da expansão do crédito e dos programas de distribuição de renda do governo.
No Brasil, o preço médio do frango inteiro teve variação de 210,43% entre julho de 1994 e maio de 2009, enquanto o preço do iogurte subiu 113,54%, segundo o IPCA. O índice geral teve alta de 244,86% no mesmo período.
Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia), o volume de vendas de iogurte aumentou 184,8% entre 1994 e 2008, o de frango teve alta de 167,6% e o de refrigerante, de 251,6%. No mesmo período, o Produto Interno Bruto (PIB, soma dos bens e serviços produzidos no país) per capita teve alta de 25,3%.
A alta foi mais forte nos primeiros anos e voltou a ser expressiva após 2003, incentivada pelas políticas de distribuição de renda.
Os grandes ícones de consumo hoje são itens como o laptop e o carro, e serviços como o acesso maior à universidade, aponta Renato Meirelles, sóciodiretor da consultoria Data Popular, especializada em consumo popular.
— O consumo sofreu sucessivas frustrações nesse período, associadas a problemas externos, inflação ou problemas no mercado de trabalho — diz o sóciodiretor da LCA Consultores Fernando Sampaio.
Metas de inflação: dez anos de resistência
Sistema sobreviveu a crises, mas analistas pedem mudanças. Werlang, pai do modelo, sugere votos abertos no Copom
Liana Melo

O sistema de metas de inflação ainda está longe da maioridade no Brasil. Adotado como âncora da política econômica em 1999 — quando, numa guinada do Plano Real, o país fez uma maxidesvalorização e adotou o câmbio flutuante — o sistema, no entanto, acumulou maturidade nestes dez anos. A prova é que a economia resistiu bravamente à crise financeira global.
E não foi a primeira vez que o modelo foi colocado em xeque: ele já tinha enfrentado turbulências em 2001 e 2003. Só que, mesmo sendo apontado como um dos casos de maior sucesso no rol de 22 países que aderiu ao regime de metas, talvez tenha chegado a hora de refiná-lo.
O economista Sérgio Werlang, considerado o pai do sistema de metas de inflação no país e ex-diretor de Assuntos Econômicos do Banco Central (BC), defende a mudança. Por considerar que o regime hoje está suficientemente amadurecido, Werlang acredita que é preciso mais transparência na aplicação do modelo.
— A Inglaterra já publica seu modelo de previsões desde 1999 — sugere o economista, atualmente vice-presidenteexecutivo do Itaú-Unibanco.
Economista defende volta das reuniões mensais
Para dar ainda maior previsibilidade ao mercado, Werlang prega também que as votações disputadas nas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) sejam abertas e não secretas. No último encontro do Copom, quando a taxa básica de juros Selic foi reduzida para o patamar inédito de 9,25% ao ano, o placar foi rachado: seis diretores do BC optaram pelo corte de um ponto e dois por apenas 0,75 ponto.
Werlang também defende a urgência de as reuniões do Copom voltarem a ser mensais e não mais a cada 45 dias, como atualmente.
— Num momento de crise, a periodicidade menor é bem mais conveniente.
Apesar de admitir a necessidade de ajustes, o economista dá de ombros para aqueles que insistem em criticar o Copom por desconsiderar o equilíbrio externo na definição da política monetária: — Não faz nenhum sentido adotar o regime de metas com câmbio controlado.
Críticas à parte, o sistema de metas no país está associado a uma redução da inflação: em 1999, o IPCA fechou em 8,94%, e, no ano passado, em 5,90%. Em ambos os casos, a inflação não estourou os limites da meta, o que acabou ocorrendo entre 2001 e 2003. Alguns economistas chamam a atenção que a perseguição por manter a inflação sob controle acabou levando o país a experimentar redução do crescimento econômico.
O BC já sinalizou que confirmará a meta de 4,5% para 2010, repetindo assim, pela sexta vez, o mesmo percentual. Se o economista Antonio Corrêa de Lacerda, da PUC-São Paulo, tivesse direito a voto no Conselho Monetário Nacional (CMN) ele votaria para uma meta de 4,5% também em 2011: — Ainda que considere o modelo de metas válido, ele não deve engessar a política macroeconômica.
É que, na sua opinião, o modelo ainda convive com distorções, como o fato de a meta ser definida com base na inflação cheia, o IPCA. Isto faz com que, toda vez que há um choque de preços de commodities ou no câmbio, se promova um aperto na política monetária.
A segunda anomalia, continua Lacerda, está no horizonte muito curto de foco do sistema de metas de inflação, que é de 12 meses. O ideal, defende, é um prazo de 24 ou 36 meses. A última crítica do economista diz respeito ao critério de captura das expectativas, que é centrado exclusivamente no mercado financeiro:
— Este é um sistema enviesado.
Seria oportuno captar também as expectativas do setor produtivo, da academia e de outros segmentos importantes da sociedade.
Para Paulo Nogueira Batista Júnior, diretor-executivo pelo Brasil e mais oito países no Fundo Monetário Internacional (FMI), o sistema de metas de inflação “não pode ser um estorvo” na política econômica.
No caso do Brasil, ele acha muito difícil que o regime funcione como um entrave, porque o sistema foi pensando com bastante flexibilidade: — As metas de inflação no país operam com um intervalo relativamente grande, uma amplitude de dois pontos percentuais para cima e para baixo.
A Nova Zelândia foi o primeiro país a adotar o regime de metas, em 1990, e serviu de modelo para outros países mundo afora
‘A memória da inflação não foi apagada’
Uma década de convivência com o regime de metas de inflação ainda não foi suficiente para apagar a memória inflacionária. A afirmação é do diretor de Política Econômica do Banco Central (BC), Mário Mesquita, admitindo que será necessário “mais um par de anos de inflação baixa e estável para que tais práticas caiam em desuso”.
Liana Melo
O GLOBO: Depois de uma década usando o regime de metas de inflação, o senhor considera que a memória da inflação foi totalmente apagada?
MÁRIO MESQUITA: Creio que a memória inflacionária certamente diminuiu. A nova geração de brasileiros, nascida desde 1994, não viveu o período de hiperinflação, o que ajuda a sociedade a superar estas incômodas lembranças.
Mas a memória inflacionária não foi apagada por completo, em que pese o sucesso do regime de metas para a inflação. A evidência é a persistência de práticas de indexação na economia, como os contratos de aluguel e dos preços de alguns serviços. Aparentemente, serão necessários mais alguns anos de inflação baixa e estável para que tais práticas caiam em desuso.
O regime já está maduro o suficiente ou ainda precisa de aperfeiçoamentos?
MESQUITA: As políticas públicas sempre podem ser aperfeiçoadas. Dito isso, é importante ressaltar que o regime, em seu formato atual, tem sido bem sucedido mesmo em condições nem sempre favoráveis. O modelo atual enfrentou a crise de energia, o estouro da bolha da internet, o choque de commodities e o pânico financeiro de 2008. O desempenho da economia na última década sugere que o desenho básico do regime de metas para a inflação se mostrou adequado.
Eu veria com muita cautela sugestões de mudança que fragilizassem o compromisso com o controle da inflação ou reduzissem a transparência do regime.
Como faço parte de um colegiado que tem a incumbência de cumprir as metas estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), não me cabe tecer comentários específicos sobre alterações no arcabouço do regime.
O economista Sérgio Werlang, considerado o pai do regime de metas, defende a volta das reuniões mensais do Copom. O que o senhor acha disso?
MESQUITA: Não acho que seja necessário retornar à frequência mensal de reuniões. O Copom leva em conta a defasagem dos efeitos da política monetária sobre a economia, inclusive no que se refere ao espaço entre reuniões. Não me parece que os resultados da política monetária seriam significativamente diferentes caso as reuniões fossem mensais. Concordo que a transparência é elemento central do regime de metas, e temos avançado nesta linha.
Juros altos por muito tempo garantem 1º lugar no ranking de investimentos
Aplicações atreladas à taxa básica acumulam rentabilidade até 2.281% em 15 anos
Mariana Schreiber
Os investimentos atrelados à taxa básica de juros (Selic) foram os que acumularam a maior rentabilidade nos 15 anos de Plano Real. Na média, aplicações em CDBs, títulos públicos, fundos DI e de renda fixa se valorizaram mais de 2.000% de 1ode julho de 1994 até maio de 2009. O mais rentável foi o CDB prefixado para resgate em 30 dias, com 2.281,17%. Já o Ibovespa, índice que reúne as ações mais negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), subiu 1.368% no período, enquanto a poupança acumulou rendimento de 554%.
Todos esses investimentos apresentaram ganhos acima da inflação medida pelo IGP-M, que variou 512% nesta década e meia. Já o investimento em dólar, moeda que se valorizou 97,29% nos últimos 15 anos, não garantiu ganho real.
Economistas explicam que, com a estabilização dos preços, o juro real (valor nominal da Selic descontada a inflação) disparou no Brasil a partir de 1994, permitindo ganhos elevados aos investimentos atrelados à Selic.
— Apesar do controle da inflação, os juros nominais permaneceram altos por muito tempo no Brasil depois de 1994.
Assim, houve alta da taxa real.
Antes do Plano Real, os juros nominais eram ainda mais altos, mas a inflação elevada corroia os ganhos — explica o economista do Ibmec-RJ Gilberto Braga.
Ele lembra que, antes da estabilização dos preços, era difícil obter ganhos reais.
Os investimentos serviam essencialmente para evitar ou diminuir as perdas com a inflação.
— As pessoas tinham a sensação de que ganhavam dinheiro, mas efetivamente não ganhavam.
E era difícil prever qual seria o rendimento porque não era possível estimar com segurança a inflação futura ou a taxa de juros do dia seguinte — diz o estrategista-chefe do banco WestLB, Roberto Padovani.
Cartão de crédito era arma contra a inflação A aplicação mais comum no período de inflação alta era o overnight. Investidores das classes média e alta depositavam seus recursos na conta corrente remunerada e os bancos compravam títulos públicos com vencimento de apenas um dia, com taxas fixadas diariamente.
Braga lembra que quem podia deixar seu dinheiro parado por um pouco mais de tempo aplicava por um prazo fechado no open market e conseguia rendimentos melhores.
O cartão de crédito também era uma arma contra a inflação.
— Antes da estabilização, o brasileiro de classe média abarrotava o carrinho de supermercado no início do mês e pagava as compras no cartão de crédito.
Ele então aplicava o dinheiro para só quitar a conta no mês seguinte — conta Braga.
Padovani destaca que, com a estabilização da economia, houve a diversificação dos investimentos e o alongamento dos prazos das aplicações. Hoje, as pessoas conseguem se organizar melhor, têm também mais clareza do rendimento que podem obter e, com isso, se arriscam mais em investimentos voláteis e de longo prazo.
— Atualmente, há título público com vencimento de até 40 anos, algo impensável antes do plano — afirma Padovani.
O presidente da Associação Nacional das Instituições do Mercado Financeiro (Andima), Sergio Cutolo, que foi ministro da Previdência entre o fim de 1993 e o início de 1995, acredita que a tendência agora é que aumentem os investimentos em títulos privados, como ações e debêntures (papéis de dívidas de empresas).
Ele acredita que, com a queda da Selic, os investimentos em renda fixa não serão os mais rentáveis.
Para o diretor-executivo de Fomento e Desenvolvimento de Mercados da BM&F Bovespa, Paulo Oliveira, as ações tendem a se tornar mais atraentes, com ganhos a longo prazo — mesmo com a crise que derrubou o mercado no fim de 2008. Mas ele frisa que a estabilização da economia já provocou grande aumento do investimento em Bolsa.
Sem memória de crises, mais jovens se arriscam na Bolsa Segundo Oliveira, a participação de pessoas físicas na Bovespa cresceu de menos de 10% em 1994 para um terço do total de investidores hoje: — Hoje a Bovespa movimenta cerca de R$ 120 bilhões por mês, o dobro do que foi negociado em todo o ano de 1994.
Gilberto Braga chama atenção ainda para a grande participação dos mais jovens na Bolsa, por não terem a memória dos tempos de instabilidade econômica e crises inflacionárias.


Mínimo, de piso salarial a instrumento social
Rendimento do trabalhador aumentou 144,5% desde 1994. São, pelo menos, 27 milhões de ocupados no piso
Cássia Almeida
O salário mínimo de US$ 100, bandeira sindical dos anos 80, ficou para trás. Hoje, o trabalhador brasileiro, com carteira assinada, não pode ganhar menos de US$ 200. Ainda longe de ser o suficiente para manter uma família de quatro pessoas, o valor atual de R$ 465 é 144,5% maior, já descontando o que a inflação comeu no período, do que o mínimo do início do real, em junho de 1994. Cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros, o que significa um contingente de 27 milhões de pessoas, ganham até um mínimo, e 67% dos aposentados, pensionistas e beneficiários de políticas sociais recebem hoje R$ 465. São 17,6 milhões nesse universo.

Em 15 anos, muita coisa mudou nesse piso salarial. Além da valorização expressiva que começou em 1995, quando o mínimo pulou de R$ 70 para cem reais, e continuou ao longo desses anos, com alta de 12% em fevereiro último, o mínimo passou a ser a referência para os pisos de aposentadorias, pensões e benefícios sociais.
De balizador do mercado de trabalho a instrumento eficiente de redução da pobreza e da desigualdade, o salário mínimo, porém, perdeu seu papel de indexador da economia. Cobrar serviços em número de salários mínimos deixou de ser uma prática, diante dos sucessivos ganhos acima da inflação.
— O mínimo está muito acima do sonhado em fins da década de 80. O seu papel transcendeu o mercado de trabalho — disse o economista Lauro Ramos, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
Na redução da pobreza, o efeito foi imediato, lembra o economista Marcelo Neri, da Fundação Getulio Vargas. Logo após o reajuste em 1995, a pobreza caiu de 35% em 1993 para 28,6% em 1995. E vem caindo desde então. Em 2007, último dado disponível, os pobres eram 18,11% da população. Até 2004, a ação do mínimo sobre a pobreza foi efetiva, mas começou a perder força desde então, diz Neri: — Nos últimos anos, no mercado de trabalho, esse papel se diluiu. Com altas expressivas, começou a não alcançar os mais pobres. O programa Bolsa-Família passou a ser mais efetivo.
Se na base da pirâmide de renda o mínimo perdeu poder, na redistribuição mantém seu papel.
Estudo do diretor do Instituto de Economia da UFRJ, João Saboia, mostrou que, de 1995 a 2005, o mínimo foi responsável por 64% da redução da desigualdade.
O economista lembra que a última Pesquisa Mensal de Emprego (PME), divulgada na quinta-feira pelo IBGE, foi a mais recente estatística a mostrar o papel do mínimo na manutenção de renda da população. O rendimento mediano, que indica até quanto ganha a metade dos trabalhadores das principais regiões metropolitanas, subiu 3,7% em maio, ficando em R$ 782. Já o rendimento médio real caiu 1,1% em relação a abril.
— Com certeza, a alta do mínimo de fevereiro (de 5% descontando a inflação) ainda está tendo efeitos na melhoria da renda do brasileiro das faixas de renda menores — diz Saboia.
A camelô Viviane Andrade Portela consegue ganhar um pouco mais que o mínimo na venda de produtos eletrônicos numa barraca em Botafogo.
Mesmo reclamando da incerteza da rotina de conta-própria, diz que a vida está melhor agora. Em 1994, a ocupação era mesma, mas o salário bem menor.
— A gente depende do movimento. Em dia de chuva, por exemplo, não vem ninguém.
Para o secretário de Políticas da Previdência Social, Helmut Schwarzer, o reajuste do mínimo diminuiu a desigualdade entre os rendimentos da Previdência.
— Sem contar o efeito sobre a redução da pobreza. Ela seria 11 pontos percentuais maior sem os benefícios previdenciários.
COLABOROU Anna Luiza Santiago
http://www.eagora.org.br/arquivo/um-segredo-de-15-anos/