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Inflação é nova ameaça a Chávez

O Estado de S. Paulo, 31/01/10

Reforma que desvalorizou moeda em 50% provoca corrida às lojas; analistas veem sinais de crise e recessão

Roberto Lameirinhas

Acostumados com a distorção causada pelo ágio da cotação oficial do dólar (2,15 bolívares fortes por US$1) e do câmbio paralelo (em torno de 6 bolívares fortes por US$1), os venezuelanos acordaram no dia 9 sob um novo regime cambial. Três semanas após a mudança que criou duas cotações oficiais - 2,30 bolívares para produtos essenciais e 4,30 para os demais itens -, o governo de Hugo Chávez diz ainda não ter uma avaliação precisa do impacto da medida. Analistas ouvidos pelo Estado em Caracas, no entanto, não têm dúvida: a Venezuela deve registrar, em 2010, uma das maiores inflações do mundo.

O primeiro efeito da medida foi uma corrida dos venezuelanos às lojas e supermercados para comprar de tudo, de alimentos não perecíveis a eletrodomésticos e produtos eletrônicos - algo que, em si, já aumentaria a pressão inflacionária.

Na tentativa de conter artificialmente essa pressão, o governo de Chávez interveio, com soldados do Exército e da Guarda Nacional em pelo menos 1.700 estabelecimentos comerciais para evitar o aumento de preços. Numa demonstração de força, expropriou a cadeia de hipermercados Êxito, controlada por uma holding franco-colombiana, acusada de abusar dos preços altos.

Os economistas, porém, veem na decisão um efeito semelhante ao de imprimir moeda sem lastro. “A desvalorização dobrou o custo de mais da metade das transações comerciais legais”, afirmou ao Estado José Luis Cordeiro, da Universidade Central da Venezuela e presidente da Sociedade Mundial do Futuro da Venezuela. “A medida foi adotada com o único objetivo de duplicar as reservas de bolívares fortes em mãos do governo para fazer frente aos gastos em ano eleitoral”, disse, referindo-se às eleições legislativas de 26 de setembro.

“Injetar na economia, sem lastro e do dia para a noite, o dobro de reservas em moeda local tem um efeito devastador sobre os preços”, concorda o analista econômico da Globovisión, emissora vinculada à oposição, Orlando Ochoa. “Não há outra coisa a se esperar que não seja um brutal aumento da inflação.”

AUMENTO DE PREÇOS

Pelas estimativas de Cordeiro, o índice inflacionário deve chegar a 80% em 2010. “O governo projeta para este ano uma inflação de 30%. O índice real, no entanto, deve ficar muito acima desse número. A alta de preços em 2009, oficialmente, ficou em 25,1%, mas a inflação real foi maior do que 40%, principalmente sobre o preço dos produtos alimentícios, boa parte deles, importados.”

A expectativa de inflação alta predomina entre o venezuelano comum. Nos próximos dias, Chávez deve anunciar novas tarifas para o serviço de transporte público, o que incluirá o passe do metrô de Caracas, que hoje custa 0,50 bolívar forte (pouco mais de US$0,20).

“Não é preciso muita pesquisa para saber que não consigo comprar hoje, com o mesmo salário, o que comprava em janeiro do ano passado”, diz Gilberto Sánchez, vendedor de roupas num shopping center que votou em Chávez várias vezes, mas escolherá a oposição em setembro.

Produtora de 3,1 milhões de barris diários, a Venezuela é a quinta maior fornecedora de petróleo para os EUA. Há dois anos, quando o barril chegou a US$150, o país nadava em petrodólares, mas, de acordo com a oposição, o governo Chávez não investiu em infraestrutura - fato ao qual os venezuelanos atribuem a atual crise energética, que obrigou a um racionamento que deixa todo o interior pelo menos quatro horas às escuras a cada dois dias. O barril do petróleo venezuelano está hoje em torno dos US$65.

CRISE GLOBAL

A crise financeira global atingiu em cheio a economia venezuelana no ano passado, que caiu 2,9% - a primeira retração do PIB em seis anos. O racionamento de energia elétrica será o primeiro grande desafio de Chávez para reverter a situação.

“Desde que chegou ao poder, em 1999, esse governo recebeu aproximadamente US$1 trilhão”, afirma Cordeiro. “Mas, apesar disso, a pobreza não diminuiu, a água está racionada a três dias por semana e a distribuição de energia elétrica está em colapso - isso, ironicamente, num país abençoado em termos de recursos naturais.”

No terreno da economia real, a desvalorização do bolívar forte já apresenta um impacto pesado no setor de viagens e turismo. As companhias aéreas têm suas planilhas de custo operacional em dólares e, agora, seu custo dobrou, assim como também duplicaram os preços, responsáveis pelo efeito mais claro da maxidesvalorização para o cidadão comum.

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