Interdição de banco revolta venezuelanos
Sem acesso à própria conta, correntistas ligam ação a cerco à Globovisión
Mariana Timóteo da Costa Correspondente • CARACAS
As instituições bancárias venezuelanas passaram o dia de ontem tentando assegurar que os 284 mil correntistas do Banco Federal — o oitavo maior banco privado do país e que sofreu uma intervenção do governo de Hugo Chávez na última segunda-feira — não perderiam seu dinheiro. Mas o que os clientes encontraram foram as 153 agências do banco espalhadas pelo país com o mesmo cartaz na porta: “Fechada até segunda ordem”. A Superintendência de Bancos (Sudeban) prometeu para os próximos dias informar como os clientes devem proceder para recuperar seus depósitos. Enquanto isso, venezuelanos revoltados acusaram o governo de prejudicar sua vida e suas economias devido a motivações políticas. Segundo os críticos, o objetivo principal de Chávez é perseguir os meios de comunicação contrários ao governo.
— Estamos desesperados, ninguém nos informa sobre nada. Como faremos? Esta ditadura só vai acabar se Chávez sair do poder. Já estou aceitando que ele saia de qualquer jeito. Ele está nos fazendo sofrer, ficar sem dinheiro, tudo porque não quer que a liberdade de expressão prevaleça no país — reclamava Oscar Vera, um produtor de eventos, na porta de uma agência do Banco Federal no centro de Caracas.
Diretores são proibidos de deixar o país
É que a intervenção do banco — por motivos de irregularidades e falta de liquidez, alegam as autoridades — ocorreu apenas três dias depois da emissão de uma ordem de prisão contra o empresário Guillermo Zuloaga, presidente da única TV crítica a Chávez no país, a Globovisión.
Zuloaga e Nelson Mezerhane, presidente do Banco Federal, são dois dos três principais sócios na rede de TV. Mezerhane, que está nos Estados Unidos, disse ontem que não voltará à Venezuela.
O paradeiro de Zuloaga é desconhecido, já que ele anunciou que não se entregará à Justiça.
Ontem à noite, Chávez se defendeu, afirmando que não tem nada a ver com a intervenção ou com a ordem de prisão.
— Estão lhe acusando de um delito, senhor. Apresente-se ao tribunal. Eu não tenho nada a ver com isso — disse Chávez sobre Zuloaga, acrescentando comentários referentes à situação de Mezerhane. — Não tenho nada a ver com isso. É culpa deles, por administrarem um banco de maneira irresponsável.
Ao GLOBO, o terceiro principal acionista da emissora e único que provavelmente ainda se encontra em Caracas, Alberto Ravell, disse que a situação está se agravando. Em fevereiro, ele foi obrigado a se afastar da diretoria do jornalismo da empresa porque era perseguido por Chávez, que acusa a Globovisión de ter ajudado a promover o golpe fracassado contra ele, em 2002.
— E a perseguição se virou contra meus dois sócios — afirma Ravell, que lançou esta semana um portal na internet chamado lapatilla.com, com textos das “mentes pensantes da oposição” venezuelana. — Sofremos 45 ataques de hackers. Chávez também oprime na internet.
Um dos donos da Globovisión, no entanto, afirma que o canal continuará informando sobre as inúmeras crises enfrentadas pelo governo: desde as toneladas de alimentos que apodrecem nos porões da estatal de petróleo PDVSA — acusada de não distribuílos propriamente aos mercados populares criados por Chávez — até inflação, corrupção e violência.
— Chávez quer nos censurar e intimidar, mas não interessa para ele que a gente feche as portas, porque ele usa a Globovisión para dizer que a imprensa em seu país é livre. Livre nessas condições horríveis — acusa o empresário.
Nelson Mezerhane também declarou que seu banco está em dificuldades financeiras por culpa de Chávez. Segundo ele, por meio de constantes ameaças de expropriação, o governo fez com que — de dezembro para cá — a cartela de seus clientes caísse em 45%. Mesmo assim, a instituição já estaria dando sinais de recuperação e cumpria as exigências dos órgãos reguladores do sistema bancário. Mezerhane alega que, por isso, “não havia motivos para a intervenção”: de portas fechadas, sem atendimento aos clientes e válida por 60 dias, prazo para o governo decidir pela reabilitação do banco ou por sua liquidação.
Ontem, o diretor do serviço de identificação e imigração venezuelano (Saime), Dante Rivas, assegurou que recebeu uma notificação sobre a proibição de saída do país de 21 diretores do Banco Federal. Temendo ser preso, Mezerhane confirmou que continuará nos EUA, onde realizava um check up médico, porque seria “imprudente regressar”. Assim como Zuloaga, que foi detido em março depois de criticar o governo Chávez durante um encontro da Sociedade Interamericana de Imprensa, o presidente do Banco Federal havia sido detido por 40 dias em 2005 — acusado de envolvimento no assassinato do promotor Danilo Anderson, que investigava crimes cometidos por opositores de Chávez. Seu envolvimento no crime nunca foi comprovado.





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