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Irmão gêmeo

Xico Graziano, O Estado de S. Paulo , 27/01/09

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) comemorou 25 anos. Para alguns, elogios. Outros, duras críticas. Afora o julgamento de valor, cabe analisar a origem da polêmica entidade. Como surgiram os invasores de terras?

A história vem antes do golpe militar de 1964. A criação do aguerrido movimento coincide com o conflito agrário da Fazenda Sarandi, localizada no norte gaúcho. Desapropriada, porém não indenizada, pelo governador Leonel Brizola, aquela área permaneceu muito tempo ocupada por centenas de posseiros. Barril de pólvora.

Sem solução fundiária, o tempo passou. Quinze anos depois, em 1979, duas glebas da antiga fazenda (Macali e Brilhante) foram definitivamente tomadas pelos camponeses. Logo depois, ergueu-se enorme acampamento na Encruzilhada Natalino, ali perto, à beira da rodovia estadual, onde permaneceram mobilizadas centenas de famílias. Nesse efervescente caldo, mistura de miséria com ideologia, germinou o MST.

Organizado formalmente somente em 1984, em congresso nacional realizado no Paraná, a nova organização arregimentou aquele povo para invadir, definitivamente, toda a Fazenda Sarandi. Na leitura política da sociedade, um movimento de massa, com forte apoio da opinião pública, vencia o carcomido latifúndio. Vitória dos novos tempos.

Ruía, na mesma época, a ditadura militar. No processo da redemocratização do País, após dura repressão, a luta pela reforma agrária ganhava fôlego. Todas as correntes de oposição ao regime, unidas, abriam espaço para a contestação da velha estrutura de poder no campo. Esse privilegiado contexto político favoreceu o viço do MST.

A nova entidade nasceu rachando com a Contag, a poderosa e tradicional Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura. Dominada pelos comunistas desde 1968, ela capitaneava a luta sindical no campo. O rival político expressa uma importante divergência ideológica na esquerda brasileira.

Há um importante detalhe. Antes do MST, dentro da Igreja Católica se constitui, em 1975, a Comissão Pastoral da Terra (CPT). Sem a CPT não se entende o MST. São os corajosos bispos católicos de esquerda que lideram os movimentos camponeses de contestação, do Bico do Papagaio, no Araguaia, à colônia gaúcha. A Teologia da Libertação engendrou a raiva contra a terra ociosa.

Nessa articulação da esquerda católica se agrupam variadas tendências políticas que nunca aceitaram a supremacia do antigo Partido Comunista. Aqui reside o berço contestatório do futuro Partido dos Trabalhadores. O MST é irmão gêmeo do PT.

Como andava a agricultura brasileira nessa época? Sofria profunda transformação. Incentivada pelo então recém-criado Sistema de Crédito Rural, a agropecuária entrava na onda da “revolução verde”. Novas relações de trabalho expulsavam moradores da roça, acelerando o êxodo rural. O capitalismo brasileiro, em resumo, penetrava no campo.

A dolorosa modernização tecnológica, cujo ganho de produtividade rural, obviamente, auxiliava a industrialização, destruía antigos lares na roça, trocando-os pelas horrendas favelas da cidade. Hordas de “sem-terra” perambulavam pelo País, excluídos do progresso. Esse desemprego estrutural alimentou o sonho da reforma agrária.

Passados tantos anos, o que mudou? Primeiro, completa-se a transformação capitalista da agricultura. Os indicadores econômicos atestam, fartamente, que o antigo sistema latifundiário cede lugar à moderna produção agropecuária. Em 1970, o País cultivava 33,9 milhões de hectares, área que cresceu, em 2006, para 76,7 milhões de hectares. A safra nacional de grãos, no início dos anos 1980, beirava os 50 milhões de toneladas; na última colheita atingiu 142 milhões.

Hoje, ao contrário daquela época, falta mão-de-obra para trabalhar no campo. O desemprego brasileiro mora agora na cidade. As famílias migrantes fixam raízes na ribalta do asfalto. Pouco encanta os seus filhos o árduo trabalho na poeira do sol. Um problema mundial.

Em segundo lugar, firma-se a democracia na Nação. O Estado Democrático de Direito substitui o regime de exceção. Partidos políticos funcionam às claras e o Congresso Nacional, mesmo cheio de mazelas, atua com transparência. Livre trabalha a imprensa e a sociedade respira a liberdade. Que bela diferença.

Terceiro, bem ou mal, desde aquela época cerca de 1 milhão de famílias tiveram acesso à terra, no processo de reforma agrária. Perto de 70 milhões de hectares foram distribuídos nos assentamentos rurais. O problema agrário mudou. O drama, agora, afeta o “com-terra”, pois carece garantir renda, e qualidade de vida, aos novos agricultores.

Ao comemorar 25 anos, o MST enfrenta grave dilema. O bonde da história exige sua mutação. É impossível manter sua ideologia e preservar seus métodos num mundo diferente daquele que o criou. Por essa razão, há tempos o MST constrói a fábrica de sem-terra na periferia urbana. Nem isso, porém, funciona mais. O emprego e o Bolsa-Família tomaram o lugar da arruaça.

De início, para enfrentar a ditadura, ou na inépcia do governo, valia bancar o revolucionário. Mas, hoje, brandir foices soa obsoleto; destruir laboratórios, obscurantista. Perdido, o MST inventa assunto para segurar sua onda. Afirma que o agronegócio concentra a propriedade rural. Mentira. O último censo do IBGE indica que 68,2 hectares é a área média no campo. Em 1980 estava em 70,7 hectares.

No congresso que realizou em Sarandi, na semana passada, o MST proibiu a entrada de jornalistas em suas assembleias. Triste ironia. Quem combinava ações espetaculares para ocupar as manchetes agora cerceia a imprensa. O que esconde o MST?

Xico Graziano, agrônomo, é secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. E-mail: xico@xicograziano.com.br Site: www.xicograziano.com.br

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