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Líder transita entre populismo e marxismo

O Estado de S. Paulo, 31/01/10

Chávez despontou como golpista e hoje confunde até aliados

Roberto Lameirinhas

Ele se tornou conhecido ao liderar uma fracassada tentativa de golpe de Estado contra o então presidente venezuelano, Carlos Andrés Pérez, em 1992. Apresentava-se como um tenente-coronel do Exército, com um projeto nacionalista inspirado nos ideais de Simón Bolívar, que se dispunha a interromper o ciclo de governos de dois partidos decadentes. A Ação Democrática (AD) e o Comitê de Organização Política e Eleitoral Independente (Copei) mostraram-se incapazes de tirar da miséria a maioria dos venezuelanos.

Ao ser preso, no fim da revolta que resultou em quase uma centena de mortos, o líder do Movimento Bolivariano 200 declarou: “Nos retiramos. Por enquanto.” Hugo Chávez, hoje com 55 anos, cumpriu a promessa de voltar. Indultado pelo sucessor de Andrés Pérez, Rafael Caldera, venceu a eleição de 1998 depois de reconhecer o erro de ter buscado o poder pela via armada e prometer respeito à propriedade privada e ao estado de direito. Como presidente eleito, foi recebido pelo então presidente americano, Bill Clinton (1993-2001). Um de seus mais conhecidos biógrafos, Alberto Garrido, recusava-se a classificá-lo como esquerdista. “Trata-se do líder de um movimento cívico-militar mais próximo da direita do que da esquerda”, disse Garrido, numa entrevista ao Estado em 2006.

Poucos analistas deram-se conta, mas em janeiro, num discurso à Assembleia Nacional, Chávez declarou-se marxista pela primeira vez. “Comecei a ler O Capital. E, pela primeira vez, assumo o marxismo como assumo o cristianismo”, disse.

Até então, ele mostrava-se um crítico das ideias de Karl Marx. Bem mais recentemente, em 2007, depois de já ter declarado o caráter socialista-bolivariano de sua revolução, Chávez sentenciou em seu programa Alô, Presidente!, referindo-se ao marxismo: “Esse é um dogma que fracassou. Temos de criar nossa própria doutrina.”

Quase 11 anos após chegar ao poder, segundo seus adversários, Chávez acumula um histórico de desrespeito ao estado de direito e à liberdade de expressão, perseguições à oposição e autoritarismo.

“Chávez tem o direito de declarar-se marxista, leninista, stalinista, filho de uma árvore de três raízes ou o que lhe vier à cabeça”, diz o ex-militante comunista e doutor em ciências sociais Héctor Silva Michelena. “Mas o fato é que esse massacre mental o impede de ter uma ideologia clara. Ele tem na mente uma mescla de instintos, intuições e as coisas que ouve de Fidel. O que Chávez faz é anarquismo e Marx não suportava os anarquistas.”

Recentemente, Chávez cobrou em discurso o reconhecimento de sua liderança: “Eu sou o povo, caramba!” “Sua personalidade paranoica tornou-se mais exacerbada desde a tentativa de golpe de 2002”, disse um diplomata estrangeiro em Caracas. “Qualquer aliado que não siga à risca sua cartilha é um traidor em potencial.”

internacional ·
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