Locupletemo-nos todos!
Paulo Araújo enviou o seguinte comentário a uma nota minha sobre “moralismo udenista” e outros babados. Copio aqui para compartilhar melhor.
É fantástico como antigas análises sobre o udenismo retornam hoje como se fossem o supra-sumo da acuidade política e do refinamento e originalidade analíticos. Cito como exemplo o artigo publicado no jornal Valor Econômico: “Um novo padrão de discurso político”. Maria Inês Nassif, Valor Econômico, 26/02/09. Uma frase síntese do recado dirigido às oposições:
“A grande oportunidade dessas eleições, para todo o quadro político, é sair desse paradigma de oposição montado no discurso udenista.”
O recado da jornalista é um claro convite à inversão de valor contido na atualíssima frase do “moralista udenista” Estanislau Ponte Preta: “Instaure-se a moralidade, ou locupletemo-nos todos!”
Há um já antigo texto escrito pelo professor Simon Schwartzman de novembro de 2006 [“A questão da ética na política (ou, o que havia de errado com a UDN?)”] no qual ele relembra um artigo mais antigo ainda escrito em 1954: “O Moralismo e a Alienação das Classes Médias”. De acordo com o professor, esta é uma das primeiras tentativas de desqualificação da ética e da moralidade política em nome da sociologia e da realpolitik da luta de classes. A crítica de 1954 dirigida aos “udenistas” da classe média é a mesma que a jornalista repõe quase literalmente em seu artigo endereçado à oposição. Ou é caso de plágio descarado ou, o que é mais interessante, talvez o seu artigo seja um indicador sobre o tanto que uma determinada construção intelectual do “moralismo udenista” está solidamente sedimentada (ideologia de granito) nos cérebros sectários preguiçosos e/ou interessados.
Simon Schwartzman inicia assim o seu artigo:
“Na última campanha eleitoral (2006), a oposição levantou a bandeira da moralidade na política, que pode ter sensibilizado a muitos, mas não o suficiente para convencer a maioria dos eleitores a mudar seus votos. Ainda hoje, pessoas que insistem no tema da ética e da corrupção no trato das coisas públicas são acusadas de “udenistas” (...). Nos anos 50, um artigo famoso nos Cadernos de Nosso Tempo interpretava o moralismo udenista como uma manifestação da alienação das classes médias em relação às transformações que ocorriam no país, das quais elas não participavam. (...) Em última análise, o moralismo era somente uma arma política como qualquer outra, e o que importava eram os resultados das ações dos governantes, e não os detalhes de seu comportamento ético e moral.”
Link para os artigos citados
http://www.schwartzman.org.br/sitesimon/?p=118&lang=pt-br
PS: A crítica ao “moralismo udenista” surge como o mais recente alvo estratégico da esquerda petista e filopetista na ocasião em que o PT foi pego com as cuecas recheadas na mão. O marco institucional dessa investida em prol da corrupção e da bandidagem é a entrevista oficial do presidente Lula em Paris, concedida a uma obscura jornalista, quando o chefe da quadrilha disse textualmente que o PT nada fez de diferente do que não tivesse sido feito antes na política brasileira. Ou seja, seguiu ao seu modo o “novo padrão de discurso político” indicado pela a jornalista e os que concordam com ela: locupletemo-nos todos!
Enfim, se querem pular para dentro da latrina, estejam à vontade. Mas não insultem, para tal fim, os que não querem se lambuzar de merda.
Nem precisa dizer que concordo. Se o PSDB amarelar nessa briga, está roubado. Literalmente. Obrigado, Paulo.





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Caro
Obrigado pelo destaque dado ao meu comentário. Aproveito para complementar meu pensamente sobre o assunto.
Esse ressurgimento da crítica de 1954 não é neutro e desinteressado. Ele é datado e voltou à ativa na ocasião do mensalão para desqualificar previamente como golpismo do “moralismo udenista” qualquer tentativa das oposições de pedir o impeachment de Lula. E agora, que o instante de perigo passou, ele está sendo ativado em favor da candidatura Dilma. E ainda colocam o Serra como um membro destacado na turma dos valentes amigos do povo que combate o “moralismo udenista”. Na lógica binária do amigo-inimigo (não por acaso Carl Schmitt é coqueluche do momento), amigos são Dilma e Serra e inimigos são os “moralistas udenistas”. O artigo da jornalista é um primor nesse exato sentido.
Nada sei sobre as “internas” do PSDB. Mas te digo que vejo com apreensão o que me parece um certo descaminho. Também não acho que é por acaso que a jornalista acene para o Serra em seu artigo. A mensagem é mais ou menos esta: não há diferenças programáticas entre Dilma e Serra e ambos são “técnicos” e estão contra os “udenistas”.
Votar contra o PT tem muito a ver o imperativo categórico kantiano, sem dúvida. Mas quem está a cada dia que passa diluindo as diferenças entre PT e PSDB?
Ângelo da Cia escreveu em seu blog dois ótimos posts sobre o gigantismo do Estado brasileiro, mostrando com números e fatos como isso se deve à insaciável fisiologia dos nossos políticos. Pois bem, o vitorioso Kassab, de acordo com o que informa Ângelo, seguiu a receita e ampliou o número de pastas na prefeitura em nome da realpolitik (e convenhamos que o realismo político coloca bem juntinhos e de mãos dadas PT e PSDB, para além das concordâncias macroeconômicas), dita “governabilidade”.
Ângelo deixa uma questão que indica que são os próprios tucanos e aliados, num estúpido erro de cálculo político, os artífices dessa diluição:
“Não é o tamanho desta superestrutura uma das responsáveis pelo seu mau funcionamento? O que as oposições têm a oferecer nestes assuntos? O que a oposição tem a dizer sobre a existência de 37 Ministérios? E, por fim, como José Serra responderá quando, ao falar sobre a necessidade de redução no tamanho do corpo ministerial, os petistas retrucarem que o Governo Kassab agiu exatamente como o Governo Lula?”
As pesquisas indicam Serra como candidato de oposição, isto é, como o que mais se distingue de Lula. Porém, se Serra e aliados se empenham em dissolver na prática a distinção oposicionista que o eleitor identifica nas pesquisas, eu fico me perguntando se essa estratégia não vai apenas conduzir a oposição para mais uma derrota. Enfim, não seria o caso de investir na diferença, na distinção oposicionista, e não numa etérea continuidade do que é bom, mas agora com o Serra? Ora, se é para continuar, então o melhor é votar na Dilma que é tão “técnica” quanto o Serra e tem o apoio do Lula.
E aí, quando acontecer, os derrotados vão, mais uma vez, dizer que a culpa da derrota é do PT que usou a máquina do governo.
PS: Alguém ainda acredita que foi somente uma infeliz coincidência o Advogado-Geral da União ter saído em defesa de Lula e Dilma dizendo que os dois nada fizeram de diferente do que Serra e os demais políticos de oposição fizeram ao participar dos eventos? Se isso não for parte de uma estratégia política com vistas a 2010, então é só mesmo uma infeliz coincidência…
Esqueci de adicionar o link para o blog do Ângelo da Cia
http://angelodacia.blogspot.com/