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Lula chama Malan de cínico

O Estado de S. Paulo, 06/09/01

O pré-candidato do PT à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva, chamou nesta quinta-feira de “cínico” o ministro da Fazenda, Pedro Malan.

“Todas as pessoas que elaboram as políticas econômicas deste País são cínicas porque estão preocupadas com o ajuste fiscal, superávit primário e se esquecem da quantidade de crianças que morrem de diarréia, de desnutrição, e dos chefes de família desesperados atrás de um miserável emprego, que não tem, para ganhar R$180”, afirmou.

Depois de uma semana sem atacar o ministro, Lula decidiu mudar de tática. Disse que Malan e sua equipe têm “profundo respeito pelo FMI e total desprezo por 170 milhões de brasileiros”.

Apesar de repetir que acredita na filiação do ministro ao PSDB, para concorrer ao Planalto, Lula não pensa assim. “Os tucanos estão com muitos problemas de auto-afirmação de definição de quem é quem, e lançam balão de ensaio: tira, lança, tira”, ironizou.

Em conversas reservadas, os petistas afirmam não ter dúvidas de que o candidato tucano à sucessão de Fernando Henrique Cardoso será o ministro da Saúde, José Serra. Lula, porém, deu mais uma estocada no presidente ao reiterar que, se depender de Fernando Henrique, quem entrará no páreo será Malan.

“Como o presidente tem o ego do tamanho de seu corpo, do seu peso, precisa de um candidato que defenda a política econômica dele tal como ela é”, criticou. “E, possivelmente, o ministro Serra e o governador do Ceará, Tasso Jereissati (outro pré-candidato do PSDB), não têm a mesma convicção do Malan sobre a política econômica.”

As afirmações de Lula foram feitas em Fortaleza (CE), onde ele participou do Grito dos Excluídos, manifestação organizada pela CUT, e também do segundo seminário para debater o projeto Fome Zero.

A versão preliminar do projeto, preparada pelo Instituto Cidadania - uma organização não-governamental dirigida por Lula -, propõe várias iniciativas para combater a fome. Entre elas, a distribuição de cupons de alimentação para pessoas que ganham menos de US$1 por dia (cerca de R$77 por mês).

Lula classificou de “esmola” os R$15 pagos pelo governo federal a cada criança atendida pelo programa Bolsa-Escola e os R$60 dados às famílias atingidas pela seca.

Em Brasília, o senador Eduardo Suplicy (SP), também pré-candidato petista à Presidência, voltou a discordar de Lula. Da tribuna, defendeu o direito de todas as pessoas receberem uma renda em dinheiro, e não em cupons de alimentação. “O direito à renda básica será semelhante ao de todos os cearenses tomarem banho de mar nas praias do Ceará”, discursou o senador.

Em São Paulo, a prefeita Marta Suplicy (PT), reuniu-se nesta quinta com o primeiro-ministro português Antônio Guterres e aproveitou para articular uma visita de Lula a Portugal, no mês que vem.

Pelos planos da prefeita, Lula deve passar por Portugal depois de visitar o primeiro-ministro francês, Lionel Jospin, nos dias 5 e 6 de outubro. Guterres deve intermediar também um encontro entre o petista e o presidente português, Jorge Sampaio.

Questionada por um correspondente internacional sobre quais seriam as garantias ao capital estrangeiro com Lula na Presidência, Marta foi enfática. “O capital que vem para produzir e se estabelecer é bem-vindo. Nossa restrição é ao capital volátil e especulativo que nada traz ao País”.

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