Sobre                        Contato                        Arquivo

Lula e os prisioneiros cubanos

Blog do Paulo Renato, 12/07/10

São bem-vindos os esforços do governo espanhol e da Igreja Católica que redundaram no compromisso assumido pelo regime cubano de libertar 52 dos 167 presos políticos existentes na Ilha. A lamentar apenas o fato de o presidente Lula ter perdido excelente oportunidade de se afirmar como uma liderança comprometida com os direitos humanos, pois a negociação passou ao largo de sua política diplomática. A tão badalada pressão discreta” - propalada pelo governo Lula - não produziu um só resultado e o Brasil sequer foi coadjuvante do acordo costurado.

Surpreendidos pela rapidez das articulações da Espanha, o chanceler Celso Amorim e o assessor presidencial Marco Aurélio Garcia criaram a versão de que o acordo para a libertação dos presos cubanos foi consequência da “atuação discreta” do governo Lula. O assessor do presidente foi mais além. Segundo ele, a participação do Brasil foi mais efetiva do que a do governo espanhol. Este apenas teria se aproveitado da situação para ficar bem perante a opinião pública mundial. O argumento soa como tentativa de esconder que Lula não é um player levado em conta nem mesmo por seus amigos cubanos.

Cabem alguns reparos às palavras dos porta-vozes do lulo-petismo. A “discrição” não é bem o forte do Lula, nas suas relações com outros países. A não ser se no seu conceito de “discreto” se enquadrem a ingerência na crise hondurenha e a forma atabalhoada com que costurou o acordo nuclear com o Irã. De resto, não se conhece nenhuma pressão, ainda que intramuros, da diplomacia brasileira contra violações aos direitos humanos em países de regime autoritários, com os quais Lula mantem relações privilegiadas.

Na semana em que a Espanha e a Igreja Católica estavam articulando uma saída para a questão dos direitos humanos em Cuba, Lula estava na África, legitimando o ditador Obiang Masongo, da Guiné Equatorial, há 30 anos no poder. Masongo é um liberticida que prende e assassina seus opositores, razão pela qual é repudiado pela comunidade internacional. Pois bem. Nosso presidente resolveu por sua assinatura em um documento, onde se diz: “os dois países (Brasil e Guiné Equatorial) renovam sua continuada adesão aos princípios da democracia, ao respeito aos direitos humanos”. Nosso Chanceler deu um sólido argumento para a relativização dos valores: “negócios são negócios”. Se é assim, vale tudo. Até dar a Masongo o status de democrata!

No caso de Cuba, os novos ventos liberalizantes não são consequência da “atuação discreta” do governo brasileiro. Eles decorrem da pressão internacional – sobretudo da repercussão da morte de Orlando Zapata Tamayo, após 83 dia de greve de fome. Além disso, A economia cubana vive uma grande crise, cuja superação requer relações comerciais com a comunidade europeia. A Espanha é o canal para esta aproximação, daí o papel estratégico que jogou, ao lado da Igreja Católica, no acordo para a libertação de 52 presos políticos em um prazo de quatro meses.

A Espanha nunca concordou com o isolamento econômico de Cuba. Mas jamais foi omissa em relação à violação dos direitos humanos. A Espanha não define sua política externa a partir de afinidades ideológicas e não abre mão de valores humanitários e universais. Podemos dizer o mesmo do governo Lula?

Lula estava em Cuba quando Orlando Zapata morreu, Em vez de respeitar a dor dos familiares de Zapata e de respeitar o direito de opinar e divergir, nosso presidente culpou Orlando Tamayo “por se deixar morrer”. Poucos dias depois, voltou a criticar a greve de fome e comparou os presos políticos da Ilha aos presos comuns brasileiros, numa tentativa de desqualificar os que divergem do regime de Cuba. Por afinidades ideológicas, o governo Lula sistematicamente se recusou a pressionar o governo de Cuba ou a criticá-lo publicamente. E até quando foi possível, negou a existência de presos políticos em Cuba.

Não se conhece um só gesto do nosso presidente voltado para minorar o padecimento dos cubanos cujos direitos não são respeitados. Nenhum preso de Cuba ganhou a liberdade graças à “atuação discreta” da diplomacia brasileira. A depender da “pressão intramuros” de Lula, eles ficariam nas masmorras, indefinidamente. Felizmente a Espanha e a Igreja Católica, apelaram para instrumentos mais eficazes. Graças a eles, um contingente de dissidentes cubanos deixará, em breve, de ver o sol através das grades e poderá respirar o ar puro das ruas.

internacional · cuba, direitos humanos, política externa
Enviar   Imprimir   Fonte

Corrupção de Sarney a Lula

image O ebook Corrupção de Sarney a Lula pode ser baixado gratuitamente em três formatos: PDF (para imprimir), EPUB (para iPad) e MOBI (para Kindle). Uma versão em inglês (capa acima) está a venda na Amazon.com.

Posts recentes


Que onda!

Guilherme Fiúza viu na onda Luíza o fim da opinião pública tal como conhecemos. Pode ser. E daí?

Pesos e medidas

Nelson Breve, que hoje dirige a Empresa Brasileira de Comunicação, já foi mais exigente em matéria de critérios jornalísticos. Em 2006 ele se incomodava com a falta de checagem de informações.

Verniz fino

Em São Paulo, homenageada por Gilberto Kassab, Dilma Rousseff posou de boa moça. Horas depois, em Porto Alegre, deu declarações incompatíveis com a dignidade do seu cargo.

Flor do pântano

A participação secundária de Dilma num escândalo de corrupção no governo do Rio Grande do Sul mostra o mesmo padrão de conduta que ela segue hoje.

Louco amor

"Intelectual gosta, sim, de caipira. Intelectual não gosta é de ladrão!" O desabafo de FHC sobre Quércia, lembrado por Jorge Bastos Moreno, me fez pensar no amor dos intelectuais pelo operário Lula.

Rio alto astral

Os meios de comunicação do Rio, começando pela Globo, jogam para cima a cidade deles. Em São Paulo não há nada parecido. Por que será?

Dedões a mil

Parece que Ruy Castro nunca digitou nem prestou atenção um garoto digitando num celular. Achei um clip para ele ver.

Moscou dançou. Te cuida, Pequim

Jintao está certo sobre o perigo da cultura de massas ocidental, em todo caso. Vacilou, ele pode acabar na ala VIP da platéia de um concerto de rock na Praça da Paz Celestial, como seu colega Vladimir Putin no concerto de Paul MacCartney na Praça Vermelha.

A novela dos caças

Aldo Pereira sugere uma solução mista para a escolha do caça da Força Aérea Brasileira: uma esquadrilha sueca, outra americana. E para a França, nada? Pobre Sarkozy...

De onde vem o novo

Eric Hobsbawn explica por que a velha esquerda ficou de fora dos protestos que varreram o mundo em 2011. O novo motor das revoluções é a classe média, principalmente os jovens estudantes.

À nossa!

A indústria do vinho é uma das boas coisas da globalização. Mais e melhores vinhos, relativamente mais baratos, para nós, plebeus deste planeta.

Bolsa turismo

O real artificialmente valorizado é um verdadeiro programa de transferência de renda - do Brasil para Miami. The New York Times publica flagrantes dessa invasão.

Resposta aos difamadores

Verônica Serra divulgou a nota que transcrevo a seguir, a propósito do mais recente dossiê - este em forma de livro - fabricado contra o PSDB.

De olho na biruta

Beto Richa glosa o mantra do PSDB: "Esses anos todos: comunicação, comunicação é o nosso problema. E não conseguem achar o caminho." Por que será?
Mais posts