Lula e os prisioneiros cubanos
São bem-vindos os esforços do governo espanhol e da Igreja Católica que redundaram no compromisso assumido pelo regime cubano de libertar 52 dos 167 presos políticos existentes na Ilha. A lamentar apenas o fato de o presidente Lula ter perdido excelente oportunidade de se afirmar como uma liderança comprometida com os direitos humanos, pois a negociação passou ao largo de sua política diplomática. A tão badalada pressão discreta” - propalada pelo governo Lula - não produziu um só resultado e o Brasil sequer foi coadjuvante do acordo costurado.
Surpreendidos pela rapidez das articulações da Espanha, o chanceler Celso Amorim e o assessor presidencial Marco Aurélio Garcia criaram a versão de que o acordo para a libertação dos presos cubanos foi consequência da “atuação discreta” do governo Lula. O assessor do presidente foi mais além. Segundo ele, a participação do Brasil foi mais efetiva do que a do governo espanhol. Este apenas teria se aproveitado da situação para ficar bem perante a opinião pública mundial. O argumento soa como tentativa de esconder que Lula não é um player levado em conta nem mesmo por seus amigos cubanos.
Cabem alguns reparos às palavras dos porta-vozes do lulo-petismo. A “discrição” não é bem o forte do Lula, nas suas relações com outros países. A não ser se no seu conceito de “discreto” se enquadrem a ingerência na crise hondurenha e a forma atabalhoada com que costurou o acordo nuclear com o Irã. De resto, não se conhece nenhuma pressão, ainda que intramuros, da diplomacia brasileira contra violações aos direitos humanos em países de regime autoritários, com os quais Lula mantem relações privilegiadas.
Na semana em que a Espanha e a Igreja Católica estavam articulando uma saída para a questão dos direitos humanos em Cuba, Lula estava na África, legitimando o ditador Obiang Masongo, da Guiné Equatorial, há 30 anos no poder. Masongo é um liberticida que prende e assassina seus opositores, razão pela qual é repudiado pela comunidade internacional. Pois bem. Nosso presidente resolveu por sua assinatura em um documento, onde se diz: “os dois países (Brasil e Guiné Equatorial) renovam sua continuada adesão aos princípios da democracia, ao respeito aos direitos humanos”. Nosso Chanceler deu um sólido argumento para a relativização dos valores: “negócios são negócios”. Se é assim, vale tudo. Até dar a Masongo o status de democrata!
No caso de Cuba, os novos ventos liberalizantes não são consequência da “atuação discreta” do governo brasileiro. Eles decorrem da pressão internacional – sobretudo da repercussão da morte de Orlando Zapata Tamayo, após 83 dia de greve de fome. Além disso, A economia cubana vive uma grande crise, cuja superação requer relações comerciais com a comunidade europeia. A Espanha é o canal para esta aproximação, daí o papel estratégico que jogou, ao lado da Igreja Católica, no acordo para a libertação de 52 presos políticos em um prazo de quatro meses.
A Espanha nunca concordou com o isolamento econômico de Cuba. Mas jamais foi omissa em relação à violação dos direitos humanos. A Espanha não define sua política externa a partir de afinidades ideológicas e não abre mão de valores humanitários e universais. Podemos dizer o mesmo do governo Lula?
Lula estava em Cuba quando Orlando Zapata morreu, Em vez de respeitar a dor dos familiares de Zapata e de respeitar o direito de opinar e divergir, nosso presidente culpou Orlando Tamayo “por se deixar morrer”. Poucos dias depois, voltou a criticar a greve de fome e comparou os presos políticos da Ilha aos presos comuns brasileiros, numa tentativa de desqualificar os que divergem do regime de Cuba. Por afinidades ideológicas, o governo Lula sistematicamente se recusou a pressionar o governo de Cuba ou a criticá-lo publicamente. E até quando foi possível, negou a existência de presos políticos em Cuba.
Não se conhece um só gesto do nosso presidente voltado para minorar o padecimento dos cubanos cujos direitos não são respeitados. Nenhum preso de Cuba ganhou a liberdade graças à “atuação discreta” da diplomacia brasileira. A depender da “pressão intramuros” de Lula, eles ficariam nas masmorras, indefinidamente. Felizmente a Espanha e a Igreja Católica, apelaram para instrumentos mais eficazes. Graças a eles, um contingente de dissidentes cubanos deixará, em breve, de ver o sol através das grades e poderá respirar o ar puro das ruas.





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