Mais segurança pessoal, menos desigualdade
The Economist: Geraldo Alckmin [atual governador de São Paulo e candidato presidencial do PSDB em 2006] também está no jogo?
Cardoso: Não, eu acho que não.
Tenho alguma responsabilidade no caso do PSDB. Para botar as cartas na mesa, meu sucessor natural morrer, um ex-governador de São Paulo, Mario Covas. Eu fui presidente por oito anos, fiz parte do governo antes disso, e estava com 71 anos. Já chegava. Decidi que era hora de abrir espaço para outros, não só por generosidade, mas também porque estava cansado de exercer a liderança política. E Covas morreu. Assim, nenhum líder inconteste me substituiu. Foi uma tensão permanente entre três ou quatro possíveis candidatos, e no fim Serra saiu candidato, mas sem convencer os outros que ele era realmente o homem. E agora de novo não está claro. No caso do PT foi diferente porque Lula nunca se afastou da luta, e impôs Dilma. Vamos precisar de algum tempo para reorganizar a hierarquia da liderança. E é muito tarde para mim – estou com 80 anos – para aspirar isso.
The Economist: Você ainda é uma das vozes mais importantes dentro do seu partido.
Cardoso: Certo, mas não por minha causa, e sim por falta de outros! Acho que isso é ruim para o Brasil. E o mesmo se aplica ao outro lado: é só Lula. Deixe-me dizer de modo impessoal: nos últimos 20 anos, só dois líderes. Não é saudável para um país, um país grande. Eu tomei minha decisão: abrir espaço. Esse espaço ainda está aberto.
Temos algumas pessoas de uma nova geração. Depois da minha geração há Serra e o ex-governador do Ceará, Tasso Jereissati. Depois vem Aécio; o governador do Pará, Simão Jatene; o governador de Goiás, Marconi Perillo. Olhando objetivamente, há outo governador, do Partido Socialista, Eduardo Campos, de Pernambuco, que poderia virar líder – ele tem algumas das características. Ele poderia ser capaz, mas ainda não. É uma possibilidade.
Então, há possibilidade. É uma questão de tempo. Provavelmente se Lula não se envolver – o mesmo vale para mim – seria melhor. Para deixar acontecer naturalmente.
The Economist: Desde que deixou a Presidencia, você tem falado publicamente de vários assuntos delicados, notadamente a futilidade da guerra às drogas e a necessidade de tratar o abuso de drogas como um assunto de saúde pública, não criminal.
Cardoso: No meu livro mais recente, “A soma e o resto”, falo francamente sobre vários assuntos, sem levar em conta que sou um ex-professor de sociologia e ex-presidente. Falo como uma pessoa. É difícil, mas em todo caso eu tentei. Incluí o que eu penso sobre drogas. É hora daqueles que realizaram alguma coisa tomar a palavra, porque o que está minando o prestígio dos políticos na sociedade é que os políticos preferem não assumir posições. Porque causa problemas. Porque às vezes o custo de ser franco é muito alto.
No livro eu falo de coisas menos comuns, como a minha espiritualidade, por exemplo, porque nos bastidores as pessoas sempre discutiram até que ponto eu sou ou não uma pessoa de fé. Também sobre o que penso da abordagem tradicional da vida política: o sistema partidário. Ele está completamente ultrapassado com você tem novas formas de conexão, como a internet. Na minha cabeça não está claro o que pode ser feito pelas mídias sociais, internet, smartphones e assim por diante. Que eles podem mobilizar as pessoas está bem claro, estão fazendo isso. Mas, assim sendo, como se conectar com as instituições políticas? Creio que este é um ponto de interrogação para o mundo todo.
Tradução: Eduardo Graeff





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