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Medellín volta a ser líder em violência

O Estado de S. Paulo, 07/03/10


Matadora profissional, aos 13, cedeu à maldade

Hoje com 23 anos, Cabotera deixou as execuções há 2; no ano 2000, ela mergulhou no mundo do crime e prestou serviços para 8 gangues

Bruno Paes Manso

Ela tem 23 anos, olhos castanhos, curvas discretas num corpo bonito e frágil. Para a entrevista que concedeu ao Estado, envolvida por sigilo e despistes, chegou com dois crucifixos prateados pendurados no pescoço, tirados durante a sessão de fotos para evitar o reconhecimento. Cabotera, como pediu para ser identificada, é uma sicária em Medellín - assassina profissional, responsável pelas cobranças no tráfico e pelos homicídios por encomenda em gangues na Comuna 1.

Desde os 13 anos, ela fez parte de pelo menos oito gangues financiadas por paramilitares e narcotraficantes. Mergulhou no crime no ano 2000, depois que o irmão de 12 anos foi assassinado por causa de rumores de que pertencia a uma gangue inimiga. Usou roupa de homem, calças, botas e camisas largas, para ser vista como uma igual entre os homens. Soube seduzir para se aproximar de chefes de outras gangues, obter armas e assassinar desafetos - alguns deles, desprevenidos, foram mortos durante ou depois das relações sexuais. “Quando alguém quer dormir com você e recebe a negativa, você passa imediatamente a correr o risco de ser assassinada. Eu cedia. E depois matava.”

Atuando ao mesmo tempo em gangues rivais, conseguiu levantar informações sobre inimigos e matar alguns dos que assassinaram seu irmão. Mas se o objetivo inicial era a vingança, com o tempo passou a lutar também pela ampliação do poder e dos domínios territoriais dos aliados. Chegou a ambicionar ter uma gangue própria, para matar estupradores, assassinos de crianças e policiais corruptos. “Aqui em Medellín você precisa ser mau e fazer maldades. E ter amigos poderosos, caso contrário, você não é nada”, diz Cabotera. “Consegui me afirmar no crime porque nunca me recusei a obedecer as ordens que recebia. Assassinava, cavava as valas e enterrava. Não me importava quem era a vítima”, conta.

BIOGRAFIAS CURTAS

Os sicários de Medellín são um dos aspectos mais cruéis da violência na cidade. Espécies de camicases menores de idade, com biografias curtas e intensas, estão na linha de frente das gangues e aparecem como um dos responsáveis por tornar a violência ainda mais inconsequente e imprevisível.

Em Medellín, a polícia estima que haja 123 gangues, com 3,6 mil integrantes. Entidades não-governamentais estimam que esses grupos cheguem facilmente a 300, com cerca de 5 mil integrantes. Boa parte deles é menor de idade.

Nos morros da cidade, as gangues aderem ao narcotraficante e ao grupo armado da vez. São esses grupos poderosos que financiam armamentos e drogas para serem vendidos pelos jovens no varejo. As propinas, cobradas de donos de ônibus, comerciantes e algumas vezes dos moradores, são outra tradição. Chamam-se vacunas (vacinas). O crack não é usado pelos jovens na cidade. A droga mais devastadora é o basuco, mistura de restos de cocaína com tabaco. Entre as gangues, contudo, consome-se basicamente maconha e cocaína. Em grandes quantidades.

Quando existe competição no topo da hierarquia das oficinas atacadistas, a tensão e vulnerabilidade se refletem no dia a dia das comunas. “Não pensava em pegar em armas até o momento em que uma gangue passou a cobrar propinas e ameaçar expulsar os moradores que não pagassem. Eu e meus amigos pegamos em armas para defender nossa família, porque não poderíamos aceitar as ameaças calados”, explicou o jovem integrante de uma gangue da Comuna 6.

Aos 20 anos, ele pertence ao grupo que aderiu à facção de Érick Vargas ou Sebástian, em guerra com Maximiliano Bonilla, o Valenciano. O jovem defendeu a trégua acordada entre os narcotraficantes. “O problema é que dependemos da vontade do adversário”, diz.

FINAL INFELIZ

Se a violência cresceu em Medellín, Cabotera, pelo menos, passou a tentar um caminho alternativo. Começou a trilhá-lo no ano passado, incentivada pelo nascimento de dois filhos, de 3 e 4 anos. Continuou envolvida no crime escondida da família. Os filhos são criados pela avó. Conseguiu chegar ao mandante do assassinato do irmão. Ironia do destino, encontrou com ele desarmada, depois de ter feito a promessa a Nossa Senhora de Guadalupe de nunca mais voltar a matar.

Mas decidiu completar a vingança denunciando à polícia os que assassinaram seu irmão. Fez a denúncia há um ano. Foi o maior arrependimento que teve na vida. A polícia virou-lhe as costas e atualmente ela vive escondida, procurada tanto pelas autoridades, nas quais não confia, como pela gangue denunciada. Tem o apoio armado de integrantes de uma gangue rival.

Durante o tempo em que foi sicária, era conhecida pela frieza. Mesmo quando perdia companheiros nas guerras entre gangues, era incapaz de chorar. Durante a entrevista, que durou cerca de 1h30, se emocionou por três vezes. Sempre ao falar dos filhos. “Sei que não posso pensar no futuro. Queria ser médica forense, guarda de trânsito. Mas não posso mais sonhar”, diz. Cabotera sabe que o destino mais provável é ter o mesmo fim das 2.185 pessoas assassinadas no ano passado em Medellín.


FRASES

Cabotera
Assassina profissional

“Quando alguém quer dormir com você e recebe a negativa, você passa imediatamente a correr o risco de ser assassinada. Eu cedia. E depois matava”

“Consegui me afirmar no crime porque nunca me recusei a obedecer às ordens que recebia. Assassinava, cavava as valas e enterrava. Não me importava quem era a vítima”

“Sei que não posso pensar no futuro. Queria ser médica forense, guarda de trânsito. Mas não posso mais sonhar”

justiça e segurança ·
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