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Memórias da Espanha

Eduardo Graeff, 08/07/11

Compartilho a mensagem de José de Souza Martins:

Soy hermano de la espuma,
De las garzas, de las rosas,
Y del sol, Y del sol.

Amigos (as),

repasso-lhes esta empolgada apresentação de “Alma Llanera”, de Bolivar Coronado e Pedro Elías Gutierre, com a participação de surdos-mudos no coral, que me foi enviada, na manhã de hoje, por minhas primas da Espanha, Elo e Dília. Depois de 60 anos da imigração de minha família materna para trabalhar como colonos nas fazendas de café da Bragantina, em 1913, 60 anos depois de um grande silêncio, consegui encontrar um primo na estação Victoria, em Londres, em 1973. Narro esse encontro emocionado e litúrgico no meu livro de memórias, que sai neste mês: Uma Arqueologia da Memória Social (Autobiografia de um moleque de fábrica), Ateliê Editorial, 2011.

Ele era bom cozinheiro, trabalhava há anos num restaurante. Era escritor, culto e refinado, grande leitor. Fez uma enorme paella para celebrar o encontro, com mais dois espanhois, amigos dele, no modestíssimo apartamento em que vivia, no subúrbio de Londres. No fim da noite e de um porre fenomenal de vinho espanhol, nos despedimos (eu tinha que voltar para Brighton, no sul, onde participava de um seminário internacional de dois meses sobre reforma agrária no mundo, na Universidade de Sussex). Deu-me de presente seu bem mais precioso, que lhe dera nossa tia Rosaura, com as economias de seu salário de operária: o volume da obra completa de García Lorca (“Verde que te quiero verde. Verde viento. Verdes ramas. El barco sobre la mar y el caballo en la montaña.”).

Meu primo voltaria à Espanha, para morrer em nossa terra ancestral, San Pedro de Alcántara, em Marbella, na pátria El-Andaluz, da cultura moçárabe, a grande cultura do civilizado encontro de mouros, judeus e cristãos, que deixou amplo e belo elenco de obras filosóficas e científicas e de arte, literárias, musicais. Terra em que vivem essas primas e de onde me escrevem com frequência.

Desde então, nos encontramos várias vezes e nos correspondemos. Muitas vezes falamos por meio da música. Ou da fotografia.  Em Madrid nos encontramos em duas ocasiões para as festas de corrala, festas de cortiço, da Madrid pós franquista, culturalmente restaurada pelo velho socialista Terno Galván. Ali se encontravam os muitos retornados do exílio de mais de meio século.  Numa das vezes, bem perto de nossa mesa estava o escritor Ian Gibson, o grande autor irlandês de “Vida, pasión y muerte de Federico García Lorca”. Noutra vez, com meu primo Fernando, fomos ver “As moscas”, de Aristófanes, num teatro ao ar livre, de Madrid. Fui ver e aprender como é que os gregos riam 2.500 anos antes. E, noutra ainda, Elo me levou ao Museu do Prado para ver “Guernica”, de Picasso, recém entregue à Espanha, e os desenhos preparatórios da grande obra (os desenhos, datados, infinitamente mais intensos do que o quadro, num crescendo de dor e indignação).

Na comunhão desses reencontros fomos sepultando nossos mortos e nossas involuntárias distâncias. Minha família materna era, na Espanha, comunista, roja, vermelha. Vários primos participaram da Guerra Civil contra Franco, um deles o pai de Elo e Dília. Meu tio Miguel foi comandante de um grupo guerrilheiro nas serras de Andaluzia. Minha tia Isabel, sua prima, no anoitecer, saía com outras mulheres pelos campos para levar comida ao marido e aos primos em combate. A Espanha se dividia entre a dor e a esperança e se cobria de ódio e de sangue. Foram derrotados e presos. Alguns primos ficaram anos na prisão. Meu tio Miguel foi condenado à morte, cuja execução não se deu porque enlouqueceu na tortura: dentre outras barbaridades, arrancaram-lhe as unhas com um alicate. Minha tia Isabel o visitava no campo de concentração da Plaza de Toros, de Madrid. Acompanhou sua agonia até o final. Já velhinha, quando meu irmão e minha mãe a encontraram, em viagem que o governo espanhol ofereceu a minha mãe, também muito idosa, para que encontrasse e conhecesse sua família, Isabel delirava, atormentada pelos fantasmas que povoavam tragicamente suas lembranças. Queria encontrar os que se foram. Esperava o retorno dos ausentes, os que nunca mais viriam.

Quando encontrei o rei Juan Carlos e a rainha Sofia, e com eles conversei, nas Nações Unidas, em Genebra,  em 2005, quando era assessor do Alto Comissariado de Direitos Humanos, nada mais havia para sepultar na Espanha do perdão e do esquecimento.

música · espanha
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Comentários anteriores (1)
Leda Vianna em 09/07/11 às 02:37

Eduardo, muito bacana essa apresentação, linda mesmo. E também muito legal a história da sua família e dos reencontros, tão importantes na vida. Valeu mesmo.

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