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Menos desemprego e mais renda

O Globo, 27/01/12

Taxa de desocupação no país caiu ao menor patamar desde 2002: 4,7% em dezembro

Fabio Rossi

VINICIUS Marins Borges conseguiu emprego de designer gráfico em março, depois de uma procura de dois meses

Marcio Beck marcio.beck@oglobo.com.br

Omercado de trabalho brasileiro bateu todos os recordes em 2011. A taxa de desemprego de dezembro, divulgada ontem pelo IBGE, chegou a 4,7%, a menor desde que começou a série histórica da pesquisa, em março de 2002. A taxa média anual também foi a menor, 6%, frente a 6,7% de 2010, mesmo com o crescimento menor da economia no ano passado. O rendimento, apesar da inflação mais alta em 2011, teve ganho real de 2,7%, chegando ao seu maior nível: R$1.625,46. A parcela de empregados com carteira assinada também alcançou seu melhor patamar: 48,5% dos trabalhadores.

— São recordes que vêm acompanhados de aumento na qualidade do trabalho. Em um momento de recessão, pode até haver aumento da ocupação, mas costuma vir acompanhada de informalidade e redução nos rendimentos. Não é o caso — afirmou o gerente da pesquisa, Cimar Azeredo.

Mas há motivos de preocupação nos números da pesquisa. A queda da taxa de desemprego em dezembro foi totalmente puxada pela redução da procura por trabalho (que caracteriza o desempregado). Não houve aumento no número de ocupados, pelo contrário, esse contingente ficou 0,4% menor. E a crise na Europa espreita o mercado de trabalho. Essa incerteza faz analistas projetaram taxa média de desemprego este ano menor que 2011 (5,3%), igual (6%) e maior (6,4%).

— O número é muito bom, principalmente quando o desemprego vem subindo nos países desenvolvidos, mas é preocupante que o número de ocupados tenha sido menor que em novembro. Não é normal. É uma grande interrogação, talvez mostrando que a crise já esteja tendo algum efeito no mercado de trabalho — afirmou o economista Carlos Henrique Corseuil, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Pleno emprego ainda distante

Mesmo com os números positivos, analistas foram unânimes em afirmar que o país ainda não alcançou o pleno emprego. De acordo com o diretor-adjunto do Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho da Unicamp, Anselmo Santos, somente um patamar de desemprego de 4% da força de trabalho poderia provocar pressões inflacionárias:

— Mas este seria ainda um cenário distante. O ganho de produtividade no ano passado vai compensar a alta do rendimento.

No ano, o número de desempregados caiu 10,4%, chegando a 1,6 milhão, o que representou menos 166 mil desocupados em um ano. A população ocupada subiu 2,1%, alcançando 22,7 milhões. A expansão, porém, ficou menor do que em 2010, quando esse universo de trabalhadores havido subido 3,5%.

— Os avanços são indiscutíveis, mas ainda há um grande contingente de pessoas desempregadas, à beira do subemprego ou trabalhando sem a proteção da carteira assinada — analisou Azeredo.

Santos, da Unicamp, diz que o fechamento de 2011 com desemprego abaixo de 5% foi surpreendente. Segundo ele, os dados mostram uma recuperação em relação à desaceleração da atividade econômica no terceiro trimestre. Santos acredita em redução da taxa neste ano:

— Temos muita chance de fechar abaixo de 6% este ano, considerando que o crescimento do PIB deve ser maior que o ano passado. A cada ano com crescimento do PIB em 3,5%, a taxa de desemprego pode recuar 0,7 ponto percentual. Desta forma, 2012 pode terminar em torno de 5,3%

Na análise do HSBC, os números apontam que o desemprego em 2012 pode ser abaixo do esperado, mas acima de 2011. O banco projeta taxa de 6,4% para o ano. O economista-chefe do Banco Fator, José Francisco Gonçalves, aposta no mesmo percentual:

— Com a desaceleração da atividade econômica, a taxa vai aumentar um pouco, embora com defasagem. As demissões não são feitas imediatamente depois da queda na atividade. É preciso que a queda seja percebida como duradoura. Vai tomar uns meses.

Por região, a menor taxa de desemprego ficou com Porto Alegre, de 4,6%. Mas foi a única região que não mostrou melhora no indicador. Já as regiões nordestinas, mesmo com taxas mais altas, conseguiram reduzir mais o desemprego. Em Recife, ela caiu de 8,7% para 6,5%. No Rio, a índice diminuiu de 5,6% para 5,2%.

Já as mulheres não conseguiram avançar no abismo de desigualdade frente ao salário dos homens. Elas continuam ganhando 28% menos que os homens, situação que se repete há três anos.

EUA têm taxa de 8,5%. No Coreia, 3%

Na comparação internacional, o Brasil se destaca, com um nível de desemprego bem inferior ao dos Estados Unidos (8,3%), da zona do Euro (10,3%) e até dos vizinhos Argentina (7,4%) e Chile (7,2%). Mas, na Coreia do Sul, a taxa é bem inferior: 3%.

Após deixar o emprego em 2009 para viajar, o designer Vinícius Marins Borges só voltou a ter carteira assinada em 2011. Ele conta que por dois meses procurou trabalho. Foi contratado, mas com salário abaixo do que ganhava.

— Apesar de ter conseguido relativamente rápido, senti alguma dificuldade. Não correria de novo o risco (de deixar o emprego).

A estudante de Direito Raíssa Barros, de 20 anos, começou a procurar o primeiro emprego em 2011. Em março, conseguiu trabalho como vendedora em uma loja de cosméticos, mas largou cinco meses depois. Voltou a procurar vaga no comércio, enquanto não começa o período de estágio na área. A taxa de desemprego dos jovens ainda mostra as fragilidades do mercado de trabalho brasileiro. A taxa para os têm entre 18 e 24 anos ficou em 13,4%, mais que o dobro da taxa média de 6%:

— Tentei em outubro, para as vagas temporárias de fim de ano, mas a concorrência é muito grande. Mandei currículo para uma agência que me arranjou duas entrevistas. Estou otimista. Não pode desanimar.

No emprego doméstico, a queda foi expressiva. Em 2010, ocupava 7,2% dos trabalhadores empregados, em 2011, baixou para 6,9%.

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