Não tem tradução
Barack Obama citou Gandhi e Martin Luther King a propósito dos acontecimentos no Egito.
Que eu lembre, os líderes que a BBC entrevistou na praça Tahrir antes da declaração de Obama não citaram Gandhi, mas me fizeram pensar nele. Falaram na força moral da não-violência, tolerância, conciliação.
Não sei que papel esses líderes terão a partir de hoje. Eles falaram em inglês fluente. Vários eram ativistas da Internet. Pareciam ocidentalizados. Mas também pareciam orgulhosos do seu país. Talvez mais importante, pareciam imbuídos de humildade para dialogar com as outras partes do país, das Forças Armadas à Irmandade Muçulmana.
Eu não queria estar na pele deles. Mas para mim eles são uma novidade animadora numa região onde a tônica das relações entre partidos, religiões e estados tem sido a violência, intolerância, radicalização.
Outro dia, lendo a autobiografia de Gandhi, lembrei que às vezes fantasiava sobre os palestinos encontrarem um caminho parecido com o dos indianos para a libertação.
Lembrei só para achar improvável.
O princípio da não-violência tem raízes fundas na tradição hinduísta. Gandhi fez uma síntese inspiradora disso com o rule of law inglês, que ele aprendeu em Londres. E ainda conseguiu incorporar os muçulmanos e sikhs ao movimento de independência, numa construção política que levou mais de 30 anos, ou 40 anos se levarmos em conta o período de “treinamento” de Gandhi na África do Sul.
Nem com toda a minha boa vontade dá para vislumbrar condições parecidas no Oriente Médio.
E no entanto aqueles jovens estavam ali, na praça em festa, falando coisas que levaram a mim, o speech-writer do Obama e a torcida do Flamengo, imagino, a lembrar de Gandhi. Afinal, se os negros americanos conseguiram aclimatar os princípios da não-violência, com toda a distância social e cultural entre a Índia e os Estados Unidos, por que não os egípcios?
Chequei no Google: a palavra que Gandhi adotou para dar nome ao seu método de luta, satyagraha, não tem tradução em árabe, inglês, português nem outras línguas, suponho.
Sim, isso parece um problema. Mas quem sabe não é uma solução?





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