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Neopeleguismo galopante

Mauro Chaves, O Estado de S. Paulo, 14/03/09

O movimento sindical surgido no ABC paulista, que tinha como ponto de referência maior a figura carismática do metalúrgico Lula, era uma verdadeira revolução - que se tornou vitoriosa - contra o arraigado peleguismo da era Vargas. A forma como aquela figura, que se tornou presidente da República mantendo o carisma, tem conseguido amaciar as forças sindicais, atrelando-as novamente ao Estado pela cooptação de seus líderes e a concessão de polpudas benesses, tem sido mais do que uma simples ressurreição das chapas brancas sindicais do Estado Novo: tem sido a introdução, no sindicalismo nacional, de um neopeleguismo galopante, deslavado e ultrajante, pelo qual as consciências são arrematadas sem quaisquer disfarces - mesmo que esse arremate se possa iniciar por uma encenação semelhante à praticada ante a demissão, sem reação, dos 4.200 funcionários da Embraer.

No mesmo dia em que a Embraer anunciou o maior corte de empregos de sua história, Lula encontrava-se em reunião com o presidente da principal central sindical. Esse e outros sindicalistas se apressaram em dizer que Lula ficara “indignado” com a notícia das demissões. Tanto o governo quanto esses dirigentes sindicais já sabiam das demissões muitos dias antes, e não falaram ou fizeram nada. Só depois do fatídico anúncio veio à tona, com estardalhaço, a indignação presidencial, especialmente pelo fato de a empresa ter sido beneficiada largamente pelo BNDES. Com essa “notória” indignação, o presidente Lula avisou que convocaria a direção da Embraer para cobrar explicações. Imaginava-se, então, que ele agiria como os chefes de Estado, de governo e os altos dirigentes do mundo inteiro têm feito: pressionasse para que se tentassem todas as soluções possíveis antes de pôr no olho da rua trabalhadores qualificados.

Não haveria possibilidade de reduzir a remuneração dos dirigentes da empresa, de contingenciar o pagamento de dividendos dos acionistas e de reduzir custos de produção - o que é sempre possível com um esforço especial de racionalização das plantas industriais - antes de fazer os volumosos despedimentos? O primeiro ato de Barack Obama foi a redução dos altos salários de seu pessoal de cúpula, dentro da óbvia filosofia de crise que manda reduzir o ganho de poucos antes de acabar com o ganho de muitos. Mas bastou uma reuniãozinha do presidente Lula e seus ministros com a direção da Embraer - uma semana depois da eclosão da “indignação” presidencial - para que as explicações da empresa fossem docilmente aceitas. O presidente só “pediu” à Embraer que “ajudasse” os demitidos, estendendo os benefícios do auxílio saúde. (Se obtivesse apenas isso quando era líder metalúrgico, talvez fosse demitido do cargo sindical, independentemente de decisões favoráveis ou não da Justiça do Trabalho.)

A mobilização das centrais sindicais - para obter algum tipo de negociação, para conseguir algum tempo de preparação em favor dos demitidos, para lhes dar condições de minorar a súbita amargura do desemprego e o baque da retirada de rendimento de suas famílias - foi zero. É que as centrais têm sido presenteadas pelo governo com uma dinheirama desde que o presidente Lula lhes passou a assegurar o repasse de recursos correspondentes a 10% do imposto sindical arrecadado, ao mesmo tempo que vetou o dispositivo do projeto de lei (de reconhecimento das centrais) que obrigava à fiscalização de suas contas pelo Tribunal de Contas da União (TCU).

Para gastar o dinheiro fácil oferecido pelo governo federal (R$61 milhões) as centrais passaram a comprar prédios prontos para sedes novas, alugar salas, pagar dívidas (contraídas não se sabe a troco de quê), reembolsar um festival de viagens e até uma insólita “sardinhada” de “protesto contra os juros altos” na frente do Banco Central. (Certamente as sardinhas devem ter um sabor especial ao “molho Selic”.)

A demissão repentina de uma qualificada força de trabalho também é uma ducha fria para os que desenvolvem esforço de aprendizado nas universidades, para a realização de projetos profissionais, pelo mérito do conhecimento e do trabalho - especialmente em indústrias de tecnologia de ponta. Era de esperar, então, que entidades estudantis também se mobilizassem. Mas onde estão tais mobilizações? Onde estão as generosas caras pintadas? Provavelmente, só nas baladas, pois a principal organização estudantil do País - no passado respeitada como importante interlocutor político -, que nos últimos cinco anos aumentou em 20 vezes o dinheiro fácil que lhe repassa o governo federal, tem de se preocupar em como gastar os R$10 milhões que lhe foram presenteados nesse período. E nisso até que se esforça, mas sem resultado (coisa chata esse negócio de prestar contas, não é mesmo?).

Nesse neopeleguismo que assola a Nação as convicções são trituradas, moídas nos repasses de verbas, nas benesses obtidas do governo como pagamento da maciez opinativa geral. Quando Jarbas Vasconcelos disse que “o mensalão continua” - ao contrário dos que pensam que acabou com a cassação de dois gatos pingados - referia-se a toda uma cooptação institucionalizada na distribuição de verbas orçamentárias no Congresso, no preenchimento de cargos nas administrações direta e indireta e em todo o franciscano troca-troca que mantém as maiorias governistas nas Casas Legislativas federais. Sem dúvida isso também faz parte do neopeleguismo, que contaminou esta República quase toda - e nossa única esperança sobrevive confinada nesta palavra “quase”.

PS: Na impossibilidade de responder a todas, agradeço as milhares de mensagens de “adesão” ao Clube dos 16%.

Mauro Chaves é jornalista, advogado, escritor, administrador de empresas e pintor (mauro.chaves@attglobal.net)

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