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O Brasil decola

The Economist, 12/11/09

Agora o risco para a grande história de sucesso da América Latina é a arrogância

Quando, nos idos de 2003, economistas da Goldman Sachs puseram o Brasil junto com a Rússia, Índia e China como as economias que viriam a dominar o mundo, houve muita zombaria do B no acrônimo BRIC. O Brasil? Um país com uma taxa de crescimento tão sumária quando os seus maiôs, presa de qualquer crise financeira que aparecesse, um lugar de instabilidade política crônica, cuja infinita capacidade de desperdiçar seu óbvio potencial era tão legendária quando seu talento para o futebol e o carnaval, não parecia ter lugar ao lado daqueles titãs emergentes.

Agora esse ceticismo é que parece deslocado. A China pode estar liderando a saída da economia mundial da recessão mas o Brasil também está numa ótima fase. Não escapou da recessão, mas foi dos últimos a entrar e dos primeiros a sair dela. Sua economia está crescendo novamente a uma taxa anualisada de 5%.  Pode ganhar mais velocidade nos próximos anos na medida em que grandes reservas de petróleo sob águas profundas entrem em produção, e os países asiáticos mantiverem aquecida a demanda por alimentos e minerais do vasto e rico território brasileiro. As previsões variam, mas em algum momento no decênio após 2014 - antes mesmo do que a Goldman Sachs antevia - é provável que o Brasl se torne a quinta maior economia do mundo, ultrapassando a Grã-Bretanha e a França. Lá por 2025 São Paulo será a quinta cidade mais rica, de acordo com a consultoria PwC.

E, em certos aspectos, o Brasil leva vantagem sobre os outros BRICs. Ao contrário da China, ele é uma democracia. Ao contrário da Índia, não tem grupos insurgentes, nem conflitos étnicos e religiosos, nem vizinhos hostis. Ao contrário da Rússia, exporta mais do que petróleo e armas e trata os investidores estrangeiros com respeito. Sob o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um ex-líder sindical nascido na pobreza, seu governo avançou no sentido de reduzir as desigualdades extremas que por tanto tempo o desfiguraram. De fato, em matéria de políticas sociais inteligentes e estímulo ao consumo doméstico, o mundo desenvolvido tem muito mais a aprender do Brasil do que da China. Em suma, o Brasil parece de repente ter estreado no palco do mundo. Sua chegada foi simbolicamente marcada no mes passado pela escolha do Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas de 216; dois anos antes, o Brasil sediará a Copa do Mundo de futebol.

Finalmente, bom senso econômico

De fato, a emergência do Brasil tem sido firme, não súbita. Os primeiros passos foram dados na década de 1990 quando, depois que todas as opções se esgotaram, ele adotou um conjunto sensato de políticas econômicas. A inflação foi domada, e os governos locais e federal esbanjadores foram obrigados por lei a conter seu endividamento. O Banco Central ganhou autonomia, encarregado de manter a inflação baixa e garantir que os bancos evitassem o aventureirismo que causou danos à Grã-Bretanha e Estados Unidos. A economia foi aberta ao comércio e investimento estrangeiros e muitas indústrias estatais foram privatizadas.

Tudo isso ajudou a semear um grupo de novas e ambiciosas empresas multinacionais brasileiras. Algumas são ex-estatais que floresceram na medida em que puderam operar livres do cabresto do governo. Isso se aplica à companhia petrolífera nacional, Petrobras, à Vale, uma gigante da mineração, e à Embraer, fabricante de aviões. Outras são firmas privadas, como a Gerdau, uma siderúrgica, ou a JBS, prestes a se tornar a maior produtora mundial de carne. Abaixo delas se coloca uma nova legião de empresários ágeis, curtidos pelas dificuldades do passado. O investimento estrangeiro está entrando em quantidade, atraído pelo mercado impulsionado pela queda da pobreza e a expansão da baixa classe média. O país estabeleceu algumas instituições políticas fortes. Uma imprensa livre e vigorosa expõe a corrupção - embora ela seja muita e fique largamente impune.

Assim como subestimar o novo Brasil seria um engano, também seria passar por alto as suas fraquezas. Algumas delas são tristemente familiares. O gasto público está crescendo mais depressa do que a economia como um todo, mas tanto os setores privado como público ainda investem muito pouco, colocando uma interrogação sobre as previsões de crescimento muito otimistas. Muito dinheiro público vai para coisas erradas. A folha de pagamento do governo federal aumentou 13% desde setembro de 2008. O gasto com aposentadorias e pensões subiu 7% ao longo do mesmo período embora a população seja relativamente jovem. Apesar de melhorias recentes, a educação e a infra-estrutura ainda ficam muito atrás das da China ou Coréia do Sul (como uma grande queda de energia elétrica fez os brasileiros lembrarem nesta semana). Em algumas partes do Brasil, o crime violento ainda aumenta sem controle.

Troféus e debilidade nacionais

Há novos problemas no horizonte, para além das plataformas de petróleo em alto-mar. O real se valorizou quase 50% em relação ao dólar desde o começo de dezembro. Isso joga para cima os padrões de vida ao tornar as importações mais baratas. Mas deixa a vida mais difícil para os exportadores. No mês passado o governo criou um imposto sobre a entrada de capitais de curto prazo. Mas é pouco provável que isso detenha a valorização da moeda, especialmente a partir do momento em que o petróleo começar a ser extraído.

A resposta instintiva de Lula para esse dilema é política industrial. O governo vai exigir que suprimentos para a indústria de petróleo - de tubos a navios - sejam produzidos localmente. Está forçando a Vale a construir uma nova grande usina siderúrgica. É verdade que a intervenção do governo ajudou a criar a base industrial do Brasil. Mas a privatização e a abertura da economia puseram essa base em boa forma. Enquanto isso, o governo não faz nada para desarmar muitos dos obstáculos à atividade empresarial - notadamente os regulamentos anacrônicos que se aplicam a tudo, do pagamento de impostos à contratação de pessoal. Dilma Rousseff, a candidata de Lula à eleição presidencial de outubro próximo, insiste que não há necessidade de qualquer reforma da legislação trabalhista arcaica.

E talvez esse seja o maior perigo diante do Brasil: a arrogância. Lula tem razão em dizer que seu país merece respeito, assim como ele merece muito dos agrados que recebe. Mas ele também foi um presidente de sorte, colhendo os frutos da alta do preço das commodities e operando a partir da sólida plataforma para o crescimento erguida por seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Manter o desempenho melhorado do Brasil num mundo passando por tempos mais difíceis significa que o sucessor de Lula terá que enfrentar alguns dos problemas que ele se permitiu ignorar. Assim o resultado da eleição pode determinar a velocidade na qual o Brasil vai avançar na era pós-Lula. Não obstante, o rumo do país parece traçado. Sua decolagem é ainda mais admirável porque foi conseguida por meio de reformas de da construção democrática de consenso. Se ao menos a China pudesse dizer o mesmo.

Tradução: Eduardo Graeff

Categoria: economia  Tags:
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