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O Brasil e a agricultura mundial

José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de S. Paulo, 05/02/12

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É hoje bastante conhecido que o Brasil tem uma posi­ção muito relevante na agricultura mundial, resultado de uma construção realizada nos últi­mos 40 anos. Entretanto, talvez não seja ainda tão claro que essa relevân­cia tende a crescer ainda mais e que a indução à criação de novas ativida­des industriais deva se expandir de forma significativa. Pretendo neste artigo explorar essa questão, a partir da construção de um diagrama bastante simples, que está apresentado acima.

Representando o tamanho do merca­do, coloquei, no círculo vermelho, os países com população urbana superior a 80 milhões de habitantes, em 2008. São eles os EUA, os Brics, Japão, México e Indonésia. No círculo amarelo colo­quei os países com PIB superior a US$ 1 trilhão correntes, ainda em 2008. Com exceção da Indonésia (cujo PIB só em 2010 atinge o US$ 1 trilhão), todos os países acima mencionados se repetem; além destes, têm PIB elevado a França, Inglaterra, Alemanha, Espanha, Itália, Austrália e Canadá. Finalmente no cír­culo azul coloquei, como indicador (im­perfeito, porém simples) de capacidade de grandes produções os países com área agricultável superior a 30 milhões de hectares. Neste caso aparecem, além dos EUA, dos Brics, da Austrália e do Canadá, a Argentina.

Muitas observações podem ser feitas a partir dessa apresentação bastante simples. Gostaria de chamar atenção para:

1 Os grandes países europeus te­rão cada vez menos importân­cia na definição do mercado mundial. Como se sabe, sua produção agropecuária só se mantém à custa de fortes subsídios, o que será cada vez mais difícil de sustentar, conside­rando a profunda crise fiscal por que passa a região. Além disso, todos esses países estão entrando firme na fase de redução da população total. É importan­te que o Brasil continue lutando pela abertura de mercados, mas os europeus serão clientes cada vez menos impor­tantes.

2 Japão e México têm uma posi­ção frágil, pois são importado­res de alimentos, mas pouco dinâmicos. A longa estagna­ção do crescimento japonês e a forte re­dução da população em termos absolu­tos geram um mercado com poder de compra, mas sem grandes perspectivas. Por outro lado, o México depende da importação de milho, matéria-prima básica de sua alimentação; em consequência, quando o preço do milho se elevou, como resultado da maior utilização do produto americano na fabricação de etanol, houve uma forte pressão inflacionária e crise social.

3 Do lado da produção, Cana­dá, Austrália e Argentina sem­pre tiveram papel relevante. Entretanto, essa posição vem sendo em parte erodida: no caso da Austrália, a oferta de água e as elevadas temperaturas têm recorrentemente prejudicado a produção de alimentos. Já na Argentina, a lamentável política econômica levou à diminuição de pro­duções tradicionais, como carne, trigo e milho. Apenas a soja (e seu óleo) é hoje, de fato, relevante em termos do merca­do global.

4 O Brasil é o país com mais possibilidades de elevar sua produção agrícola 0 jogo agrícola mundial, em termos de oferta e demanda, é hoje claramente concentrado em apenas cinco países: EUA, Rússia, China, índia e Brasil. Nes­te grupo, o consumo é bastante elevado e a produção altamente significativa. Não falamos apenas em alimentos, mas também em biocombustíveis e insumos para a produção.

5 China e índia, entretanto, já exploram quase a totalidade de sua área agricultável. Ambos têm também severos problemas na oferta de água, e seus aqüífe­ros estão sendo explorados muito além da reposição propiciada pela natureza. Assim, ao longo do tempo, serão muito mais importantes no crescimento da de­manda do que na produção. A China, por exemplo, está se tornando um im­portador de milho, e certamente vai ele­var suas compras externas de carne de frango e de suínos.

6 Rússia e Estados Unidos ain­da poderão elevar suas pro­duções, mas já utilizam algo como 60% de toda a área pas­sível de ser utilizada.

O Brasil é o país com mais possibilida­des de elevar sua produção como respos­ta ao aumento da demanda local e, espe­cialmente, da internacional. O País não utiliza com lavouras mais que 20% da área disponível; não necessita quei­mar nem um hectare de floresta para elevar a produção; tem uma adequa­da oferta de água e outros insumos, de empreendedores e de trabalhado­res e, especialmente, tem um fluxo de geração de inovações que resulta em persistente crescimento da pro­dutividade , ao contrário de boa parte de nossa indústria. Na agricultura, a assunção de risco e a busca incessan­te por novas tecnologias faz parte do dia a dia de todos.

Apenas para ilustrar acrescente re­levância da produção brasileira, mos­tro na tabela ao lado algo, talvez me­nos conhecido, que é a evolução do rebanho bovino nas principais re­giões do mundo. Como se vê, entre 2000 e 2010, há uma queda generali­zada no rebanho, que chega a 9% na União Européia e a quase 5% nos Esta­dos Unidos. No mesmo período, o rebanho brasileiro cresceu 23%. Quem, além do Brasil, poderá me­lhor atender à crescente demanda por carne vermelha no mundo?

Entretanto, o sucesso do agronegócio brasileiro incomoda um bocado de gente. As críticas à “primarização” (elevação da importância do agronegócio, de minérios e de petró­leo) da economia e da pauta de expor­tações vão em, pelo menos, três dire­ções: as cadeias de recursos naturais empobrecem tecnologicamente o país e a pauta externa; as exportações nos fazem excessivamente depen­dentes da China e, finalmente, levam a algum tipo de desindustrialização.

A associação entre produção a partir de recursos naturais e pobreza tec­nológica é um dos mitos mais resis­tentes no Brasil. Entretanto, nunca é demais lembrar que a densidade tec­nológica no agronegócio e na produ­ção de petróleo em águas profundas é bastante grande, e deve se elevar substancialmente no futuro próximo; ao mesmo tempo, a produção agrícola, de óleo e de minérios pro­duz uma demanda derivada por equi­pamentos de expressiva magnitude.

É correto que as exportações agrí­colas dependem crescentemente da Ásia, o que coloca algum risco. Entre­tanto, é preciso lembrar que o setor pode e deve elevar substancialmente a produção de biocombustíveis avan­çados e componentes químicos, co­mo solventes e outros, o que abre a possibilidade de grandes exporta­ções para os países desenvolvidos, permitindo um maior equilíbrio en­tre mercados.

Finalmente, a associação simples entre exportações agrícolas e desin­dustrialização deve ser relativizada por duas observações: os novos pro­dutos derivados da agricultura estão levando a fortes investimentos em plantas industriais. Por outro lado, a valorização do real não pode ser atri­buída apenas aos ganhos de preços de produtos primários, embora a melhora nos tempos de troca concorra para tanto.

É preciso lembrar que as altas ta­xas de juros do Brasil atraem capital em larga escala, o que eleva a pressão sobre a cotação do real. Aliás, é exata­mente o que está acontecendo nesse início de ano. Finalmente, já está fi­cando reconhecido que a indústria brasileira tem um sério problema de competitividade que, muito mais que o câmbio, resulta na baixa evolu­ção da produtividade e da elevação de custos de produção.

economia · agricultura, comércio exterior, crescimento
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