O Brasil na nova (des)ordem mundial
Este texto se baseia no artigo de Fernando Henrique Cardoso, “Um mundo surpreendente”, publicado na coletânea Brasil Globalizado (Editora Campus, 2008), organizada por Octavio de Barros e Fabio Giambiagi.

Dois processos contraditórios mas entrelaçados estão por trás das surpresas e turbulências recentes do mundo: a globalização econômica e a fragmentação geopolítica.
A globalização econômica se acelerou depois da Segunda Guerra Mundial a partir da projeção das empresas multinacionais americanas e seu estilo de capitalismo, moldado por uma mistura peculiar de valores de liberdade individual e solidariedade comunal de inspiração religiosa.
O “soft power” alimentado pelo espírito de liberdade e flexibilidade diante da mudança alavancou o “hard power” do complexo industrial-militar americano. A capacidade de inovação costurou os dois, culminando na revolução ao mesmo tempo produtiva e cultural das novas tecnologias de informação e comunicação.
O socialismo realmente existente perdeu a corrida armamentista e a disputa pelos corações e mentes. Depois do colapso da União Soviética, nada no mundo parecia fazer sombra à hegemonia americana.
Os acontecimentos deste começo de século mudaram rapidamente esse cenário.
Os Estados Unidos continuam sendo a maior potência militar e econômica e seu estilo de vida continua dando o tom do capitalismo global, apesar do prejuízo que a era Bush causou ao prestígio americano no mundo.
Mas o sucesso da União Européia, a ascensão da China e o peso crescente de países como Brasil, Índia, Rússia e os grandes produtores de petróleo põem limites ao exercício unilateral do poder americano.
O erro de Bush foi apostar nas “guerras preventivas” e ações de “regime change”, quando o momento era para usar mais o “soft power” – com muita negociação e capacidade de persuasão – do que o “hard power”.
Os Estados Unidos de Obama terão que trabalhar com a Europa, a China e os países emergentes para superar a presente crise financeira, refazer as relações com o mundo islâmico e começar a construir, talvez, uma nova ordem internacional baseada em decisões mais compartilhadas e em relações econômicas menos assimétricas.
A alternativa seria deixar a fragmentação geopolítica seguir seu curso até paralisar a construção ou no limite – improvável mas não descartável – implodir a torre de Babel da globalização.
Enquanto as assimetrias econômicas, os fundamentalismos ideológicos e religiosos e a fragmentação geopolítica bloqueiam o advento da possível nova ordem, os emergentes têm que achar caminho pelas brechas da desordem. Alguns, que Parag Khanna chama “swing states”, têm recursos suficientes para estabelecer alianças de geometria variável com os países industrializados e entre si, evitando o alinhamento automático com um dos três grandes – Estados Unidos, Europa e China.
O Brasil tem longa tradição de “swing state” e soube aproveitar as brechas do momento, “lutando em Doha pelo direito de quebrar patentes em certas circunstâncias, ou questionando o protecionismo, ora europeu, ora americano, bem como, em Cancun, quando colocou obstáculos a acordos globais que nos poderiam ser lesivos”, constata Fernando Henrique Cardoso.
Se Antonio Barros de Castro e Luiz Carlos Mendonça de Barros, entre outros, estão certos, houve uma mudança estrutural na economia mundial que, superada a presente crise, nos favorecerá no longo prazo.
“A escassez de alimentos e o alto preço das commodities agrícolas, em um contexto internacional mais aberto, poderão mudar o equilíbrio de poder na economia mundial em benefício dos mercados emergentes. O Brasil está muito bem posicionado para ser um dos principais países favorecidos por essa tendência. Tanto em pesquisa e na extensão de terras agriculturáveis, quanto na produção agrícola, do etanol e do biodiesel, o Brasil goza de vantagens competitivas importantes”, aposta Rubens Barbosa.
“A dupla condição de país industrializado que dispõe de amplos recursos naturais e de uma agricultura tecnicamente avançada, permite-nos desenvolver uma estratégia de longo prazo para transformar as vantagens de momento em garantia de futuro, trocando minerais e sementes por neurônios”, propõe Fernando Henrique Cardoso.
Nem tudo são oportunidades. Os riscos da “doença holandesa” e da concorrência dos manufaturados chineses nos espreitam.
A resposta aos desafios depende de políticas domésticas: mais e melhores oportunidades na educação básica e técnica; maior integração ciência-tecnologia, universidade-empresa; mais reformas institucionais; mais investimentos em infra-estrutura e assim por diante.
E depende também de uma visão clara das opções básicas que se oferecem ao Brasil nesse surpreendente mundo novo.





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