Sobre                        Contato                        Arquivo

O dia em que o Rio acabou

Roberto DaMatta, 14/04/10

Na madrugada da segunda-feira, dia 5, eu acompanhava assustado a tempestade que desabava sobre minha casa em Piratininga, Niterói, ao mesmo tempo em que verificava as goteiras com as quais tenho décadas de convivência — meu avô dizia que uma casa sem goteira era uma casa sem alma — e imaginava o dia seguinte.

E o dia seguinte foi o caos: o Rio de Janeiro estava acabado e Niterói mostrava a pior face do “estado” que querem tornar mais forte em vez de mais eficiente, menos centralizado e, sobretudo, transparente. Ilhado em casa, sem telefone e internet, e colado na televisão, eu ia assistindo — coração na mão — aos desabamentos, sofria com o desespero das vítimas, ficava solidário com os desgraçados cidadãos insones que viram seus carros serem engolfados pelas ruas transformadas em perigosas cascatas e rios caudalosos.

E inevitavelmente me perguntava — pois a água limpa os olhos — qual a diferença entre esse governo e os outros? Esses tantos outros que, antes que eu viesse ao mundo, deixaram que a nossa constitutiva desigualdade escravocrata e o nosso caudaloso, descarado e pouco criticado populismo chegassem ao ponto revelado por essa apocalíptica tempestade? Toda catástrofe natural tem pelo menos dois textos. O da “natureza”, que definimos como tendo vida própria, embora hoje saibamos que ela está profundamente ligada aos nossos estilos de vida; e o da sociedade, com seus valores e fórmulas para explicar o infortúnio e as tragédias. Por isso, a tormenta contém a tempestade. A procela é o evento em si, a tempestade é a sua interpretação: o que ela ensina ou anuncia.

No Brasil — e digo isso com um misto de revolta e constrangimento — a mensagem é a sempre a mesma.

As tragédias naturais brasileiras revelam de modo claro que as retóricas políticas variam, mas o velho e bom modo de governar foi muito pouco abalado.

A intensidade das calamidades tem se agravado, mas não mudou o nosso estilo de lidar com elas. Nosso processo de enfrentá-las é notavelmente cínico: trata-se de uma calamidade e estamos todos mortificados, MAS — como ficou combinado desde os tempos de Dom João Charuto — ninguém tem culpa de nada! Minto, se alguém tem culpa é o mar, a lagoa, as montanhas, os ventos, a chuva e, esticando mais um pouco, essa pecaminosa e pervertida sociedade capitalista e de mercado e todos nós. O populismo irresponsável escapa como um rato.

Na tempestade, viramos socialistas e coletivistas de carteirinha. Passada a tormenta, voltamos ao nosso modo usual de viver e administrar os bens públicos. Nós aqui, eles lá. Nós nas nossas boas casas, eles nas moradas que os demagogos — esses defensores do povo de Deus — legalizaram: em cima de morros e encostas, onde se vive, com dizia um samba hoje esquecido, senão incorreto, “pertinho do céu…”.

Como o revoltante “ilegal e daí”, criado por um tradicional político carioca a propósito de construções irregulares, os temporais escondem, mas as tempestades revelam. Elas mostram que os governos podem ser aristocráticos ou republicanos, de direita ou de esquerda, elitistas ou populistas, militares ou civis, tortos ou direitos, mas estão todos irmanados no firme propósito de não fazer ou mudar coisa alguma. O estilo que começou com Dom João Charuto e os Pedros é — dizem as águas e os desmoronamentos mortais — imutável. Ele se caracteriza pela reação e jamais pelo planejamento e pela programação, típicos dos sistemas igualitários. A proação abunda nas campanhas eleitorais onde não se é governo. Uma vez, entretanto, no governo, a execução nos planos, travestidos em promessas mirabolantes, jamais irá ocorrer. Findo o pleito, a utopia é esmagada pelo firme propósito de continuar no poder.

Quando menino, eu pensava que o poder era um instrumento nobre e essencial para melhorar a vida dos pobres e oprimidos. Hoje, velho e descrente, vejo que — no Brasil — o poder é lamentavelmente apenas o poder: ou seja, ele serve para “poder” quem nele não entra ou não está. Ele tem como fim a sua própria personalização. Daí esse extraordinário desmoronamento, esse vazio vergonhoso, porque indesculpável, desvendado pela chuvarada.

Não temos planos e não seguimos as regras mais banais, porque não nos ordenamos de modo igualitário. Poucos têm muito, muitos têm pouco e o governo tem e quer tudo porque ele é um centro de hierarquia. A tempestade desnudou a falta de políticas públicas de moradia que contemple limites. Falta acabar de uma vez por todas com o imoral, arrogante e inconcebível “ilegal, e daí?...”. A estupefação dos governantes diante da tragédia revela que a “política” com seus conchavos e suas hierarquias pesa mais do que o gerenciamento coletivo. Elegemos bandidos e falastrões. Confundimos discursos empolados com programas. Imaginamos que parlapatões são estadistas e que demagogos são salvadores da pátria. O que vemos, entre os escombros e os gigantescos entulhos de merda, cadáveres e barro, é a sujeira do nosso mundinho político feito de gente que quer tudo, menos administrar as coletividades que os elegeram para realizar precisamente essa tarefa. Confio que algo venha a ser efetivamente mudado.

cultura · catástrofe, populismo
Enviar   Imprimir  

Corrupção de Sarney a Lula

image O ebook Corrupção de Sarney a Lula pode ser baixado gratuitamente em três formatos: PDF (para imprimir), EPUB (para iPad) e MOBI (para Kindle). Uma versão em inglês (capa acima) está a venda na Amazon.com.

Posts recentes


Que onda!

Guilherme Fiúza viu na onda Luíza o fim da opinião pública tal como conhecemos. Pode ser. E daí?

Pesos e medidas

Nelson Breve, que hoje dirige a Empresa Brasileira de Comunicação, já foi mais exigente em matéria de critérios jornalísticos. Em 2006 ele se incomodava com a falta de checagem de informações.

Verniz fino

Em São Paulo, homenageada por Gilberto Kassab, Dilma Rousseff posou de boa moça. Horas depois, em Porto Alegre, deu declarações incompatíveis com a dignidade do seu cargo.

Flor do pântano

A participação secundária de Dilma num escândalo de corrupção no governo do Rio Grande do Sul mostra o mesmo padrão de conduta que ela segue hoje.

Louco amor

"Intelectual gosta, sim, de caipira. Intelectual não gosta é de ladrão!" O desabafo de FHC sobre Quércia, lembrado por Jorge Bastos Moreno, me fez pensar no amor dos intelectuais pelo operário Lula.

Rio alto astral

Os meios de comunicação do Rio, começando pela Globo, jogam para cima a cidade deles. Em São Paulo não há nada parecido. Por que será?

Dedões a mil

Parece que Ruy Castro nunca digitou nem prestou atenção um garoto digitando num celular. Achei um clip para ele ver.

Moscou dançou. Te cuida, Pequim

Jintao está certo sobre o perigo da cultura de massas ocidental, em todo caso. Vacilou, ele pode acabar na ala VIP da platéia de um concerto de rock na Praça da Paz Celestial, como seu colega Vladimir Putin no concerto de Paul MacCartney na Praça Vermelha.

A novela dos caças

Aldo Pereira sugere uma solução mista para a escolha do caça da Força Aérea Brasileira: uma esquadrilha sueca, outra americana. E para a França, nada? Pobre Sarkozy...

De onde vem o novo

Eric Hobsbawn explica por que a velha esquerda ficou de fora dos protestos que varreram o mundo em 2011. O novo motor das revoluções é a classe média, principalmente os jovens estudantes.

À nossa!

A indústria do vinho é uma das boas coisas da globalização. Mais e melhores vinhos, relativamente mais baratos, para nós, plebeus deste planeta.

Bolsa turismo

O real artificialmente valorizado é um verdadeiro programa de transferência de renda - do Brasil para Miami. The New York Times publica flagrantes dessa invasão.

Resposta aos difamadores

Verônica Serra divulgou a nota que transcrevo a seguir, a propósito do mais recente dossiê - este em forma de livro - fabricado contra o PSDB.

De olho na biruta

Beto Richa glosa o mantra do PSDB: "Esses anos todos: comunicação, comunicação é o nosso problema. E não conseguem achar o caminho." Por que será?
Mais posts