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O Eu diário

Nicholas D. Kristof, The New York Times/O Estado de S. Paulo, 23/03/09

Alguns obituários hoje em dia não estão nos jornais, mas são de jornais. O Seattle Post-Intelligencer é o falecido mais recente, exceto por um remanescente que existirá apenas no ciberespaço. E o público está buscando cada vez mais suas notícias, não nas redes de televisão abertas ou na imprensa escrita, mas garimpando online.

Quando vamos para a internet, cada um de nós se torna seu próprio editor, seu próprio vigia. Nós selecionamos o tipo de notícia e de opiniões que mais nos interessam.

Nicholas Negroponte, do Massachussets Institute of Technology (MIT), chamou esse produto noticioso emergente de The Daily Me (O Eu Diário, em tradução literal). E, se essa é a tendência, que Deus nos proteja de nós mesmos.

É por isso que há excelentes evidências de que nós geralmente não queremos de fato boa informação ? mas, antes, informação que confirme nossos preconceitos. Podemos acreditar intelectualmente no choque de opiniões, mas, na prática, gostamos de nos abrigar no útero reconfortante de uma câmara de eco.

Um estudo clássico enviou mailings a republicanos e democratas oferecendo-lhes vários tipos de pesquisa política, ostensivamente de uma fonte neutra. Ambos os grupos se mostraram mais propensos a receber argumentos inteligentes que corroborassem fortemente suas visões preexistentes.

Houve também um modesto interesse em receber argumentos manifestamente tolos das visões do outro partido (nos sentimos bem quando podemos caricaturar os outros caras como estúpidos). Mas houve pouco interesse para encontrar argumentos sólidos que pudessem minar nossa própria posição.

Essa descoberta geral foi reproduzida repetidamente, como observou o ensaísta e escritor Farhad Manjoo em seu livro sensacional no ano passado: “True Enough: Learning to Live in a Post-Fact Society” (Verdade em termos: aprendendo a viver numa sociedade pós-fato, em tradução livre).

Permitam-me tirar uma coisa do caminho: eu mesmo às vezes sou culpado de uma busca da verdade seletiva na internet. O blog a que recorro para insights sobre o noticiário do Oriente Médio é, com frequência, o do professor Juan Cole, porque ele é inteligente, bem informado e sensato ? em outras palavras, eu frequentemente concordo com ele. Sou menos propenso a ver o blog de Daniel Pipes, outro especialista em Oriente Médio que é inteligente e bem informado ? mas que me parece menos sensato, em parte porque em geral discordo dele.

O efeito do The Daily Me seria nos isolar ainda mais em nossas próprias câmaras políticas hermeticamente fechadas. Um dos livros mais fascinantes do ano passado foi “The Big Sort: Why the Clustering of Like-Minded America is Tearing Us Apart” (A grande seleção: por que o agrupamento dos EUA que pensam igual está nos esfacelando, em tradução livre), de Bill Bishop. Ele argumenta que os americanos estão se segregando cada vez mais em comunidades, clubes e igrejas em que estão rodeados por pessoas que pensam como eles.

Quase metade dos americanos vive hoje em condados que votam esmagadoramente ou em democratas ou em republicanos, diz ele. Nos anos 1960 e 1970, em eleições nacionais igualmente disputadas, somente cerca de um terço vivia em condados com essa característica.

“A nação se torna mais politicamente segregada ? e o benefício que deveria advir de uma diversidade de opiniões é perdido para a correção que é a prerrogativa especial de grupos homogêneos”, escreve Bishop.

Um estudo envolvendo 12 nações revelou que os americanos são os menos propensos a discutir política com pessoas de visões diferentes, e isso foi particularmente verdade para os bem educados. Os alunos que abandonaram o segundo grau tiveram o grupo mais diversificado de colegas de discussão, enquanto os egressos de universidades trataram de se proteger de perspectivas desconfortáveis.

O resultado disso é polarização e intolerância. Cass Sunstein, um professor de Direito de Harvard que agora trabalha para o presidente Barack Obama, realizou uma pesquisa mostrando que quando liberais ou conservadores discutem questões como ação afirmativa ou mudança climática com pessoas que pensam da mesma maneira, suas visões se tornam rapidamente mais homogêneas e mais extremadas do que antes da discussão.

Por exemplo, alguns liberais, em um estudo, inicialmente se preocupavam com a possibilidade de que ações sobre a mudança climática pudessem prejudicar os pobres, enquanto alguns conservadores foram simpáticos a uma ação afirmativa. Mas, após discutirem a questão com pessoas de pensamentos parecidos por apenas 15 minutos, os liberais ficaram mais liberais e os conservadores mais conservadores.

O declínio da mídia noticiosa tradicional acelerará a ascensão de The Daily Me, e nós ficaremos menos irritados com o que lemos e teremos a nossa sabedoria confirmada com mais frequência. O perigo é que essas “notícias” selecionadas por nós mesmos atuam como narcóticos, nos embalando num estupor autoconfiante pelo qual percebemos em pretos e brancos um mundo que tipicamente se desenrola em cinzentos.

Então, qual é a solução? Deduções fiscais para liberais que assistirem a Bill O?Reilly ou conservadores que assistirem a Keith Olbermann? Não, até que Obama nos dê um serviço de saúde universal, não podemos nos arriscar a um forte aumento nos ataques cardíacos.

Então, a única maneira de avançar talvez seja cada um de nós se esforçar para elaborar intelectualmente com parceiros adversários cujas visões deplora. Pense nisso como um exercício mental diário análogo a uma ida à academia; se você não malhar até suar, não conta.

Agora me deem licença que vou ler a página editorial do Wall Street Journal.

Nicholas D. Kristof é colunista do The New York Times

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