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O início da derrocada de Chávez

O Estado de S. Paulo, 31/01/10

Fiasco em Honduras, vitória de Piñera no Chile e crises enérgica e cambial sinalizam seu ocaso

Jackson Diehl, The Washington Post

Enquanto o mundo se preocupava com a crise no Haiti, a América Latina passava sem alarde por um momento crucial no conflito ideológico que polarizou a região - e paralisou a diplomacia americana - durante a maior parte da década.

O sentido é esse: o “socialismo do século 21” de Hugo Chávez foi derrotado e está a caminho do colapso. Nas duas últimas décadas, imediatamente antes e depois do terremoto em Porto Príncipe, Chávez foi obrigado a desvalorizar a moeda venezuelana e a impor - e, em seguida, revogar - cortes significativos de energia na capital, enquanto o país sofria uma severa recessão, com uma inflação de dois dígitos e o possível colapso de sua rede elétrica.

Em Honduras, a crise de sete meses desencadeada pela tentativa do presidente deposto Manuel Zelaya, do grupo de Chávez, de infringir a ordem constitucional acabou sem sobressaltos com um acordo que o enviou para o exílio e dará posse a um presidente moderado eleito democraticamente.

E, finalmente, a eleição presidencial no Chile, país com a economia mais próspera da região, foi concluída com a primeira vitória de um candidato de direita desde que o ditador Augusto Pinochet foi obrigado a deixar o poder, há duas décadas.

O vitorioso, Sebastián Piñera, industrial e defensor do livre mercado, fez algo que nenhum líder chileno ou da maioria das nações latino-americanas foi capaz de fazer nos últimos anos: enfrentar Chávez.

A Venezuela “não é uma democracia”, disse Piñera durante a campanha. E acrescentou: “Dois grandes modelos surgiram na América Latina: um liderado por pessoas como Chávez na Venezuela. Acho que o segundo modelo será melhor para o Chile. Este o modelo é o que adotaremos: a democracia, o estado de direito, a liberdade de expressão e a alternância no poder, sem caudilhismo.”

Piñera afirmou o óbvio - mas foi além do que sua predecessora socialista Michelle Bachelet e o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva estão dispostos a afirmar abertamente. Esse silêncio paralisou tanto o governo do ex-presidente americano George W. Bush quanto o do atual, Barack Obama. Com ou sem razão, ambos sabiam que não estariam sozinhos em apontar o ataque de Chávez à democracia. Piñera, agora, deu a Washington a oportunidade de denunciar as violações dos direitos humanos na Venezuela.

Ele conseguiu esta façanha no momento em que Chávez sofre também revezes diplomáticos. Honduras foi o primeiro. Embora se trate de um país minúsculo, a luta pelo poder entre a elite política local e Zelaya transformou-se numa luta regional entre os partidários e os adversários do chavismo, com o Brasil e outras democracias esquerdistas no meio.

O resultado é uma vitória dos EUA, praticamente o único país que apoiou a eleição democrática. Honduras representa o fim da cruzada de Chávez para a exportação de sua revolução. Bolívia e Nicarágua permanecerão seus únicos aliados.

Lula, que com sua tolerância em relação a Chávez comprometeu sua aspiração de se tornar um estadista global, deixará a presidência no fim do ano, enquanto as pesquisas de opinião mostram que a candidata de seu partido está atrás do candidato da oposição.

O Haiti só contribui para aprofundar o buraco em que Chávez se encontra. Como o mundo todo pôde observar, os EUA empreenderam uma maciça operação humanitária e os haitianos aplaudiram a chegada dos fuzileiros navais americanos. Chávez não pôde conciliar essas imagens com a mensagem central da sua propaganda para a América Latina, a de que os EUA são um “império” e o poder maligno da região.

Ao mesmo tempo, temos o colapso que Chávez enfrenta em seu país. Apesar da recuperação do preço do petróleo, a economia venezuelana enfrenta uma profunda recessão e continua afundando, enquanto o restante da América Latina se recupera. Segundo economistas, a inflação venezuelana pode chegar a 60% nos próximos meses.

Ao mesmo tempo, por causa da seca, o país está ameaçado pelo fechamento de uma usina hidrelétrica que fornece 70% da eletricidade do país. Como Chávez não investiu em novas usinas, não haverá como substituí-la. Além disso, a criminalidade é endêmica - os homicídios triplicaram desde que Chávez tomou posse, tornando Caracas uma das cidades mais perigosas do mundo.

No caso haitiano, a televisão estatal, controlada por Chávez, chegou a afirmar que a Marinha americana provocou o terremoto usando uma nova arma secreta. No domingo, o governo ordenou a suspensão de seis emissoras de TV a cabo que se recusavam a transmitir seus discursos intermináveis.

No entanto, a popularidade de Chávez continua caindo - está abaixo de 50% na Venezuela e de 34% no restante da região. O momento crucial na batalha entre o populismo autoritário e a democracia liberal na América Latina já passou - e Chávez perdeu.

Jackson Diehl é diretor da seção de Opinião do jornal The Washington Post

internacional ·
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