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O mundo, a pátria e a bola

Rosiska Darcy de Oliveira, O Globo, 27/06/10

Todos de olho na tela. Como se nós, bilhões de seres humanos, em família, assistíssemos à mesma novela. Terminada a partida, nas esquinas do mundo o mesmo assunto. Blogs e twitters como nervos, transmitindo aflições e alegrias. A Aldeia Global já era conhecida de McLuhan desde os anos 70. Mas de lá para cá, na aldeia, tudo mudou.

Naquele tempo um suíço negro era agulha em palheiro e a maioria dos alemães se chamava algo parecido com Beckenbauer. Hoje cada time europeu encarna o fenômeno recente do multiculturalismo, ensaiando, na Copa, o destino do Continente. Incontornável no mundo contemporâneo, a convivência de culturas diferentes dentro da mesma sociedade força o aprendizado da diversidade.

Sitiada pela imigração, bumerangue dos anos de ocupação colonial, a Europa é hoje um laboratório desse mundo em gestação de alto risco.

O líder de extrema direita, Le Pen, em 98, acusou a seleção francesa, recheada de jogadores de origem árabe, africana e caribenha, de não saber cantar a Marselhesa. Cantaram e foram campeões, chorando abraçados com a bandeira tricolor. Eram todos franceses, de vários matizes.

Esses fluxos de populações que a globalização agravou assustam muita gente. Mas há quem veja neles o germe de uma Terra Pátria, saudável encontro do diferente com o semelhante.

Experiência, aliás, familiar a nós brasileiros que, para nossa sorte e talento, já nascemos multiculturais e policrômicos.

Na Copa está o que une, mas também o que opõe. Quem aposta nas identidades esmaecidas pela globalização e decreta, antes do tempo, o fim das nações, olhe bem as caras pintadas, o festival de tribalismo em que se transformou uma competição esportiva, cada nação com suas cores, bandeiras, suas danças rituais. Lembrese dos homens em lágrimas, reconhecendo, por trás das vuvuzelas, o mal tocado hino de seus países.

Sem falar de nós mesmos, das casas vestidas de verde-amarelo quando joga a famosa pátria de chuteiras e os brasileiros juntam-se em uma corrente de quase oração. Sem esquecer o desgosto que nos inspirou a indiferença blasée de nossas estrelas cadentes que, derrotadas sem brio na última Copa, foram acoimadas de chuteiras sem pátria.

Por onde passa a fronteira que separa o legítimo sentimento nacional da deriva fascista? O exemplo de regimes totalitários — do nazismo à ditadura brasileira — que usaram a pátria como instrumento de manipulação política recomendaria prudência.

Só que a pátria por eles endeusada era uma abstração. Confundida com o Estado e o governo, esmagava a sociedade e os indivíduos, sobrepondose a qualquer outro tipo de pertencimento, família, amigos ou companheiros.

Nada tinha a ver com o denominador comum das memórias cravadas na infância, com a experiência do mesmo céu, do mesmo chão e que inspirou ao poeta o avigrama “pátria minha, saudades de quem te ama…Vinicius de Moraes”. Esse pertencimento, pergunte-se a qualquer exilado, passa ao largo de ideologias ou simbologias de direita.

Tão perigoso quanto a patriotada é o sentimento de não pertencer a nada e a lugar nenhum, banal em tempos de globalização, que faz de cada um chuteira de aluguel, trabalhador de aluguel, em última análise cidadão de aluguel. Quem dá mais? O chão é o salário, o céu, a promoção.

Em eventos globais, aceita a regra da emulação entre países, o pertencimento nacional aflora, inevitável.

Há que temperá-lo com civilidade.

A profecia de que as nações desaparecerão, caso se cumpra, não será tão cedo. O que já se anuncia, promissora, é a transformação por dentro de sociedades que se fazem culturalmente diversas, preparando, entre estranhamento e aceitação, uma nova consciência planetária.

Que não virá somente pela unidade dos mercados ou pelo reconhecimento portodos das logomarcas multinacionais que os times ostentam nas camisas. O processo é árduo e passa por saber, no dia a dia, se um véu encobre uma vida de opressão ou se uma família reconhece como seu um neto de outra pele e cultura.

Processo permanente de deliberação que põe à prova a democracia e os limites da tolerância.

Tudo isso está lá na tela, presente como um pano de fundo, encoberto pela paixão por este jogo que, porque jogado descalço nos terrenos baldios mais miseráveis, deixa uma ilusão agradável de inédita igualdade de oportunidades face à glória. Não será o futebol, a bola que rola para todos, um caldeirão de esperanças? O primeiro time em que se joga uma aventura inaugural, fundadora de pertencimento? Por isso, torcemos. E torcemos por isso.

cultura · diversidade, globalização
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