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O mundo na primeira década do Fórum Social Mundial

Gustavo Müller para eAgora, 30/01/10

O retorno do Fórum Social Mundial a Porto Alegre, após uma década de experiência, impõe um questionamento acerca das mudanças ocorridas no mundo durante este período, em uma perspectiva ideológica que se pretende de centro-esquerda.

O Fórum Social Mundial inicia suas atividades em um momento no qual já eram detectáveis os primeiros sinais de esgotamento do consenso de Washington, bem como o derretimento da doce ilusão a respeito do “fim da história”.

Já no primeiro ano do Fórum, os atentados de 11 de Setembro mostraram para o mundo que a suposta vitória da democracia liberal não poria fim nos conflitos. O fim de uma ordem mundial bipolarizada, ao invés da paz perpétua kantiana, resultaria não no maniqueísta choque de civilizações, mas sim em uma multiplicação dos conflitos étnicos, religiosos e culturais que, adotando o terrorismo como instrumento de expressão, poria por terra os clássicos tratados de geopolítica.

Paralelamente a estes novos fenômenos, assistimos ao recrudescimento da política externa norte americana, comandada pelos falcões conservadores, e às sucessivas crises de governabilidade na América Latina, que levaram ao poder personagens como Hugo Chávez, Evo Morales, Nestor Kirshner e Fernando Lugo, que buscam um contato direto com as massas, sem a mediação de instrumentos institucionais.

Não obstante, os últimos dois anos da década apresentaram ao mundo um giro de 180 graus.

No final de 2008 a bolha financeira explodiu. Seu estrago demonstrou que, se de um lado uma economia totalmente planificada era inoperante, de outro, a total desregulamentação dos mercados financeiros conduziu ao caos de uma crise quase sistêmica, que impôs aos governos um keynesianismo fast food.

Concomitantemente, a imensa carga simbólica embutida na eleição de Barack Obama demonstrava a vitalidade e a beleza da democracia, e colocava por terra o antiamericanismo infantil.

Todas essas mudanças geraram condições para que os protagonistas do Fórum Social Mundial possam pensar este, não como palco para arroubos de uma esquerda retrograda, mas como uma organização que possa se fazer presente na busca de uma governança global mais eqüitativa.

Professor de Ciência Política da UFSM

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