Sobre                        Contato                        Arquivo

O saco sem fundo da Eletrobrás

Editorial, O Estado de S. Paulo, 31/12/10

A Eletrobrás anuncia que vai injetar R$700 milhões em distribuidoras de energia elétrica sob seu controle em seis Estados do Norte e do Nordeste - empresas fortemente endividadas e que vêm apresentando seguidos prejuízos. Para isso, a holding tomará empréstimo de US$495 milhões do Banco Mundial (Bird), cabendo-lhe a contrapartida de R$214 milhões. A estatal espera que aquelas empresas - antes administradas pelos governos estaduais e que foram federalizadas - possam funcionar em 2014 segundo parâmetros da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Uma maneira mais eficaz e econômica de sanar os problemas existentes seria transferir as concessões para a iniciativa privada, como foi feito, com êxito, com outras distribuidoras de energia elétrica.Essa alternativa, porém, não chegou nem mesmo a ser cogitada, embora haja interessados na aquisição desses ativos.

O governo quer ampliar o império da Eletrobrás. Além das distribuidoras já federalizadas e que vêm apresentando problemas - as antigas Manaus Energia (Amazonas), a Boa Vista Energia (Roraima), a Ceron (Rondônia), a Eletroacre (Acre), a Ceal (Alagoas) e a Cepisa (Piauí) -, a holding poderá encampar mais duas estaduais: a CEA (Amapá) e a CERR (Roraima), também deficitárias.

O argumento oficial é de que se trata de uma questão de desenvolvimento regional. Como a demanda de energia no Norte e no Nordeste tem sido superior à média nacional, seria urgente recuperar essas empresas, sob o pressuposto de que, financeiramente saneadas e recebendo novos investimentos, elas podem apresentar bons resultados a mais longo prazo. Mas os que defendem essa tese não explicam as razões pelas quais isso deve ser feito pelo setor público, com limitada capacidade de investimento, que o faz recorrer a um endividamento crescente. Como já foi demonstrado, o setor de distribuição de energia elétrica no Brasil é capaz de atrair investimentos privados e há empresas dispostas a participar de leilões de privatização, comprometendo-se, por contrato, a atender às exigências legais e às normas que a Aneel julgar cabíveis.

Para o governo federal, que vem utilizando resultados de estatais para fazer caixa e cumprir as metas fiscais, os leilões de tais distribuidoras seriam uma fonte de receita. E - o que é mais importante - a privatização desoneraria o setor público, transferindo para o setor privado a responsabilidade pelos investimentos necessários.

Os resultados que as distribuidoras privatizadas vêm apresentando mostram, com absoluta clareza, quão mais eficiente tem sido a gestão privada de concessionárias de energia elétrica em relação ao setor estatal. Se ainda houvesse dúvidas sobre isso, bastaria lembrar o caso da Celg Distribuição, de Goiás. Para “salvar” a companhia, controlada pelo Estado de Goiás, o BNDES e a Caixa Econômica Federal (CEF) se uniram em outubro último para conceder um empréstimo de nada menos do que R$3,7 bilhões à companhia. Para dar também uma ajudazinha à empresa goiana, a Eletrobrás aumentou a sua participação no capital da empresa de 0,5% para 6%. Há quem preveja que a Celg acabará fazendo parte do vasto Sistema Eletrobrás.

Já deveria estar claro para o governo que “federalizar” distribuidoras estaduais de energia elétrica está longe de ser uma solução. Quando isso ocorre, essas empresas, administradas mais por critérios políticos do que estritamente técnicos, tornam-se simplesmente um sorvedouro de recursos públicos.

Em entrevista ao jornal Valor (16/12), o representante dos acionistas minoritários da Eletrobrás, Arlindo Magno, sugeriu que se faça uma “privatização branca” das controladas da estatal no Norte e no Nordeste, por meio da criação de uma holding de distribuidoras, que emitiria ações no Novo Mercado da BM&F/Bovespa. Pode haver impedimentos legais para que isso ocorra. Não há, contudo, nenhum obstáculo para uma privatização nos moldes dos leilões de outras concessionárias de energia. Infelizmente, não há nada que justifique a esperança de que o governo Dilma Rousseff venha a romper o vezo antiprivatizante do governo Lula.

gestão · energia elétrica, estatização
Enviar   Imprimir   Fonte

Corrupção de Sarney a Lula

image O ebook Corrupção de Sarney a Lula pode ser baixado gratuitamente em três formatos: PDF (para imprimir), EPUB (para iPad) e MOBI (para Kindle). Uma versão em inglês (capa acima) está a venda na Amazon.com.

Posts recentes


Olho no México

O Brasil não precisa deixar a captura do estado ir tão longe. O caso Cachoeira poderia ser o sinal de alarme para um pacto contra a corrupção política e o crime organizado.

Deixem o governador falar

O PSDB precisa resolver: ou defende claramente o governador Marconi Perillo, ou admite claramente que não tem condições de defende-lo.

Bem na foto

Não tem como negar: a atual presidente e os ex, todos eles, estão bem na foto da instalação da Comissão da Verdade.

Problemas na “Lei Dieckmann”

Os deputados não devem, na pressa, perder a oportunidade de ouvir mais quem entende do assunto e corrigir as falhas do projeto.

FHC e Jefferson

Sobre a concessão do Prêmio Kluge a FHC: "Não só é a primeira pessoa com uma carreira política pessoal relevante a ganhar este prêmio, como é também um representante acabado do que chamamos cientista social. Se quiser fazer uma comparação americana, ele é como Jefferson".

Salvo pelo BNDES

Opinão d'O Globo: "É necessário averiguar os vestígios de interferência política na compra da Delta pelo JBS".

Não dá para não ler

As suspeitas sobre os dois governadores são parecidas: ligações impróprias com Carlos Cachoeira. O tratamento editorial da Folha varia. Um governador, de Goiás, é "tucano". O outro, petista, é "do DF".

Para não dizer que eu não falei da Globo

A Virada Cultural paulistana foi um desastre e o Viradão Carioca um sucesso, segundo O Globo. Não sei se vou para o Rio na próxima virada ou assino outro jornal.

Quem merece essa jurisprudência?

Como a nota não cita fonte, nunca se sabe... Espero que não seja verdadeira. Se o PSDB se deixar enquadrar desse jeito, já era.

Mais inteligentes, menos violentos

Posso acreditar que a razão venha nos salvar das formas endêmicas de violência. Se não é verdade, é bem sacado. Os homicídios estão mesmo em queda em São Paulo e até no Rio de Janeiro. Podem muito bem continuar a diminuir no planeta.

Mais herança maldita

Governadores e prefeitos fariam melhor de não esperar sentados pela próxima onda de greves dos funcionários em geral e ameaças de motim da polícia.

Brecha na proibição do aborto

Para quem acredita em alma, o feto que não tem cérebro deve ser protegido mesmo assim porque tem alma.

A língua do PT

"Hegemonia", na língua do PT, é isso: a pretensão de reescrever numa penada o dicionário e a história do Brasil.

Até 2020

Tomando nota: três tendências ou fatos que devem ter forte impacto sobre o equilíbrio do mundo até 2020.
Mais posts