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O último inverno de Seu Fulano

José de Souza Martins, O Estado de S. Paulo, 09/06/10

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Primeiro, apareceu a carcaça de uma velha perua Kombi na rua que ladeia uma pequena praça no Rio Pequeno, no Butantã, por onde passo com frequência. Depois do carnaval na Avenida Escola Politécnica, carnavalescos costumam largar carcaças de carros alegóricos pelos cantos do bairro. Uma tranqueira a mais ou a menos já não surpreende.

Dias depois, notei que alguém estava entulhando o veículo com pacotes e caixas de papelão, coisas catadas no lixo. Sobre a carcaça, caixas de madeira, objetos mais pesados e menos vulneráveis à chuva. Dependurado na dobradiça da perua, um surrado guarda-chuva de tecido estampado, de cor pastel. Um dia, vi o autor da obra: era um velho, de cabelos brancos, boné de pano na cabeça, vestindo paletó bege encardido, calça azul desbotada. Em diferentes horas do dia lá estava ele, arrumando os bagulhos, tentando acomodá-los para ter mais espaço para mais bagulho. A carcaça de um Fusca apareceu providencialmente ao lado da perua. Quando a vi, também estava com muita coisa dentro. Mas nela ainda havia espaço para abrigar o atarefado morador.

Não foi difícil perceber, ao cabo de alguns dias, que o idoso tentava construir na rua uma casa imaginária, de dois cômodos: um para acumular, na perua, e outro para morar, no Fusca. De gente do bairro, tentei saber quem era ele e saber o porquê daquilo.

Fiquei sabendo que tinha moradia ali por perto. Os filhos que com ele moravam o teriam expulsado de sua própria casa. Era aposentado pelo INSS. Fui entendendo aos poucos o que estava acontecendo.

Seu Fulano passara a morar na riqueza imaginária do lixo acumulado, que organizava e guardava como pertences, forma anômala de criar raízes, de “ter” para ser. Doloroso desdobramento da cultura que rege esta sociedade, em que quem não tem também não existe social e politicamente. Seu Fulano foi se transformando num homem residual. Havia quem durante a noite contribuísse para amontoar, ao redor dele, mais lixo. Na estética da miséria, uma cruel instalação: o homem do lixo foi sendo convertido sorrateiramente num homem de lixo.

Há algumas semanas alguém, durante o dia, aproveitando sua ausência, pôs fogo naquilo tudo. No dia seguinte, só havia um monte de cinzas. As carcaças residuais da moradia fictícia haviam sido removidas. O velho estava atrapalhando o trânsito. Quase ao lado, na mesma praça pública, moradores haviam construído um oratório votivo, sempre bem cuidado. Pia ocupação do espaço público pela crença particular. Fortaleza da guerra santa entre as religiões. Embora violação da laicidade republicana, oratório pode; gente, não.

No dia 21 de maio, fiquei sabendo que Seu Fulano morrera durante a fria noite anterior, em outra rua do bairro. Fora despejado da vida. Ele inaugurara o inverno de 2010 dos moradores de rua.

cultura · idoso, pobreza
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