Perplexo e chocado
O presidente da Associação dos Juízes Federais declarou-se “perplexo e chocado” porque o governo recusa aumento salarial para sua categoria. Não posso dizer que fiquei perplexo, nem sequer surpreso, com o teor da declaração. Com a forma, sim, um pouco chocado.
O magistrado disse que “o governo não pode tratar sua relação com outro poder, que é independente, como se estivesse negociando com sindicato de motorista de ônibus”. Isso lá é jeito de falar com o público?
Os juízes devem ser independentes para julgar, não para decidir quanto ganham. No Reino Unido, por exemplo, um colegiado independente recomenda ao governo níveis de remuneração adequados para os juízes. Se o governo achar razoável, o Parlamento aprova.
O salário inicial de um juíz britânico é £111 mil por ano, equivalentes a R$297 mil. No Brasil, um juíz federal começa ganhando R$295 mil por ano. Empatou? Só se desconsiderarmos os países. O salário mínimo no Reino Unido equivale a R$2.608 por mês. No Brasil, foi para R$545. Mesmo abstraindo a base da pirâmide, mas levando em conta a paridade de poder de compra da libra e do real, o juíz brasileiro ganha bem mais do que o juíz britânico. Presta melhores serviços à sociedade?
Digamos que não são os juízes brasileiros que ganham muito; o povo brasileiro é que ganha pouco. Acontece que é esse povo que paga esses juízes.
Os juízes não parecem nem um pouco preocupados com isso e passam o tempo todo usando a alavancagem política que têm para esticar a corda das reivindicações salariais. Sobrecarregam o contribuinte e alimentam uma insatisfação permanente em outras categorias de funcionários públicos que, mesmo quando ganham razoavelmente, olham para os juízes lá em cima e sentem que estão ganhando uma miséria. É só ver o esforço desesperado dos policiais, procuradores etc. para atrelar sua remuneração à dos juízes.
Quanto ao motorista de ônibus, nas linhas municipais de São Paulo ele deve estar ganhando uns R$20 mil por ano (alguém pode me confirmar o número exato?). Por esse salário, responsabiliza-se pela vida de milhares de pessoas que leva e trás todo dia. É um trabalho cansativo, que exige muita perícia, paciência e atenção. Deprecia-lo para enaltecer a magistratura é, sim, de uma grosseria chocante.
Se os juízes querem ser tratados com mais deferência, precisam olhar menos para o próprio umbigo e mais para o povo pobre que com sacrifício paga seus ricos salários.





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impressionante.
a bem da verdade, a falta de reajuste em anos recentes (acho q uns 3 anos) reduziu um pouco o absurdo de vencimentos q essas carreiras jurídicas pagam na ENTRADA.
a lógica dessas carreiras está completamente equivocada: o mesmo material humano estaria à disposição do estado brasileiro por metade desse valor.
e a carreira poderia oferecer uma progressão até esse limite em 15 / 20 anos.
ainda seria um pacote BASTANTE atraente, e, levando-se em conta as outras mamatas (férias de 60 dias, recesso anual de 20 dias, licença prêmio de 90 dias a cada 3 anos, e OUTRAS), ainda seria a melhor oferta de carreira do estado brasileiro….
uma insanidade o q o país gasta com essas carreiras jurídicas, vis-a-vis o q entregam à sociedade.
Seria muito bom que os magistrados se preocupassem mais em dar vazão a demanda de processos que ficam tomando poeira em suas mesas, ao invés de ficarem fazendo pirraça, e se comportando pior do que os Motoristas de Ônibus, tão desdenhados pela declaração racista desse senhor.
É uma pena, Sérgio, mas é assim. Num país tão necessitado de justiça como o Brasil, os juízes e promotores poderiam, deveriam estar na vanguarda da democratização. Mas geralmente ficam na retranca do corporativismo.