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Por que o povo aprova Dilma?

Carlos Alberto Sardenberg, O Globo, 19/01/12

Como a presidente Dilma pode ter popularidade tão elevada se a população desaprova a gestão do governo em setores essenciais?

Está tudo na mesma pesquisa Ibope, a última do ano passado. São 56% os que consideram o governo Dilma bom/ótimo. E quase três entre quatro brasileiros aprovam a presidente. Além disso, o governo vai bem no combate ao desemprego, à pobreza e controle do meio ambiente.

Por outro lado, 67% dos pesquisados desaprovam os serviços de saúde, 60% condenam a segurança pública e 51% acham que a educação é ruim. No que se refere à situação econômica, nada menos que 56% condenam os juros e 51% acham que vai mal o controle da inflação.

O que explica isso?

A melhor hipótese é simples: falta oposição. Se a população considera ruins os serviços que recebe e, ao mesmo tempo, aprova o governo federal, só pode ser porque não considera a presidente responsável por aqueles problemas. Ora, carimbar a culpa no governo é o papel da oposição, em qualquer do mundo. No caso brasileiro atual, a oposição nem precisa mostrar que setores essenciais não funcionam — o povo percebe isso —, mas precisa demonstrar de quem é a responsabilidade.

Nem precisa mentir ou fazer uma propaganda enganosa. A responsabilidade é, de fato, do governo federal e da presidente. Por exemplo: juros altos e inflação elevada, isso é política econômica, área exclusiva Ministério da Fazenda e do Banco Central.

Mas, neste departamento, a acusação exige que se apresente a alternativa. Não basta apontar um problema que a população já sente. É preciso convencê-la de que há outro caminho para o que ela quer, juros menores e inflação baixinha. E aqui já se vê por que a oposição fracassa. Qual a proposta do PSDB, do DEM ou do PPS?

Líderes e associados desses partidos mostram ideias aqui e ali, mas não se vê nada construído em torno do nome forte da oposição, o candidato à presidência. Este, aliás, quem é? A vez é do senador Aécio Neves, mas vá dizer isso a Serra….

Além disso, muita gente formalmente da oposição até gosta da política econômica de Dilma. E saem críticas ao dólar barato — o que pode fazer sentido econômico, mas politicamente é ruim. O povo gosta do dólar barato que permite viajar para fora e comprar importados baratos.

Nos outros quesitos condenados nas pesquisas — saúde, educação e segurança — a coisa é ainda mais complicada. Nessas áreas, a responsabilidade não é apenas de Brasília, mas também dos governos estaduais, muitos dos quais em mãos da oposição. Aqui, portanto, não basta um bom discurso, é preciso mostrar serviço, fazer a diferença.

As escolas públicas de S. Paulo ou de Minas, os dois mais importantes estados administrados pelo PSDB, há anos, deveriam ser percebidas como muito melhores do que as demais. Idem para polícia, para os hospitais e postos de saúde, mas não é o que se vê. Ou que a população perceba. Mas o fato é que não se define uma opção efetiva de gestão diferente e melhor, que possa ser apresentada como o modo tucano (ou democrata) de governar naquelas áreas.

Não há consistência partidária. Em S. Paulo, por exemplo, no governo Serra, com Paulo Renato na Secretaria de Educação, houve um esforço de modernização e introdução de métodos baseados em mérito e eficiência. Mas o também tucano governador Alckmin, preocupado com a bronca dos professores, suspendeu o processo.

No Brasil, no geral, fica tudo muito parecido, inclusive nas boas iniciativas, sempre isoladas, e que encontram em gestões dos diferentes partidos.

Tudo considerado, assim como o presidente Lula fazia, sua sucessora consegue capitalizar as coisas boas e escapar das ruins. Capitaliza com intensa propaganda, como no caso do programa Brasil Sem Miséria — nem começou e já é apresentado na mídia como estrondoso sucesso. Já de uma fila do SUS, não há propaganda que salve, mas, como não há oposição que condene, a presidente pode fazer o que faz: bom, o problema é de todos.

Quanto à oposição tucana-democrata, já achou que conseguia derrotar Lula pela terceira vez, em 2002, com um pé nas costas, sem recorrer a FHC. Depois achou que o mensalão derrubaria Lula sem que ela precisasse se mexer. Em 2006, a oposição desistiu. Em 2010, achou que o povo entenderia Serra como o sucessor natural de Lula. Agora, continua esperando alguma coisa — talvez que o Brasil perca a Copa?

CARLOS ALBERTO SARDENBERG é jornalista. E-mail: sardenberg@cbn.com.br; carlos.sardenberg@tvglobo.com.br.

política · dilma rousseff, oposição, popularidade
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