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Quando a rede nos radicaliza

Pedro Dória, O Globo, 21/06/11

Aqui no Brasil, assim como nos EUA, a internet parece estar no centro de um processo de polarização política. A conversa, na rede, favorece os radicais. O adversário vira inimigo muito rápido e todo o incentivo está em ler aqueles com quem concordamos. Só eles. Lá nos EUA, diferentemente daqui, há um grupo de intelectuais debruçados sobre a questão. E há pelo menos uma jornalista, Brooke Gladstone da Rádio Pública de Nova York, reunindo já faz uns anos o trabalho dos pensadores que se dedicam ao tema.

Foi Cass Sunstein quem abriu este campo de estudos. Professor de Direito da Universidade de Chicago, Sunstein é casado com Samantha Powers, autora da biografia do embaixador brasileiro Sérgio Vieira de Mello. Ele é também, hoje, o capo do setor de regulamentação da Casa Branca. Seu livro sobre o processo de radicalização política da rede se chama Going to Extremes - Indo a Extremos -, publicado em 2009.

Todos preferimos exposição a argumentos com os quais concordamos, ele diz. Em sociedade, convivemos com gente com ideias as mais diversas. Para que a relação pessoal seja possível, tendemos a conversar com amenidade. A internet é diferente do mundo. Nela, escolhemos com quem vamos conviver. Numa rede social ou blog no qual só está presente gente que concorda com um mesmo ponto de vista, o incentivo é por ser aquele com menos dúvidas, com mais clareza. Os puros. Os radicais. A rede polariza.

Eli Praiser, fundador da ong de esquerda Move On, é autor de um livro recém lançado que vai um quê além. Se chama The Filter Bubble, algo como A bolha do filtro. O código de sites como Facebook e Google, segundo Praiser, força a polarização. Ele cita um exemplo pessoal. Preocupado em ter contato com gente que pensa diferente, ele se tornou amigo, na rede social, de gente interessante de direita. O Facebook, no entanto, acompanha os usuários com os quais conversamos mais. E sào eles que aparecem em nosso mural. Quando se deu conta, Praiser percebeu que o sistema só mostrava para ele os comentários de gente com afinidades. Dos outros, não. O filtro cria uma bolha e nos põe lá dentro.

Jacob Weisberg, diretor de redação da Slate, uma das mais tradicionais revistas online, discorda de Praiser. Sim, ele diz, este filtro que nunca nos apresenta aquilo com o que discordamos é possível. Mas não está ativo ainda. Se ele é mais forte no Facebook, é muito leve no Google, fonte de informação da maioria de nós.

Clay Shirky, professor cult da Universidade de Nova York, discorda de Sunstein usando argumento distinto. Ele acha que a internet polariza, sim, mas é por outro motivo. Blogs políticos em braços diametralmente opostos do espectro político incluem links um para o outro a toda hora. Situação e oposição se lêem. Nossa tolerância humana pela contínua exposição a argumentos opostos é que é baixa. Na rede, a radicalização não nasce da falta de oposição e sim do excesso.

Entre tantos pensando, há pelo menos uma pesquisa. É do Instituto Pew, que acompanha há mais de uma década o comportamento dos americanos na internet. Há diferença entre a pesquisa de 2008 e a de 2010. Por um lado, mais pessoas dizem que se informam por sites com uma linha editorial que acompanha suas ideias. Por outro, usuários de internet mais sofisticados, habituados com a rede, têm se preocupado mais em buscar fontes de informação variadas. Há uma década, 20% dos americanos não viam nenhuma notícia em um dia. Hoje este número caiu para 10%. Segundo o estudo, 55% dos americanos considera que a internet aumenta a influência de ideias políticas radicais à esquerda e à direita. E 56% considera que a internet torna mais difícil descobrir o que é verdade e o que não é. A pesquisa confirma que há radicalização, sim, mas também sugere que as pessoas têm mais acesso a informação. Aparentemente contraditório, mas parece fazer todo sentido.

O mundo está mais radical. Aqui, nos EUA, na Europa. Mas entender que aquele do qual discordamos só pensa diferente, que não é por má fé, é uma arte. Depende, no fim das contas, dum esforço pessoal.

comunicação · internet, opinião pública
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